Crítico

31/12/2008 | Categoria: Críticas

Longa de Kleber Mendonça Filho demonstra interesse incomum em articular um diálogo entre duas atividades quase sempre envolvidas em embates (ou combates) ferozes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A estréia do crítico e cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho no universo dos longas-metragens não poderia ser mais oportuna. O documentário “Crítico” (Brasil, 2008) estabelece um diálogo estimulante e nunca óbvio entre dois profissionais que se situam em campos de atuação opostos, dentro da prática cinematográfica: os cineastas e os críticos. Talvez por estacionar num lugar de fronteira habitado pelo próprio Kleber (que dirige curtas e escreve no Jornal do Commercio, do Recife, desde 1997), o filme demonstra interesse incomum em compreender e articular um diálogo possível – ou melhor, em construir uma ponte concreta – entre duas atividades quase sempre envolvidas em embates (ou combates) ferozes.

“Crítico” é muito feliz em realizar o casamento entre essas duas profissões aparentemente tão adversárias. Num trabalho de costura elegante (graças à montagem discreta e eficiente, assinada por Emilie Lesclaux, mulher do realizador), o longa abre espaço, em blocos narrativos divididos por temas, para que os críticos analisem seu trabalho e o impacto que ele exerce nos cineastas. O contrário também ocorre. Os depoimentos foram gravados ao longo de dez anos, pelo próprio diretor, com uma câmera Mini-DV (equipamento normalmente usado em TV, e portanto de qualidade questionável), nos bastidores de festivais – Cannes, que Kleber freqüenta há muitos anos, é o ponto zero do filme – e em entrevistas coletivas. Ao todo, 70 pessoas dão depoimentos. Elas não foram escolhidas, por qualquer razão. Estavam disponíveis, e Kleber as entrevistou.

De modo geral, os depoimentos são sempre serenos e articulados, em alguns casos de modo bastante inesperado (é impossível conter o riso ao ver Cláudio Assis afirmando que um cineasta precisa ter elegância quando lê uma crítica destruindo um filme dele). Disso resulta um trabalho envolvente, de ritmo firme e intenso, mas sem pressa. A montagem respeitosa permite que cada entrevistado exponha seu ponto de vista, sem que haja necessidade de acelerar a exposição de idéias. Dessa forma, o filme corre em seu próprio tempo, permitindo que o espectador absorva – e, quando necessário, questione – com tranqüilidade o que vê. A divisão segue blocos temáticos, de forma que alguns entrevistados aparecem em momentos distintos.

Alguns dos momentos mais interessantes aparecem quando os cineastas discorrem sobre o impacto que a crítica teve sobre seus respectivos trabalhos (é curioso perceber que vários deles lembram com clareza de resenhas negativas, e esquecem quase todos os elogios recebidos), ou quando debatem a importância do bonequinho do jornal O Globo (RJ) – uma instituição cinéfila, decerto, bastante questionável – para a carreira de um filme no Brasil. Os depoimentos não são apenas lúcidos, mas sobretudo reveladores, do tipo que disparam torrentes de pensamentos e associações, fazendo cada espectador embarcar num “filme” pessoal que se desenrola dentro de cada cabeça.

João Moreira Salles, por exemplo, defende a tese de que a qualidade de um crítico tem relação direta com a geração à qual ele pertence. Um grande crítico, para ele, jamais poderia nascer durante uma safra particularmente ruim. Será? Em outro momento promissor, Eduardo Valente (um dos dois únicos entrevistados que, como Kleber, pertencem tanto a um time quanto ao outro) discute a função atual do crítico, relativizando a importância da argumentação em termos positivos ou negativos, e afirmando que o maior bem que um resenhista pode fazer a um filme é “dançar” com ele – é de se perguntar quantas lições valiosas um crítico, ou um cineasta, pode tirar a partir daí. Comentários ácidos existem (Sergio Bianchi, em particular, deixa de lado a elegância pregada por Cláudio Assis e parte para a grosseria, embora sem citar nomes), mas são poucos. A maioria dos entrevistados demonstra articulação, inteligência e afiada capacidade de auto-análise.

Argumentações instigantes como as citadas acima existem aos montes em “Crítico”, e isso é algo que faz do filme um programa particularmente indispensável para qualquer um que pense o cinema criticamente. Aliás, a partir do filme de Kleber, é curioso perceber a enorme ausência de material audiovisual que discuta o cinema de forma honesta e sincera (e não falo apenas de outros longas ou curtas-metragens, mas até mesmo de material extra disponível em DVD, composto quase sempre de pequenos documentários desinteressados em discutir filmes com senso crítico). Nesse sentido, é importante assinalar certa semelhança entre “Crítico” e “Quarto 666”, o documentário de Wim Wenders, que também teve o Festival de Cannes como cenário fundamental e também colocou cineastas para discutir seu próprio trabalho, embora num registro completamente distinto.

Por outro lado, é fundamental ressaltar que o filme, talvez expressando a visão de cinema do próprio Kleber, exclui o público da equação por completo. Nem os críticos e nem os cineastas falam, em qualquer momento, sobre a interferência/influência dos espectadores no debate entre criadores e resenhistas. Certamente não seria o caso de inserir na montagem entrevistas com gente comum, sentada na platéia de um cinema. Só que, da forma que a discussão críticos/cineastas é apresentada no longa, fica parecendo que os críticos escrevem para os cineastas, que por sua vez filmam para os críticos (e, aqui entre nós, talvez seja mais ou menos isso mesmo, considerando que representantes do cinema mais comercial e menos autoral são artigo raro em “Crítico”). De qualquer forma, onde estaríamos nós, meros espectadores, nessa história?

Tudo isso traz à mente uma citação de François Truffaut, ele mesmo um crítico de mão cheia e cineasta genial. “Há dois tipos de diretores: aqueles que têm o público em mente quando concebem e realizam filmes, e aqueles que não ligam muito para o público”, dizia o caçula da geração nouvelle vague. “Para os primeiros, o cinema é a arte do espetáculo; para os últimos, uma aventura individual. Não há nada intrinsecamente melhor em uma postura ou outra; é uma simples questão de abordagem”. Aplicando o raciocínio de Truffaut para “Crítico”, a conclusão simples é que a observação relacionada à ausência do público não faz deste filme um trabalho pior ou melhor; é a abordagem escolhida, só isso. Ou, como diz sensatamente a própria epígrafe de “Crítico” (pinçada de uma fala de Fernanda Torres, por sua vez citando Oscar Wilde): toda crítica é uma autobiografia. Verdade. E todo filme também.

– Crítico (Brasil, 2008)
Direção: Kleber Mendonça Filho
Documentário
Duração: 76 minutos

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