Crime Ferpeito

24/12/2006 | Categoria: Críticas

Suspense cômico de Alex de la Iglesia é descompromissado, inteligente e acessível, além de engraçado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Alex de la Iglesia é o que se convencionou chamar de cineasta independente. Genuinamente independente. Em outras palavras, o cinema do diretor espanhol não tem lugar nos grandes estúdios. É demais para eles. Os filmes dele são desbocados demais, têm mulher pelada demais, humor negro demais, palavrão demais. Apesar de tudo isso, é um cinema engraçado, inteligente e muito acessível. É bem provável que, se fosse filmar nos Estados Unidos e maneirasse um pouco nas baixarias, Iglesia conseguisse grande sucesso com filmes como “Crime Ferpeito” (Crimen Ferpecto, Espanha/Itália, 2004), um suspense cômico hilariante.

No longa-metragem, que marca a segunda produção financiada pelo estúdio montado pelo próprio diretor, Iglesia mantém sua marca registrada: subverter um gênero clássico do cinema com doses generosas de humor negro e politicamente incorreto. O cineasta já havia feito isso com o faroeste (“800 Balas”) e com o horror (“O Dia da Besta”), entre outros filmes; desta vez, escolheu o suspense clássico, hitchcockiano por excelência. A história, aliás, bebe da fonte de uma das raras experiências cômicas do mestre do suspense, o curioso “O Terceiro Tiro”, de 1955.

O personagem principal, porém, parece pescado de um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen. O vendedor Rafael Gonzalez (Guillermo Toledo) é um sujeito amoral, que tem ódio de ser confundido com um comum. Não, ele é um Don Juan de lábia impecável. Sempre perfumado, bem vestido e com um sorriso colgate, Rafael tem uma ambição bem definida: virar gerente de andar de uma grande loja de roupas. O cargo lhe daria a possibilidade de se rodear exclusivamente de mulheres bonitas, vendedoras com bustos de cair o queixo; ou seja, viver em um mundo irreal, um paraíso lavado com detergente de maçã. Rafael é um mulherengo incorrigível, e seu esporte favorito consiste em esticar o expediente de trabalho, sempre acompanhado por uma delas e uma garrafa de champanhe, na seção de camas de casal.

Por acidente, Rafael acaba matando um colega vendedor (Luis Varela) dentro da loja, e vê o sonho de uma vida ameaçado. Ele consegue se livrar do corpo (é impossível não lembrar de “Fargo”, obra-prima dos Coen, nas cenas que se passam no subsolo da loja), mas não da vendedora Lourdes (Mónica Cervera), uma garota feiosa que viu o crime por acaso e enxergou nele a oportunidade de arrumar um namorado – e logo o homem por quem sempre teve uma paixão não declarada. Está armada a situação ideal para provocar um colapso nervoso no vendedor e uma torrente de gargalhadas nos espectadores.

“Crime Ferpeito” é um exercício completo de estilo, innofensivo e descerebrado, feito apenas para provocar risos. Consegue. O filme tem o visual ensolarado e hipercolorido de uma produção espanhola tradicional (um longa-metragem com o mesmo tema rodado nos Estados Unidos certamente apostaria em tons pastéis e muitas sombras), direção de arte impecável (a cenografia da grande magazine é perfeita), trilha sonora cheia de melodias pop contagiantes e um roteiro redondo, que explora muito bem a veia cômica do excelente ator Guillermo Toledo, um homem não exatamente bonito, mas que convence perfeitamente como um candidato a galã de gafieira.

A química de Toledo com a ótima Mónica Cervera é perfeita, e os dois dividem muitas cenas engraçadas, como o estrategema para se livrar do cadáver incômodo e o primeiro jantar com os pais dela. Como se não bastasse, o filme ainda tem um ladrão de cenas: Luis Varela, o vendedor assassinado, torna-se uma aparição gosmenta e esverdeada que é a única “pessoa” com quem Rafael pode compartilhar o surreal da situação. “Crime Ferpeito” lembra bastante as obras do início da carreira de Peter Jackson (compare com o horror cômico “Os Espíritos”, por exemplo, para checar) , com muito humor temperado por cenas gore, e é uma delícia para cinéfilos interessados em diversão descompromissada.

O DVD é um lançamento da Art Filmes e a qualidade é apenas mediana. A imagem está em formato fullscreen (ou seja, com cortes laterais) e o som, em apenas dois canais (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Crime Ferpeito (Crimen Ferpecto, Espanha/Itália, 2004)
Direção: Alex de la Iglesia
Elenco: Guillermo Toledo, Mónica Cervera, Luis Varela, Fernando Tejero
Duração: 105 minutos

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