Crime Delicado

20/09/2006 | Categoria: Críticas

Beto Brant celebra a natureza impossível de uma representação objetiva da realidade em filme difícil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Ao contrário da maioria dos cineastas, Beto Brant não gosta de falar sobre os filmes que dirige. Esse dado se manifesta com força especial quando se assiste a “Crime Delicado” (Brasil, 2005), quarto longa-metragem da carreira dele, por uma razão simples: trata-se de uma obra hermética, difícil, anti-convencional, completamente diferente do que se espera ver quando se vai ao cinema. “Crime Delicado” é tão inusitado que muita gente precisaria ouvir do diretor uma explicação para poder entendê-lo – e isso, é evidente, não tem chance de ocorrer. A recusa de Brant em falar sobre o filme tem reflexos na própria narrativa, que aborda de maneira ousada a relação entre a arte, a crítica e a vida.

“Crime Delicado” é, sobretudo, corajoso, pelo modo ousado, cheio de honestidade e despudor, como trabalha a idéia da força irreprimível de sentimentos como o ciúme e o desejo. Esse é um segundo tema evidente do longa-metragem. A análise dessas duas abordagens tem sido o tema central da acirrada polêmica que a crítica brasileira trava sobre o filme. No entanto, afirmar que o filme de Beto Brant é sobre a relação do crítico com o artista, ou ainda que é um estudo sobre o desejo, é uma atitude reducionista que o próprio conjunto de idéias da obra trata de condenar. O que “Crime Delicado” celebra, é, acima de tudo, a natureza impossível de uma representação objetiva da realidade.

A chave para essa leitura do filme é a longa seqüência em que os dois personagens principais, Antônio (Marco Ricca) e Inês (Lílian Taublib), fazem sexo. A cena é capturada com câmera fixa, sem cortes, e mesmo assim resulta ambígua e inconclusiva. Mais tarde, a garota vai acusar formalmente o homem de estupro. Inês acha que foi agredida. Antônio garante que não. Cada um acredita sinceramente no que está falando. Quem tem razão? Depende de você, leitor/espectador. A recusa de Beto Brant em comentar o filme é um reflexo de situação semelhante: a possibilidade de múltiplas leituras, todas elas válidas, sobre algo ou alguém.

A virtude mais louvável de “Crime Delicado” é que o filme, baseado num romance do escritor Sérgio Sant’anna, consegue dramatizar brilhantemente um conceito abstrato que é oriundo da filosofia clássica, e que poucas vezes reverberou em uma trama narrativa com tanta força e qualidade: a idéia de que a realidade concreta e objetiva não pode ser apresentada, sequer observada, pois estará sempre submetida a algum filtro (a linguagem, o olhar de um sujeito). Esses filtros vêm carregados de subjetivismos que inevitavelmente contaminam qualquer representação fixa dessa mesma realidade. Esse conceito aparece em “Crime Delicado” de diversas maneiras, em várias cenas.

O personagem principal é um crítico de teatro. Antônio leva sua profissão a sério. Ele tem grande bagagem intelectual (o filme não afirma isso, mas é possível deduzir pela prosa requintada, pela quantidade de livros na escrivaninha e pela maneira concentrada com que trabalha) e é muito respeitado. Também é um sujeito solitário. Em resumo, Antônio é um observador implacável, alguém que aprendeu sobre a vida sem vivê-la, simplesmente estudando. Ele conhece Inês em um bar. A relação que se estabelece entre os dois abala as estruturas frágeis em que a vida de Antônio se assenta.

Inês é libertária, desafiadora, sem pudor, e isso provoca um tremendo tesão em Antônio. A maneira desinibida que ela lida com um defeito físico capaz de afastar algumas pessoas o atrai ainda mais. A garota trabalha como modelo para um pintor mexicano, com quem tem uma relação que oscila entre o paternal e o físico. Inês utiliza o sobrenome do artista e mora no ateliê onde ele trabalha. Talvez por fruto da própria vivência imatura, Antônio inconscientemente aplica à vida de Inês os mesmos critérios que utiliza para julgar as peças a que assiste. Daí surge o conflito que está no cerne da trama de “Crime Delicado”.

