Crônicas de Nárnia, As

25/04/2006 | Categoria: Críticas

Efeitos especiais de ponta dão vida a criaturas mitológicas de visual estonteante, inseridas em filme fraco

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Existe uma grande diferença entre imitação e oportunismo. Quando a Disney anunciou que estava liberando o milionário orçamento de U$ 150 milhões para um épico de aventura que se passa em um continente imaginário repleto de criaturas mitológicas, os mais desavisados acusaram o estúdio de copiar “O Senhor dos Anéis”. Só que a tal produção, que atende pelo quilométrico título de “As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas” (The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe, EUA, 2005), não é uma imitação. O livro original em que se baseia o filme foi publicado em 1950, antes do épico de J.R.R. Tolkien. O problema do filme de 2005 é o oportunismo incontestável.

É fato que, sem o extraordinário sucesso dos filmes que Peter Jackson dirigiu entre 2001 e 2003, a Disney não teria coragem de enveredar pelo sinuoso território dos épicos fantásticos. Bastou que a trilogia gerasse um verdadeiro fenômeno de bilheteria que a casa do Mickey decidiu produzir sua própria versão para a Terra-Média. A empresa fez isso recorrendo à obra de um amigo de Tolkien, o também professor C.S. Lewis, criador da mítica Nárnia. De resto, o estúdio se limitou a reembalar a receita testada com sucesso por Peter Jackson para uma platéia de crianças. Isso significou usar as paisagens deslumbrantes da Nova Zelândia como cenário, misturar atores experientes com novatos e contratar a premiada equipe de “O Senhor dos Anéis” para dar vida às três dúzias de espécies de criaturas digitais necessárias para povoar a terra encantada.

Portanto, no quesito originalidade, o filme de estréia do diretor Andrew Adamson com atores vivos (ele fez antes os dois “Shrek”) já saiu perdendo antes mesmo de existir. Restava ao cineasta fazer o dever de casa direito e dar vida convincente à fantástica miríade de criaturas mitológicas inseridas na aventura pelo escritor inglês: centauros, sátiros, ciclopes, fênix, minotauros, unicórnios e toda sorte de animais que pensam, se movem, falam e agem como homens. A tarefa é cumprida com relativa eficiência. No campo visual o filme é um deleite, com interação perfeita de seres humanos e criaturas digitais (o imponente leão messiânico emula com perfeição absoluta o bicho de verdade). Do ponto de vista narrativa, a história é outra. Mas mesmo na hora de colocar atores reais e virtuais juntos nas mesmas cenas, o filme comete deslizes.

Esses problemas podem ser conferidos no comportamento dos animais falantes. Tome como exemplo o casal de castores falantes que tem papel de destaque no decorrer da trama. Eles não se movem como castores, mas como pequenos humanos peludos. Têm uma casa mobiliada, servem café e, em certos momentos, usam as quatro patas como dois braços e duas pernas, assumindo posturas e expressões corporais que apenas seres humanos são capazes de reproduzir. Tudo bem, se a proposta do longa-metragem fosse de seguir à risca a estratégia de “humanizar” os bichos. Mas Aslan, o leão de Nárnia, a contradiz. O animal é um personagem fascinante: imponente, sábio, tranqüilo, sereno, um verdadeiro líder. Mas, e isso é importantíssimo, se move como um leão comum, sem reproduzir em nenhum momento as posturas humanas dos castores. Da mesma forma acontece com lobos e cavalos, entre outros. Um defeito pouco perceptível, mas que depõe a favor da falta de cuidado com os detalhes que marca a produção.

Isso posto, é preciso ressaltar a habitual competência da Weta. A firma de efeitos especiais sediada na Nova Zelândia faz um trabalho visual deslumbrante. Os faunos (metade bode, metade homem) e os centauros (metade homem, metade cavalo), que ganham materialização impecável na tela, são exemplos cabais da eficiência da equipe. Pena que a maior parte das criaturas mitológicas (ciclopes, gigantes, fênix e outras) aparece apenas por alguns segundos, quase sempre nas cenas de batalha. Se o roteiro tivesse reservado mais tempo para a interação dos quatro personagens principais com os seres da mitologia de Nárnia, haveria mais oportunidades para explorar esse ponto forte do filme e encantar mais a platéia.

Em termos de enredo, “As Crônicas de Nárnia” é insosso, utilizando o cerne narrativo de “O Senhor dos Anéis” como espinha dorsal dramática, só que em um filme infanto-juvenil, feito para crianças. Isso atenua a densidade dos personagens (se o excesso de simplificação das pessoas já era um ponto fraco da trilogia de Peter Jackson, imagine então o que ocorre aqui) e elimina boa parte da carga de emoção nos momentos mais tensos – a longa seqüência de batalha que acontece no clímax do filme, por exemplo, não têm uma única cena com sangue, embora diversos personagens morram lá. A grande aposta da Disney, e nesse ponto o filme fica muito fiel aos livros, é a generosa inclusão de referências à mitologia cristã e a passagens da Bíblia, a começar pela profecia que é o centro do enredo.

