Criança, A

22/10/2007 | Categoria: Críticas

Pequeno e encantador filme belga retrata falta de perspectiva da juventude européia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um prêmio como a Palma de Ouro no mais prestigiado festival de cinema do mundo, o de Cannes, pode ser uma bênção ou uma maldição. É certo que faturar um troféu dessa importância pode abrir as portas de um filme para o mercado internacional. Por outro lado, a láurea gera uma expectativa natural numa parcela internacional de cinéfilos, que passam a esperar verdadeiros tratados filosóficos sobre a humanidade desse tipo de filme. O filme “A Criança” (L’Enfant, Bélgica/França, 2005) ganhou Cannes em 2005, mas não é nada disso. Trata-se de um encantador filme pequeno, naturalista, que narra o cotidiano de um casal de pós-adolescentes de baixa renda em uma cidade pequena da Bélgica.

Quem esperar encontrar um tema mais amplo por trás do enredo franciscano pode ter uma decepção. “A Criança” é um filme sobre nada em particular, exceto talvez sobre a falta de perspectiva da juventude contemporânea. Nesse sentido, é bom ressaltar uma certa semelhança com outro filme laureado com a Palma, apenas dois anos antes: “Elefante”, de Gus Van Sant. Não são filmes muito parecidos em termos de ambição narrativa (a obra norte-americana é mais ousada), mas se aproximam no sentido de que lançam um olhar curioso, e também carinhoso, para uma juventude que parece se ressentir, cada vez mais, de algum tipo de referencial humano.

O filme dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne exala uma enorme vontade de abraçar seus personagens e lhes dar calor humano. Sonia (Déborah François) e Bruno (Jérémie Renier) são jovens namorados que acabam de ter um filho. Ela tem 20 anos, ele 22. São obviamente apaixonados, mas ainda não compreenderam a responsabilidade de ter um filho. O filme começa narrando a história dela, mas logo muda o foco e concentra seu olhar em Bruno. Ele comanda uma quadrilha de crianças que fazem pequenos roubos, vive de revender o material roubado e acha que trabalhar é coisa para “babacas”. Sua filosofia de vida não muda com o nascimento do pequeno Jimmy. Bruno não vê o bebê como um filho, mas como oportunidade para faturar algum dinheiro. Resta saber como.

O título do filme possui duplo sentido. O mais óbvio se refere ao recém-nascido, pois a história se propõe a examinar o que muda na vida do casal após o nascimento. Um pouco de observação, no entanto, deixa claro que a tal criança pode ser, na verdade, qualquer um dos três. A verdade é que tanto o rapaz quanto a garota são crianças crescidas. “Precisamos arrumar um segundo nome para o bebê”, diz Sonia, em certo momento, a Bruno. “Pensei em colocar o nome do seu avô”, continua. Ele dá de ombros. Qual a importância que o nome de um recém-nascido pode ter para ele? Aos poucos, fica evidente que a criança do título é Bruno, e não o bebê (que, aliás, não passa de objeto cênico, pois jamais tem o rosto mostrado).

Uma referência importante do filme é a obra de François Truffaut, especialmente os filmes com o personagem Antoine Donel, a exemplo de “Os Incompreendidos”. O tratamento dado ao personagem pelos cineastas belgas é bastante semelhante. Em momento algum o filme recrimina ou condena os atos de Bruno, por mais absurdos ou egoístas que possam parecer. Ao contrário: o olhar do filme é exemplo carinhoso, condescendente, positivo. Bruno é um ladrão, sim, mas um ladrão sem maldade. Os irmãos Dardenne não julgam suas ações ou sua vida. No fundo, ele é um homem comum, cheio de imperfeições, mas de índole boa.

Esse detalhe sobre a índole de Bruno merece inclusive uma reflexão mais atenta, pois demonstra quão bem construído é o personagem. Observe que os irmãos Dardenne jamais mostram uma única atitude positiva dele – mas mesmo assim a platéia sabe que Bruno é um cara legal. Como isso é possível? Simples: através do amor que ele demonstra por Sonia, especialmente nas cenas concentradas no primeiro ato do longa-metragem. É certamente um amor infantil, imaturo e bobo, mas é amor sincero – e o amor é o bastante para que saibamos que Bruno é OK. O final perfeito – íntimo, delicado, emocionante sem ser emocional – deixa isso mais claro.

Para a sociedade brasileira, que aprendeu a odiar (e até matar) seus delinqüentes juvenis, pode ser mais difícil compreender esse olhar carinhoso dos cineastas. A cultura belga é bem diferente da nossa. Além disso, a Europa não é a América Latina. Os pobres na Bélgica têm um padrão de vida bem superior ao dos miseráveis brasileiros. Por isso, quando Bruno em certo momento fica sem dinheiro para comer e vai dormir enrolado numa caixa de papelão, embaixo da ponte, vemos na cena algo de familiar, mas jamais sentimos que o rapaz está realmente ameaçado de passar fome. A pobreza no Primeiro Mundo não é angustiante como a nossa, não possui a urgência que caracteriza as comunidades carentes na América Latina; é indolente, quase indiferente à própria condição.

Em termos estéticos, “A Criança” é uma pequena jóia de espontaneidade e naturalismo. Para começar, o filme foi inteiramente feito nas ruas, sem uma única tomada sequer em estúdio. Além disso, não tem trilha sonora, e o som é 100% captado em locação, só que de forma límpida e dinâmica, sem perder a clareza nos diálogos. Jean-Pierre e Luc Dardenne filmam tudo em longos planos sem cortes. Dito assim, pode até parecer que o filme tem ritmo lento, mas isso simplesmente não acontece; os pequenos dramas dos personagens enchem a tela e fazem o tempo parecer passar mais rápido, o que dá agilidade à narrativa. Quando menos se espera, o filme acaba, de maneira até abrupta, mas perfeitamente coerente com o todo.

Um dos melhores elementos do filme é o ator Jérémie Renier, próximo da perfeição. Sem sua performance jovial e energética, Bruno não seria um personagem tão fascinante. A simples postura corporal e facial do rapaz (o celular sempre rondando as mãos, um permanente ar de criança em meio a uma travessura no rosto) torna-o um ser humano trivial e, ao mesmo tempo, fascinante. Sua performance na cena final é emocionante. O resto do elenco oferece performances espontâneas, bem adequadas ao cinema naturalista dos irmãos Dardenne.

Em resumo, “A Criança” representa um cinema que corre na contramão de Hollywood, e que fascina pelo frescor e riqueza humana da abordagem de um tema simples. Só não adianta esperar algum tipo de lição de grandeza que alguns esperariam de um vencedor de Cannes, porque aí a decepção pode ser grande. Talvez resida aí a maldição do longa-metragem: é cinema maiúsculo, mas espontâneo e sem ambição. Mais ou menos como as grandes obras de arte.

O DVD, lançado pela Imovision, tem qualidade razoável de imagem (widescreen letterboxed) e áudio (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– A Criança (L’Enfant, Bélgica/França, 2005)
Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Elenco: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rangione
Duração: 95 minutos

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