Para filmar uma história pouco usual, Beto Brant se despiu de vaidades e da forte assinatura estilística que utilizou nos três filmes anteriores. Não há tratamentos de cores ou movimentos dramáticos de câmera aqui, mas apenas um fiapo de estrutura cênica que permite à ação transcorrer naturalmente, sem invasões técnicas de nenhum tipo, algo que lembra um pouco “Dogville”. O longa-metragem é filmado de maneira fria, como se fosse teatro filmado, com um rigor formal impressionante: câmera invariavelmente fixa, colocada distante dos personagens, em longos planos, com o mínimo possível de cortes. Atores convidados (Matheus Nachtergaele, o diretor pernambucano Cláudio Assis) aparecem em esquetes improvisados aparentemente sem relação com o todo, mas que funcionam como sutis comentários ao drama pessoal de Antônio.

Brant não perde a oportunidade de alfinetar a crítica de arte com elegância, de formas diferentes, no decorrer do filme. Um dos esquetes mostra o crítico saindo para jantar com uma atriz (Maria Manoela) cujo espetáculo acabou de assistir. A seqüência termina com uma tirada cinematográfica genial, uma operação de troca de perspectiva quase surreal (Luis Buñuel fez algo parecido em “O Discreto Charme da Burguesia”) que põe de cabeça para baixo o ponto de vista de Antônio sobre a situação como um todo. De repente, ele não é mais o crítico, e passa a fazer parte do “espetáculo”.

Pode-se apontar problemas em “Crime Delicado”. A falta de um fio narrativo mais sólido certamente vai incomodar a maior parte da platéia, e é essa característica que faz do filme um tiro no pé, uma obra anticomercial, fechada em si mesmo, uma experiência estética de interesse quase exclusivo para cinéfilos e interessados na natureza ambígua do ser humano. As atuações são desiguais. Marco Ricca é a imagem concreta da tensão sexual, mas Lílian Taublib, como a atriz não-profissional que é, tem problemas para calibrar sua performance em alguns momentos. São problemas menores, dos quais o filme parece consciente, mas não tem interesse em resolver.

Além disso, essas desigualdades até contribuem para dar a qualidade humana, naturalmente imperfeita, de que “Crime Delicado” necessita para transcender a tela. Aliás, parece ser exatamente disso que Beto Brant está falando quando fecha o foco narrativo naquilo que o filme tem de melhor a oferecer: colocar o papel da crítica, como mediadora do diálogo entre a arte e a vida, na berlinda. Essa questiúncula funciona ainda como microcosmo da questão da representação da realidade. É por isso que o julgamento de Antônio sobre a exposição de José Torres Campanela com as pinturas do corpo de Inês adquire uma perspectiva inteiramente diversa, depois que ficamos conhecendo a maneira com aquelas pinturas nasceram. Aí, o filme vira uma metáfora que o leitor/espectador pode utilizar como instrumento de reflexão para a própria vida. É essa qualidade que faz de “Crime Perfeito” um filme especial.

Sendo esse texto uma crítica, um olhar individual sobre “Crime Delicado”, convém respeitar as intenções originais do autor: celebrar a multiplicidade de olhares, permitir que cada indivíduo da platéia possa conceber seu próprio julgamento da obra de arte. Os melhores críticos já sabem disso. “O papel do crítico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o lêem, o impacto de arte”, dizia o francês André Bazin, um dos grandes nomes da atividade. Então é isso: se decidir encarar “Crime Delicado”, dispa-se de preconceitos e prepare-se para construir uma visão pessoal sobre o que vai ver. É o melhor conselho que este texto pode dar.

O DVD da Videofilmes preserva o aspecto original (widescreen anamórfico), tem ótimo som (Dolby Digital 5.1) e um making of.

– Crime Delicado (Brasil, 2005)
Direção: Beto Brant
Elenco: Marco Ricca, Lílian Taublib, Felipe Ehrenberg, Maria Manoela
Duração: 87 minutos

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