Na história, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quatro crianças são enviadas de Londres para uma propriedade no campo, a fim de ficarem a salvo dos bombardeiros nazistas. Lúcia (Georgie Henley), Edmundo (Skandar Keynes), Pedro (William Moseley) e Susana (Anna Popplewell) logo descobrem na mansão um quarto deserto, com um guarda-roupas que é na verdade um portal para o mundo mágico de Nárnia. Na floresta, eles ficam sabendo sobre uma antiga profecia. O mito previu que quatro humanos – dois homens e duas mulheres – ajudariam o leão Aslan (voz de Liam Neeson, e na versão dublada de Paulo Goulart) a libertar Nárnia da tirania da Feiticeira Branca (Tilda Swinton), que mantém o lugar em constante inverno há mais de 100 anos.

Qualquer pessoa que conheça razoavelmente as passagens mais famosas da Bíblia (quase todas já transformadas em filmes por Hollywood), pode reconhecê-las dentro do filme, inseridas no contexto dramático. Algumas são evidentes (a imolação e posterior ressurreição de Cristo, a profecia sobre a vinda do Salvador) e outras, mais alegóricas (a travessia do Mar Vermelho, o Monte das Oliveiras). “As Crônicas de Nárnia”, vale ressaltar, foi o veículo encontrado por C.S. Lewis para pregar a fé católica a crianças, tarefa que bate perfeitamente com o tipo de mentalidade Disney. No processo de veicular uma mensagem ideológica, contudo, o diretor esqueceu de polir melhor o roteiro, o que deixa muitas passagens sem sentido.

Como explicar, por exemplo, que o enorme poder da Feiticeira Branca comece a falhar sem que os irmãos façam rigorosamente nada, a não ser permanecer em Nárnia? Qual a razão para a mulher manter o reino congelado, se seria tão mais simples ter o controle de tudo dando aos animais apenas um pouco de sol? Essas questões reverberam com força total na batalha que decide o destino de Nárnia, mostrada com a fantástica eficiência visual, sob um sol escaldante (o que aumenta ainda mais a exigência no que toca aos efeitos especiais), mas que não envolve nada parecido com táticas ou estratégias. Chega a ser ridículo ver um garotão que ganhou uma espada no dia anterior comandando exércitos de pássaros que cospem flechas de fogo e centauros mortíferos que se movem como raios.

Um defeito muito evidente do filme está nas interpretações. Talvez devido ao passado como animador e à relativa inexperiência com atores de carne e osso, Andrew Adamson falha feio com o quarteto de protagonistas. Das crianças, salva-se apenas a pequena Georgie Henley, e não exatamente pela atuação, mas pelo sorriso cativante que faz de Lúcia a mais simpática dos quatro. Os demais não sabem atuar, e isso fica mais do que evidente nas cenas de ação (a fuga sobre o gelo, a batalha final), quando a limitação dos três é evidente. Para piorar, o interprete do mais velho e sério candidato a rei de Nárnia, William Moseley, é completamente desprovido de carisma, aparentando um rapaz assustado e indeciso cuja personalidade não bate, de forma alguma, com a firmeza que se espera do líder de um reino tão vasto.

O verdadeiro dono de “As Crônicas de Nárnia” é o leão Aslan. O filme cresce bastante quando ele entra em cena, e praticamente todos os momentos emocionantes envolvem o personagem. A seqüência em que ele salva uma das quatro crianças com uma ação impensável para um ser humano normal é primorosa, tanto do lado dramático (nesse momento o filme adota o ponto de vista de duas testemunhas, o que ajuda a emocionar o público) quanto do ponto de vista técnico (as expressões de tristeza, dor e serenidade do leão são produzidas com perfeição pela equipe de efeitos especiais). Mas isso é muito pouco para um filme de 140 minutos.

O DVD nacional é da Buena Vista. Em disco simples, o filme comparece com o corte original (imagem em formato wide 2.35:1, som em Dolby Digital 5.1), comentário em áudio do diretor, erros de gravação e jogo interativo.

– As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas (The Chronicles of Narnia: The Lion, The Witch and the Wardrobe, EUA, 2005)
Direção: Andrew Adamson
Elenco: Georgie Henley, William Moseley, Skandar Keynes, Anna Popplewell, Tilda Swinton
Duração: 140 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »