Crash – No Limite

30/08/2006 | Categoria: Críticas

Sete histórias cruzadas sobre preconceitos diversos rendem filme maduro, mas acessível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Crash – No Limite” (EUA/Alemanha, 2005) reacende um debate que volta e meia reaparece nos círculos de cinéfilos: até que ponto é válido o uso de artifícios dramáticos para realçar o resultado que o diretor deseja atingir? Vale a pena sacrificar o realismo de um espetáculo cinematográfico em nome do recado que se deseja passar? Essas perguntas ecoam com toda a força porque “Crash” é um filme intenso, maduro, que bate forte no tema “preconceito”. Por outro lado, embora se proponha realista, ele descreve uma realidade falsa, repleta de licenças poéticas. E isso, para algumas pessoas, pode ser um grande problema.

O filme é o segundo trabalho do roteirista Paul Higgis como diretor de cinema (o anterior foi feito há mais de 10 anos e não alcançou nenhuma repercussão). Higgis, conhecido por trabalhar na televisão americana, foi alçado ao primeiro time de Hollywood depois de assinar o roteiro de “Menina de Ouro”, obra-prima de Clint Eastwood. Depois, apareceu com um roteiro diferente, um texto com 26 personagens e nenhum protagonista, e conseguiu US$ 6 milhões para fazê-lo. A qualidade do material atraiu astros como Sandra Bullock e Brendan Fraser, que abdicaram de salários para levar o material às telas. O resultado é um filme singular, que provoca reações bastante diversas.

Obras de estrutura circular, que enfocam encontros casuais de personagens que não se conhecem, não são novidade em Hollywood. Duas obras-primas do gênero costumam ser citadas por admiradores sempre que o assunto entra em pauta: “Short Cuts”, de Robert Altman, e “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson. Muitos cineastas de menor calibre já engrossaram as fileiras de quem filmou o coletivo em detrimento do individual. “Contrato de Risco”, de John Herzfeld, e “Grand Canyon”, de Lawrence Kasdan, são obras percorrem a mesma trajetória. “Crash” vem se juntar a essa grupo, somando a ele outra singularidade: todas as obras se passam em Los Angeles (EUA), uma das cidades de maior densidade populacional e com maior área urbana do mundo.

Cada um desses filmes possui um fio condutor que une os personagens. Ele pode ser uma rua (“Magnólia”), um bairro (“Contrato de Risco”), um grupo de personagens amigos (“Grand Canyon”). No caso de “Crash”, a unidade é providenciada pelo tema comum a todas as histórias: o preconceito. Na realidade, antes de ser classificado pela estrutura narrativa, o longa-metragem deveria ser visto como uma parábola cinematográfica sobre esse tema. Os 26 personagens vivem sete diferentes histórias que se entrecruzam, durante dois dias. Todos os pequenos contos giram em torno da idéia do preconceito, em diversas modalidades (racial, sexual, social, étnico).

Para compor o ambicioso e complexo painel humano do filme, Paul Haggis construiu uma galeria de personagens que inclui representantes dos grupos mais diversos. Há negros e brancos, asiáticos e latinos, adultos e crianças, ricos e pobres, intelectuais e semi-analfabetos, homens e mulheres (curiosamente, não há homossexuais, o que deixa de fora do painel montado pelo filme esse tipo de preconceito, justamente um dos mais abordados pela mídia). A partir dessa galeria, montada cuidadosamente, o diretor passa a analisar o conceito de preconceito em diversos níveis, dos mais básicos até os mais refinados e intrigantes.

Na cartilha de Paul Haggis, o preconceito pode ser simples e óbvio. Durante uma batida de carros sem gravidade, por exemplo, uma mulher norte-americana faz troça da motorista do outro carro porque ela é chinesa e fala um inglês imperfeito. Em outra cena, um casal vestindo roupas chiques muda de calçada quando percebe que na outra direção vêm dois rapazes negros. Uma terceira seqüência mostra um casal de detetives na cama, quando o sujeito, um negro, chama a parceira de “mexicana”, o que atrai a ira da colega, já que os pais dela são de Porto Rico e El Salvador. Esse é o preconceito claro, evidente, em seu estado mais bruto.

