Crimes em Oxford

26/06/2008 | Categoria: Críticas

Alex de la Iglesia faz um filme caprichado em inglês, com atores famosos, sem deixar de homenagear os filmes B

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Apesar de ser criativo, bem-humorado e exibir ótimo domínio dos fundamentos da linguagem cinematográfica, o diretor espanhol Alex de la Iglesia provavelmente nunca construirá uma carreira em grandes estúdios. Ele é um apaixonado por filmes B, surgiu através de produções de baixo orçamento e atingiu a maturidade sem dar mostras de que pretende vigiar a tendência irrefreável a fazer filmes pequenos, de gênero, que provocam interesse limitado. “Crimes em Oxford” (The Oxford Murders, Espanha/França, 2008) é a primeira vez em que Iglesia dispõe de orçamento milionário, mas nem mesmo os rostos conhecidos no elenco tiram do thriller de mistério a aura de cult movie obscuro.

O longa-metragem comprova aquela que é, talvez, a principal característica de Alex de la Iglesia. O diretor espanhol já fez comédia (“Crime Ferpeito”), horror (“O Dia da Besta”), faroeste (“800 Balas”) e suspense (“A Comunidade”), sempre respeitando as regras e convenções específicas de cada gênero. Ao mesmo tempo, jamais deixou de demonstrar um cuidado muito grande com a parte visual dos filmes, caprichando na direção de arte e em movimentos sofisticados de câmera, além de sempre injetar fartas quantidades de humor em cada trama. Todos esses elementos, somados, garantem filmes bem interessantes, embora fique sempre a sensação de que falta uma centelha de ousadia, ou de transgressão, para que o cineasta atinja um nível de excelência realmente alto.

“Crimes em Oxford” é um thriller no estilo “quem é o assassino?”, bem na linha dos romances de Agatha Christie – um “whodunit”, como diria Alfred Hitchcock, o grande inspirador do espanhol. A história se passa em Londres e é filmada com uma tonalidade visual gótica e pesada, bem adequada à chuvosa capital inglesa. Na trama, um carrancudo professor de Filosofia (John Hurt) e um aplicado estudante norte-americano (Elijah Wood) se unem para investigar uma série de estranhas mortes que ocorrem dentro do âmbito da Universidade de Oxford. As tais mortes parecem naturais, mas uma análise mais atenta dos cadáveres indica a ocorrência de homicídios. O rapaz ainda se envolve em um curioso triângulo amoroso com uma garota espanhola (Leonor Watling) e outra inglesa (Julie Cox).

A chave para curtir o filme encontra-se no prólogo, que explica a essência da teoria filosófica de Ludwig Wittgenstein, o último grande pensador alemão, que tentou aplicar princípios matemáticos para resolver problemas filosóficos. Os dois protagonistas são fissurados na teoria, e a utilizam tanto no cotidiano quanto na lógica com que raciocinam para solucionar o mistério. A mistura aparentemente bizarra entre Filosofia e Matemática faz bastante sentido e ecoa por toda a trama. Observe, por exemplo, a forma como o personagem de Wood joga squash, calculando a trajetória da bola através de marcas previamente desenhadas nas paredes. Todos os personagens principais são ótimos, e o diretor desenvolve a história com simplicidade, sem trapacear na premissa filosófico-matemática e sem invencionices mirabolantes.

Alex de la Iglesia também mostra desenvoltura no jogo de manipulação da tensão, aplicando as lições aprendidas com Hitchcock a belas seqüências, como a perseguição no telhado durante uma festa de máscaras (editada em montagem paralela), numa elegante referência visual ao clássico “Ladrão de Casaca”. Do ponto de vista técnico, o maior destaque fica para o fabuloso plano-seqüência da descoberta do primeiro crime, que deve ter dado um trabalho inacreditável para iluminar. Durante três minutos, a câmera segue seis diferentes personagens, passando por cinco ambientes distintos, tanto interiores como exteriores, com nível variável de luz. É mais ou menos aquilo que Robert Altman fez na abertura de “O Jogador”, só que com uma dificuldade extra no controle da iluminação. Além do mais, a cena é brilhantemente coreografada, e a ausência de cortes amplifica o suspense.

“Crimes em Oxford” só não é perfeito porque, como de hábito, Alex de la Iglesia segue as regras do gênero de forma excessivamente rígida, de forma que cada novo crime surge exatamente no momento em que se espera, e o mesmo vale para as reviravoltas do roteiro. O elenco internacional também alcança desempenhos não muito homogêneos, de maneira que o veterano John Hurt se esbalda em uma interpretação calculadamente exagerada, enquanto o registro alcançado pelos demais atores é bem mais discreto. Ademais, a química sexual entre Wood e a gatinha Watling é praticamente inexistente, o que deixa as cenas sensuais meio enfadonhas. Ainda assim, o filme consegue um resultado muito superior à média dos thrillers contemporâneos.

– Crimes em Oxford (The Oxford Murders, Espanha/França, 2008)
Direção: Alex de la Iglesia
Elenco: Elijah Wood, John Hurt, Leonor Watling, Julie Cox
Duração: 107 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »