Cowboys do Espaço

09/09/2008 | Categoria: Críticas

Clint Eastwood dá outro passo para destruir a própria imagem de invencível em mistura agradável de drama e comédia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A carreira de Clint Eastwood é uma das mais idiossincráticas já vistas em Hollywood. Ao longo de cinco décadas, o ator limitado que se especializou em interpretar heróis durões, sempre calcados na mitologia norte-americana, foi lentamente se transformando em um cineasta de estilo clássico, ao mesmo tempo despojado e delicado. O processo de transição foi longo, e incluiu uma série de filmes em que Eastwood se dedicou, lenta e pacientemente, a destruir a auto-imagem de sujeito invencível que havia projetado durante tanto tempo. Nesse sentido, “Cowboys do Espaço” (Space Cowboys, EUA, 2000) é um primo muito próximo de obras como “Os Imperdoáveis” (1992) e “Dívida de Sangue” (2002). Não chega ao nível de excelência do primeiro, mas está vários degraus acima do segundo.

A idéia original para o filme nasceu de um episódio real, ocorrido em 1998. O então senador John Glenn, primeiro astronauta norte-americano a visitar o espaço (em 1962), participou de um vôo espacial de nove dias, como parte de uma experiência da Nasa para avaliar as conseqüências da ausência de gravidade em pessoas da terceira idade. Glenn tinha 77 anos de idade. Eastwood pensou que o acontecimento, dramatizado da forma correta, renderia um filme interessante a respeito de um dos aspectos da condição humana que ele mais gostava de investigar: os efeitos do envelhecimento sobre o lado psicológico das pessoas. Os roteiristas Ken Kaufman e Howard Klausner trataram, então, de criar um caso ficcional inspirados no episódio.

Eles imaginaram um quarteto de pilotos da Força Aérea americana que treinavam com aviões supersônicos, em 1958, e acabaram passados para trás pelo nascimento da agência espacial dos EUA (para mais detalhes sobre o surgimento da Nasa, veja o filme “Os Eleitos”, de Philip Kaufman). Quatro décadas depois, eles são procurados pelo antigo chefe (James Cromwell), um desafeto, para ajudar na resolução de um problema grave. Aparentemente, um importante satélite de comunicações russo deixou de funcionar e pode cair na atmosfera terrestre, com chances de causar um acidente de grandes proporções. Somente um homem no planeta está em condições de operar o software instalado no satélite: Frank Corvin (Eastwood), engenheiro e piloto aposentado. Foi ele quem escreveu o tal programa, que ninguém sabe como foi parar no equipamento soviético. Corvin aproveita a situação para impor uma condição: ele mesmo irá ao espaço para corrigir a falha, acompanhado dos três colegas que compunham a tripulação original de testes da Nasa, dispensada em 1958.

Dividindo a ação dramática em três fases bastante distintas, a dupla de roteiristas acerta em cheio da mistura sutil de drama e comédia, sem forçar a barra para nenhum dos dois lados. Após um primeiro ato essencialmente expositivo, em que os personagens são apresentados e a dinâmica entre eles é estabelecida, a história brinca com os exaustivos treinamentos físicos e psicológicos necessários para a missão, no ato 2, e flerta com o drama rumo ao clímax. Cinéfilos mais exigentes podem reclamar de pequenos furos de roteiro (a ausência de uma investigação, por exemplo, para descobrir como o software americano foi utilizado pelos adversários políticos), e até mesmo dos desdobramentos mais trágicos que ocorrem perto do final, mas o desenvolvimento da história é firme e dá conta com tranqüilidade de todas as pequenas subtramas que surgem pelo caminho.

Na época da produção, previa-se dificuldades para Eastwood, conhecido como um dos diretores que filmam mais rápido na indústria norte-americana, por causa do uso extenso de efeitos especiais. Isso, porém, não aconteceu. De modo geral, a computação gráfica aparece de maneira discreta, abrindo espaço generoso para que os atores possam fazer sua parte. O elenco, aliás, vale um elogio extra – é enorme e muito qualificado, contando com veteranos do naipe de Tommy Lee Jones (talvez um pouco jovem para o papel), Donald Sutherland, James Garner, James Crowell e Marcia Gay Harden, todos muito eficientes. Não chega a ser um dos melhores longas de Eastwood, mas está à altura de épicos espaciais como o citado “Os Eleitos” e o bom “Apollo 13”.

O DVD simples traz o filme com qualidade decente de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Como extras, há quatro featurettes que oferecem uma visão das filmagens, inclusive abordando os efeitos especiais. Pena que esse material extra vem sem legendas.

– Cowboys do Espaço (Space Cowboys, EUA, 2000)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland, James Cromwell
Duração: 130 minutos

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