Por outro lado, o tema pode surgir de maneira inconsciente ou mesmo se manifestar de maneiras bem mais complexas. Um dos melhores momentos do filme mostra como um promotor ambicioso (e branco) tenta distorcer o resultado da investigação do assassinato de um detetive negro. O sujeito foi morto a tiros por outro policial. O acusado é branco. Indícios mostram que o negro era corrupto e tinha ligações com traficantes de droga, mas o promotor prefere esquecer esses detalhes negativos porque foi assaltado por dois negros, no dia anterior. Ele avalia que arrumar um “herói” negro é a maneira perfeita para contrabalançar a notícia sobre o assalto. O objetivo maior é não perder os votos da comunidade negra de Los Angeles.

A teoria de Paul Haggis é de que o preconceito guia nossas ações cotidianas, mesmo quando não percebemos. É louvável, nesse sentido, o esforço perceptível do diretor/roteirista para se afastar de todo e qualquer tipo de maniqueísmo. Todos os personagens do filme, quase sem exceções, são pessoas comuns, vulneráveis, com virtudes e defeitos em igual proporção. Gente capaz de uma atitude desprezível que, no momento seguinte, age de maneira nobre e altruísta. Ou o contrário; uma pessoa boa e amável que comete um crime no outro minuto. Para Haggis, todos estamos sujeitos a ações boas e ruins, mas quase sempre elas estão ligadas, sutilmente ou não, à ação de algum tipo de preconceito.

Talvez o melhor exemplo dessa ausência de maniqueísmo, em “Crash”, seja o personagem de Matt Dillon. Ryan é um policial. Na primeira vez que o vemos, ele patrulha uma avenida à noite e pára o carro de luxo de um casal negro. Marido e mulher estão 100% dentro da lei, mas mesmo assim Ryan exagera na dose e comanda uma revista escandalosamente invasiva em Christine (Thandie Newton), sob o olhar desesperado do marido Cameron (Terrence Howard). Ryan é um homem mau? Não. As cenas seguintes provam isso. Ele é alguém sob forte pressão, pois o pai vem sofrendo com dores excruciantes, e o seguro-saúde lhe nega ajuda. No dia seguinte, outra ronda de rotina vai colocar o policial numa posição bastante diferente, provocando um segundo encontro surpreendente com Christine.

A história de Ryan ilustra tudo de bom e de ruim que “Crash” apresenta. As qualidades são muitas, a começar pelos personagens complexos, humanos, de carne e osso, e pelos elos sólidos, mas circunstanciais, que se estabelecem entre eles. Paul Higgis defende que a questão do preconceito tem ligação direta com as relações de poder que surgem e se desfazem a cada encontro, de acordo com cada circunstância. Quando pára o casal, por exemplo, Ryan está no comando; ele ganha um salário ridiculamente menor do que eles, mas naquele momento exerce o poder. No dia seguinte, quando é recebido por uma funcionária da seguradora para tentar um atendimento digno para o pai, a situação já é bem diferente. Outra relação de poder se estabelece, e é a vez de Ryan sair perdendo.

Essa conexão entre as atitudes preconceituosas e as relações fortuitas de poder que se estabelecem nos encontros casuais é a melhor coisa de “Crash”. O filme se sai muito bem ao narrar as sete histórias, com tantos personagens, de modo compacto e rigoroso. Não há pontas soltas e nem gordura narrativa; cada cena tem seu lugar no enredo, mesmo quando não parece muito importante. Preste atenção, por exemplo, na seqüência em que o comerciante iraniano tenta comprar uma arma; perceba que a cena se estende pelo que é aparentemente um excesso, quando a filha do oriental é instada a escolher o tipo de munição que deseja levar. Pois aquele “excesso” vai se revelar crucial em outra cena, muitos minutos mais tarde.

Um dos problemas mais sérios do filme, por outro lado, é algo relativamente comum nas obras que narram histórias cruzadas; quase sempre, essas histórias apresentam picos dramáticos ocorrendo todos ao mesmo tempo, algo impensável na vida real. É interessante evocar o crítico francês André Bazin, para explicar melhor essa idéia. Na resenha que escreveu sobre “Janela Indiscreta”, Bazin elogia os méritos cinematográficos do filme de Hitchcock, mas revela ter ficado incomodado com o fato de que todas as histórias observadas pelo personagem de James Stewart, da janela do seu apartamento, começam e terminam simultaneamente. Ele argumenta que isso jamais aconteceria na vida real. E tem razão.

Voltamos, portanto, à questão apresentada no primeiro parágrafo deste texto. As sete histórias cruzadas narradas pelo filme terminam, como em “Janela Indiscreta”, ao mesmo tempo. Claro, esse detalhe é uma licença poética, um artifício dramático. Mas isso faz um filme tremendamente humano soar, no fim, artificial. Esse realismo falso pode incomodar aqueles que olharem para “Crash” com os olhos realistas de Bazin, desejando ver no filme uma reprodução fiel da realidade. Pior ainda é perceber que, bem à moda de Hollywood, Haggis parece ter tido medo de mergulhar fundo na tragédia, criando um filme que pinta um painel pessimista e acaba se mostrando contraditoriamente esperançoso, no final.

Tudo bem, já foi dito antes: trata-se de uma parábola. O final de uma parábola precisa conter uma lição e uma esperança. Em “Crash”, cada um dos personagens vive pelo menos dois acontecimentos extraordinários, um mostrando-o de um ponto de vista bom e o outro, mau. Na vida real, no mundo de carne e osso, as coisas não funcionam dessa maneira. Histórias de vida não são relógios suíços, e hoje em dia muitas lições precisam ser pisadas e repisadas muitas vezes, antes de serem aprendidas – e muitas vezes não o são. Há, além disso, um problema ainda mais curioso. Imaginar que, em uma cidade como Los Angeles, várias pessoas podem se encontrar casualmente duas ou mais vezes, no mesmo dia, é simplesmente uma impossibilidade estatística.

Outra característica que merece ser comentada é o desempenho extraordinário de todo o elenco, desde os astros até os desconhecidos. Normalmente, nesse tipo de filme, ser anônimo é uma vantagem; ter um rosto conhecido pode acrescentar características a determinados personagens que não estão no roteiro. Mas Higgis é um ótimo diretor de atores, e faz com que até as estrelas, como Sandra Bullock, desapareçam dentro dos seus personagens.

As performances mais brilhantes, contudo, vêm mesmo dos menos conhecidos, gente como Terrence Howard (o diretor de TV negro) e Shaun Toub (o comerciante iraniano). As atuações são naturalistas, espontâneas, reforçadas pelo generoso uso de closes em rostos e pela grande quantidade de cenas com diálogos perfeitos. Três dessas cenas, pelo menos, são merecedores de créditos: (1) a conversa entre o chaveiro chicano (Michael Peña) e a filha (Ashlyn Sanchez) sobre uma capa protetora invisível; (2) o monólogo de Sandra Bullock sobre o fato de viver com raiva; e (3) a abertura com o detetive (Don Cheadle), que resume a tese e explica o título do filme em três ou quatro frases de impacto.

Por tudo isso, parece evidente que o filme gêmeo de “Crash” é mesmo “Magnólia”. O filme de Paul Higgis, como o de PT Anderson, é quase sempre profundo e emocionante e emocional, mas tem uma pompa que o faz parecer artificial e intelectualizado demais. De qualquer forma, apesar dos eventuais deslizes, “Crash” está um degrau acima do nível habitual dos dramas produzidos em Hollywood, e oferece oportunidade de refletir e discutir os fatos do cotidiano dentro de um contexto original.

A Europa Filmes lançou duas versões em DVD. O disco para locadoras é simples e pobre, com imagem mutilada nas laterais (fullscreen). A edição de colecionador, por sua vez, é bem melhor. Dupla, tem imagem (wide anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1) excelentes, e um disco só de extras, contendo um making of, três featurettes, galeria de storyboards, introdução em vídeo do diretor, cenas cortadas e trailer, tudo com legendas em português.

- Crash – No Limite (EUA/Alemanha, 2005)
Direção: Paul Higgis
Elenco: Matt Dillon, Don Cheadle, Sandra Bullock, Terrence Howard, Ryan Philippe
Duração: 113 minutos

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