Crimes em Primeiro Grau

22/09/2003 | Categoria: Críticas

Morgan Freeman faz feijão com arroz e encarna velho sábio mais uma vez em policial competente, mas ordinário

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Se fosse um prato brasileiro, “Crimes em Primeiro Grau” (High Crimes, EUA, 2002) seria o popular e tradicional feijão com arroz. O filme é simpático e bem feito; não empolga muito, mas tampouco decepciona; pode não ser inesquecível, mas prende o espectador durante os 100 minutos de duração. A peça de resistência da obra, dirigida pelo cineasta Carl Franklin – o mesmo que fez o bom policial “O Diabo Veste Azul”, com Denzel Washington – é a atuação sempre elegante do veterano Morgan Freeman.

Apesar do magnetismo de Freeman e da atriz Ashley Judd (eles repetem a parceria de sucesso de “Beijos Que Matam”, de 1997), a trama de “Crimes em Primeiro Grau” está montada em cima de um terceiro sujeito. Ele é o empreiteiro Tom (Jim Caviezel), marido apaixonado da advogada Claire Kubrik (Judd). Numa rápida seqüência que abre o trabalho, descobrimos o quanto o casal está feliz em todos os aspectos: profissional, pessoal, sexual. O problema vem quando delinqüentes assaltam a residência dos dois. Em busca de impressões digitais, a polícia acaba descobrindo que Tom não se chama Tom. Ele é na verdade Ron Chapman, um ex-fuzileiro naval acusado de assassinar oito inocentes numa vila em El Salvador, alguns anos antes.

O drama de Claire, porém, está só começando. Enquanto o marido tenta explicá-la que está sendo vítima de uma cilada armada pelos verdadeiros autores da chacina, ela descobre que o tenente designado para defendê-lo na corte macial (Adam Scott) é um garoto inexperiente. Assim, decide contratar um sujeito mais vivo, que já tenha brigado antes contra os manda-chuva do Exército norte-americano. Acaba, então, esbarrando em Charlie Grimes (Freeman), alcoólatra em tratamento e tão atrevido quanto preguiçoso. É essa equipe que vai tentar salvar a pele de Ron/Tom, ao mesmo tempo em que investiga e busca provas do que realmente teria ocorrido em El Salvador.

Como thriller, “Crimes em Primeiro Grau” se sustenta sozinho, mas de modo frágil. A direção correta de Carl Franklin abre um espaço generoso para que Freeman e Judd tenham inúmeras cenas juntos, e a química entre os dois realmente funciona. O resto do elenco cumpre o que se espera deles, incluindo a recém revelada Amanda Peet, que encarna a irmã rebelde-porém-de-boa-índole da advogada certinha. Jim Caviezel (de “Alta Freqüência”), por sua vez, continua subaproveitado.

Como nem tudo é perfeito, o cineasta Carl Franklin desperdiça uma boa oportunidade de realizar um suspense sufocante na linha de “Seven”. O filme poderia, por exemplo, enfocar mais de perto o drama asfixiante vivido pela personagem de Ashley Judd (imagine descobrir que seu marido/mulher não é quem você pensava, ser obrigada a confiar instantaneamente na história dele e ter que agir rápido, para que o sujeito não seja condenado à morte). Mesmo Morgan Freeman parece lento, sem reação demais, embora destile o carisma de velho ermitão sábio com a naturalidade de sempre.

De qualquer forma, mesmo quando as seqüências mais angustiantes são aceleradas e deixam de capturar uma tensão que faria muito bem ao filme, o enredo mantém o interesse. Há, claro, uma série de reviravoltas, personagens misteriosos que se revelam aos poucos e um certo clima de big brother – a sensação permanente de que alguém está sempre espiando a ação – que reveste o trabalho de alguma qualidade. O resultado final pode não ser capaz de surpreender verdadeiramente o espectador, mas supre a vontade daqueles que estão sempre à espera de um policial de qualidade.

– Crimes em Primeiro Grau (High Crimes, EUA, 2002)
Direção: Carl Franklin
Elenco: Morgan Freeman, Ashley Judd, Jim Caviezel, Amanda Peet
Duração: 110 minutos

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