Cowboys de Leningrado Vão para a América, Os

08/06/2008 | Categoria: Críticas

Com estilo despojado e toque de humor surreal, filme pôs o nome do finlandês Aki Kaurismäki no cenário internacional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um espectador desavisado que nunca tenha ouvido falado em “Os Cowboys de Leningrado Vão para a América” (Leningrad Cowboys Go América, Finlândia/Suécia, 1989) pode pensar, ao ver o impagável longa-metragem, que o diretor é Jim Jarmusch. Não apenas porque é enorme a semelhança entre o estilo de Jarmusch e o cinema do cineasta finlandês Aki Kaurismäki, mas também porque o norte-americano participa do filme, fazendo uma ponta como ator. Apesar da distribuição quase inexistente, “Os Cowboys de Leningrado Vão para a América” pode ser considerado responsável por tornar o nome de Kaurismäki conhecido e respeitado internacionalmente, ao menos dentro do círculo de cinéfilos que acompanha regularmente as novidades dos festivais europeus.

A história parte, como a maioria dos filmes de Kaurismäki, de uma pequena situação insólita que se desenrola de maneira inesperada e imprevisível. O filme trata da viagem para os Estados Unidos de uma excêntrica banda de polca da Sibéria. Sem conseguir atrair público na terra natal, os Leningrad Cowboys aceitam a sugestão de um empresário russo (“os EUA têm público para tudo”) e viajam a Nova York. Mesmo na grande metrópole eles são parias – músicos de segunda categoria, que usam topetes de meio metro, sapatos pretos de bico fino, terno e gravata. Sem espaço por lá, a turba russa topa outra sugestão. Larga a polca para tocar clássicos do rock’n’roll, compra um carro caindo aos pedaços (o vendedor é Jim Jarmusch em pessoa) e se manda para fazer som numa festa de casamento no México.

A câmera de Kaurismäki, sempre estática e observando tudo a longa distância, acompanha a viagem. Trata-se, portanto, de uma curiosa mistura de comédia, musical e road movie. Como de hábito, o diretor finlandês resume os diálogos ao mínimo possível, apenas o essencial para que a história continue compreensível. Outra característica do diretor é pedir que os atores utilizem um estilo minimalista de interpretação, sem expressões faciais ou corporais, quase como se estivessem narcotizados. Juntas, essas duas características emprestam ao filme uma atmosfera etérea, repleta de afeto mas ao mesmo tempo sublinhada por um toque surreal, nonsense e divertido. A semelhança com os trabalhos de Jim Jarmusch (somada, claro, à paixão do diretor americano por topetes e rockabilly) vem daí.

Não se trata de mera imitação. De fato, Kaurismäki e Jarmusch são influenciado pelos mesmos cineastas, notadamente o francês Robert Bresson e o japonês Yazujiro Ozu. Ambos usavam o despojamento como técnica para dar a chance de a platéia projetar seus próprios sentimentos nos filmes. Ainda assim, a predileção de ambos por um tipo de humor levemente surreal, o uso constante de planos gerais com longa duração e o uso de música retro acabam por aproximá-los ainda mais. Espectadores íntimos com os filmes de Jarmusch vão perceber sem esforço a semelhança de “Os Cowboys de Leningrado Vão para a América” com “Daunbailó” (1986), inclusive escolha de cenários (os pântanos da Louisiana), na estrutura de road movie e no olhar estrangeiro dirigido aos EUA. Estas últimas duas características também aproximam o longa de Kaurismäki do excelente “Stroszek” (1977), de Werner Herzog.

Uma curiosidade interessante reside na banda que interpreta os Leningrad Cowboys. Os rapazes são finlandeses e, na vida real, tocavam mesmo juntos antes das filmagens, sob o nome de The Sleepy Spleepers. Com o sucesso relativo do filme no circuito europeu alternativo, eles adotaram o nome Leningrad Cowboys e iniciaram uma bem-sucedida carreira musical, numa trajetória bem semelhante à do grupo de “The Commitments” (1986). Aki Kaurismäki continuou acompanhando os músicos nos anos seguintes. Fez com eles seis videoclipes e mais dois longas-metragens, um deles registro de um concerto (“Total Balalaika Show”) realizado na Rússia, ao lado do coro do Exército Vermelho. “Os Cowboys de Leningrado Vão para a América”, porém, continua a ser o mais divertido e inteligente resultado do encontro do finlandês com a banda.

Embora tenha sido exibido dentro da Mostra de Cinema de São Paulo, o longa-metragem jamais recebeu lançamento comercial no Brasil. Também nunca apareceu em DVD. Nos EUA, está disponível dentro de uma caixa com outros dois filmes estrelados pelos Leningrad Cowboys, todos dirigidos por Aki Kaurismäki. A qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Os Cowboys de Leningrado Vão para a América (Leningrad Cowboys Go América, Finlândia, 1989)
Direção: Aki Kaurismäki
Elenco: Matti Pellonpää, Kari Väänänen, Nicky Tesco, Heikki Keskinen
Duração: 78 minutos

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