Crepúsculo dos Deuses

25/05/2004 | Categoria: Críticas

Obra-prima metalinguística de Billy Wilder espeta fundo o orgulho de Hollywood em DVD de primeira

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Mágica. A palavra é a melhor descrição possível para o clássico “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, EUA, 1950). A estória da lendária estrela do cinema mudo que perdeu o bonde da história continua a ser o retrato mais ousado e sarcástico da vida das celebridades em Hollywood. Mas o filme vai muito além disso; é um drama sobre a ambição humana como poucos cineastas foram capazes de produzir. Cada plano, ator, diálogo, roupa, cenário ou locação se encaixa no filme como um Lego recém-comprado. Um filme não pode ser mais perfeito do que essa obra-prima.

Curiosamente, “Crepúsculo dos Deuses” raramente é citado pelos especialistas como um dos grandes filmes do mestre austríaco Billy Wilder. Em parte, isso acontece devido ao grande número de clássicos que Wilder dirigiu – ele foi responsável, por exemplo, pelas comédias “Quanto Mais Quente Melhor” e “O Pecado Mora ao Lado”, que eternizaram a imagem do mito Marilyn Monroe, e pelo noir “Pacto de Sangue”, um dos melhores filmes policiais já produzidos.

Mesmo assim, talvez seja “Crepúsculo dos Deuses” o filme mais perfeito do legado extraordinário de Wilder. Como sempre acontece nas grandes obras de arte, o cineasta mirou em um alvo relativamente pequeno – a vida excêntrica e desconectada da realidade vivida pelas estrelas do cinema – e acertou em outros, muito maiores. “Crepúsculo dos Deuses” reflete sobre ambição, cobiça e o preço da alma, ou da dignidade, de um homem. Estou falando de uma espécie de “Fausto” do século XX.

Joe Gillis (William Holden) é um roteirista em apuros financeiros. Prestes a ver confiscado o carro novo e sem conseguir um trabalho decente, ele aceita reescrever um roteiro da estrela de cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson). O relacionamento dos dois é cheio de sobressaltos e difícil; Gillis compreende rapidamente que a mulher vive numa espécie de mundo de fantasia.

Norma mora numa enorme e decadente mansão na Sunset Boulevard, uma avenida chique de Hollywood que empresta o nome ao filme. Tem um macaco de estimação que morre de velhice e ganha um enterro de gala no jardim, um automóvel caríssimo da década de 1920 e um mordomo estranho e um tanto mórbido, Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim). São personagens fascinantes, cheios de nuanças e dimensões. O filme se dedica a examinar, de modo realista e até mesmo cruel, a maneira como Joe Gillis entrega a própria dignidade em troca de uma vida confortável e preguiçosa.

Essa narrativa é construída de uma maneira tão sólida que o filme passa como um piscar de olhos. Gillis vai se tornando um canalha, mas não percebe isso – e a própria platéia ficaria sem perceber, se o drama interior do personagem não possuísse uma ressonância tão forte na excêntrica e teatral Norma (“Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos”, afirma a atriz, num dos momentos mais memoráveis do filme) e nos dois coadjuvantes.

Aliás, são essas as duas pessoas que transformam o filme no granda trabalho que é. Max, o mordomo que escreve e põe no Correio as cartas em nome dos fãs para a patroa, e Betty Schaeffer (Nancy Olson), a jovem roteirista que trabalha com Joe num projeto paralelo, dão a verdadeira dimensão da situação dramática narrada pelo longa-metragem. As tentativas pouco convincentes de Gillis para se livrar da crescente influência de Norma e as patéticas cenas de sedução que esta arma para o escritor bonitão ganham significados extras e profundidade quando contrapostos com as vidas pessoais dos dois coadjuvantes.

Os quatro atores compõem, talvez, um dos elencos mais brilhantes e perfeitos que Wilder dirigiu. É impressionante saber que Swanson foi apenas a quarta atriz que o diretor tentou contratar, e que Holden também só pegou o papel depois de três outras recusas. Já Erich Von Stroheim, diretor de grandes filmes mudos, oferece um incrível bônus para o filme, pois parece interpretar uma versão exagerada de si mesmo. Anos depois do filme, Billy Wilder disse que o cineasta ajudou a compor o personagem (foi dele a idéia fantástica de que Norma e Max já teriam sido marido e mulher).

Também é impressionante saber que o filme foi um dos poucos, na obra de Wilder, a sofrer alterações significativas depois de pronto. A abertura original da película era uma cena no necrotério de Los Angeles, em que seis cadáveres relatavam, uns aos outros, as maneiras como haviam morrido; em certo momento, Joe Gillis começava a narrar a própria morte, e daí o filme. Em exibições-teste, contudo, as platéias reagiram a essa abertura com risadas, e Billy Wilder voltou aos sets para filmar a antológica seqüência do corpo de Joe Gillis boiando na piscina, com a ajuda de um complicado sistema submerso de espelhos. Tudo isso faz do filme uma jóia do cinema norte-americano, uma das grandes obras de todos os tempos.

No Brasil, o DVD de “Crepúsculo dos Deuses” oferece alguns bônus que o transformam em item obrigatório numa coleção. Há um documentário de bastidores (25 minutos), outro sobre a figurinista Edith Head, um extra interativo que mostra as locações reais em que o filme foi feito, cenas da abertura original e até um comentário em áudio do estudioso Ed Sukov, especialista na obra de Billy Wilder. Além disso, a imagem restaurada e o áudio original em Dolby Digital 2.0 estão maravilhosos. Não perca.

– Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, EUA, 1950)
Direção: Billy Wilder
Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich Von Stroheim, Nancy Olson
Duração: 110 minutos

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