Crônica de um Verão

01/04/2008 | Categoria: Críticas

Experimento de Jean Rouch e Edgar Morin inaugurou o cinema verité e colocou em crise o documentário tradicional

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Você é feliz?”. Esta pergunta simples foi o mote para o filme que pôs em cheque, no começo dos anos 1960, a estética do documentário clássico. Aproveitando uma onda de inovação tecnológica que jogou no mercado equipamentos mais leves, que permitiam a realização de filmagens de boa qualidade na rua com a utilização de equipes pequenas, dois acadêmicos franceses resolveram discutir questões de ordem filosófica, política e social com pessoas anônimas, escolhidas ao acaso. enquanto adotavam um estilo de narrativa que punha em crise o documentário. O resultado acabou criando uma nova vertente do estilo, o chamado “cinema-verdade” (ou “cinema-verité”).

“Crônica de um Verão” (Chronique d’um Été, França, 1961) seria o equivalente, no campo do documentário, ao choque de realidade que os primeiros filmes da nouvelle vague de Godard e Truffaut aplicaram no cinema de ficção, na mesma época. O documentário de Jean Rouch e Edgar Morin conquistou o prêmio da crítica no Festival de Cannes, e fez mais do que isso – colocou em crise o próprio estilo narrativo que pautava o filão documental até então. Esse estilo prezava por certo distanciamento entre narrador e objeto, propondo um olhar que se pretendia objetivo e isento, mas não o era. “Crônica de um Verão”, ao contrário, se assume como filme desde o primeiro minuto de projeção, e abre espaço até mesmo para a crítica ao resultado final, feita pelos próprios protagonistas. Era uma estratégia absolutamente inédita do cinema documental, e sua influência subseqüente foi tão grande que ultrapassou até mesmo a fronteira do documentário.

A inovação da abordagem de Rouch e Morin aparece desde a primeira cena, quando os dois cineastas aparecem tomando café e discutindo os rumos do projeto. A idéia original era colocar uma equipe na rua e entrevistar os transeuntes, sempre a partir da fatídica pergunta sobre a felicidade. Como numa pesquisa de campo, os dois cineastas passam algum tempo lidando com entrevistas mais superficiais, e logo escolhem um grupo específico de amostragem, para aprofundar a questão. Estudantes, imigrantes africanos e operários compõem o grupo de estudo que parte da discussão acerca da natureza da felicidade para, em seguida, enveredarem por assuntos de ordem antropológica, social e política. Eles discutem da guerra da Argélia a crises conjugais, dos horrores do nazismo ao amor livre.

Alguns depoimentos são fascinantes. Um dos operários diz considerar, frustrado, que dedica 100% da própria vida ao trabalho, já que toda a rotina diária – comer, dormir, se locomover – é organizada em torno do emprego numa fábrica. Mais fascinante ainda é o método utilizado pelos cineastas. Eles não se furtam a questionar, diante das câmeras, todos os aspectos da realização do filme, e chegam mesmo a discutir a montagem final com os próprios entrevistados. Convidados para uma sessão do filme ainda incompleto, os personagens criticam uns aos outros. Uns dizem que outros parecem superficiais, outros questionam porque os diretores selecionaram determinados trechos das entrevistas, deixando outros de fora. As discussões, filmadas, acabaram compondo o segmento final do trabalho, em que o próprio filme é colocado em cheque.

Um dos aspectos mais fascinantes envolve a questão da representação dos personagens do documentário. Pela primeira vez, um filme de índole documental assumia ser uma narrativa específica sobre algo ou alguém, que podia ser alterada graças às decisões dos diretores (incluir ou não determinada cena, por exemplo). Vários dos entrevistados admitem, também, ter representado um personagem diante das câmeras – um personagem muito parecido com eles mesmos, mas que detinham algum elemento ficcional. Uma das jovens, sobrevivente do campo de concentração, observa que não teria conseguido dar um depoimento contundente sobre o assunto se não houvesse representado uma versão mais simplificada de si mesmo – teria sido um baque emocional fortíssimo relembrar aquele período tão dolorido, conforme ela mesma diz.

Graças a essa tática suicida de auto-questionamento incessante, o filme deflagrou uma crise nos documentários clássicos. De repente, um filme tinha a ousadia de admitir que o gênero, de forma geral, não podia deter uma verdade única sobre nenhum objeto de estudo. Tal coisa não existia. Existiam narrativas sobre aquela realidade, meras representações incompletas, influenciadas por enorme quantidade de variáveis, como a capacidade dos “atores” em representar diferentes facetas de si mesmo. Como se não fosse o bastante, “Crônica de um Verão” ainda oferece um panorama abrangente do que foi Paris na década de 1960: o centro cultural mais importante do Ocidente, onde vivia uma juventude contestadora e disposta a tudo para quebrar regras. Tudo isso, junto, compõe um filme ambicioso e fundamental.

O DVD nacional, da Videofilmes, vem numa caprichada embalagem especial que inclui um libreto com dois longos ensaios escritos pelos próprios diretores a respeito da produção. O disco em si também é excelente: o filme aparece com ótima qualidade de imagem (fullscreen, 4:3) e áudio (Dolby Digital 2.0 em francês), acompanhado de comentário em áudio gravado pelos cineastas Eduardo Coutinho e Eduardo Escorel, e mediado pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Para quem se interessa por documentários, um lançamento essencial.

– Crônica de um Verão (Chronique d’um Été, França, 1961)
Direção: Jean Rouch e Edgar Morin
Documentário
Duração: 85 minutos

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