Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian, As

09/11/2008 | Categoria: Críticas

Segunda parte da franquia infanto-juvenil repete os piores cacoetes narrativos do filme anterior com rigor quase matemático

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

A Disney nunca fez muita questão de esconder que o principal objetivo da série “As Crônicas de Nárnia” era a criação de uma franquia para surfar na onda gigante gerada pela trilogia “O Senhor dos Anéis”. O primeiro filme, de 2005, estabeleceu as bases para isto, acrescentando à receita as características históricas das produções da empresa (diversão para toda a família, valores católicos, etc.). “Príncipe Caspian” (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian, EUA, 2008) repete a dose com rigor quase matemático. Os efeitos especiais de ponta voltam a pintar criaturas fantásticas, agora com maior nível de detalhes, em uma história sem maiores atrativos para platéias com mais de 18 anos.

Na segunda parte da série, o diretor Andrew Adamson usou a mesma estratégia desenvolvida por Peter Jackson para adaptar ao meio cinematográfico o trabalho do escritor inglês C.S. Lewis: manteve-se fiel ao esqueleto narrativo do romance, reduziu as analogias cristãs ao mínimo, criou uma pequena subtrama romântica (num filme eminentemente masculino, a imaginação das meninas precisa ser estimulada um pouquinho, certo?) e expandiu as cenas de batalhas ao máximo, criando um épico infanto-juvenil um tantinho mais sombrio do que a primeira parte da série. Em termos de qualidade cinematográfica, os dois filmes se equivalem, embora as semelhanças com “O Senhor dos Anéis” sejam ainda mais evidentes aqui.

O arco narrativo principal traz as quatro crianças do primeiro filme de volta para o reino mágico de Nárnia, apenas um ano após os acontecimentos de “O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupas”. Aliás, um ano na Terra, já que em Nárnia se passaram 1.300 anos. Neste meio-tempo, como os meninos vão descobrir, o reino foi invadido e conquistado por bárbaros, de forma que a população original – animais falantes, centauros, minotauros e criaturas fantásticas variadas – teve que se esconder nas florestas vizinhas por gerações inteiras. Lúcia (Georgie Henley), Edmundo (Skandar Keynes), Pedro (William Moseley) e Susana (Anna Popplewell) retornam sem querer, após o soar de uma trombeta mágica, atendendo o chamado de Caspian (Ben Barnes), herdeiro adolescente do trono de Nárnia. O rapaz vem sendo perseguido pelo tio malvado (Sergio Castellitto), que sonha em se tornar, ele mesmo, o soberano. Na prática, uma variação masculina de “Branca de Neve”.

As referências bíblicas ainda existem (os episódios de Herodes e do Mar Vermelho, entre outros), mas têm bem menos importância do que no primeiro filme. Sem gastar muito tempo com o desenvolvimento dos personagens, o diretor e co-roteirista Adamson prefere ampliar a mitologia de Nárnia, criando toda uma nova galeria de personagens e expandindo o escopo do filme, ao inventar um segundo reino, este de humanos, que co-existe com os habitantes originais do lugar. Neste processo residem as principais fraquezas de “Príncipe Caspian”. Os personagens criados como contraponto cômico são histéricos e engraçadinhos demais. Há um gato espadachim e tagarela que parece ter saído dos sets de “Shrek 2”, e não nos esqueçamos que o próprio diretor veio da série da Dreamworks.

Como originalidade nunca foi um ponto forte da franquia, Adamson não vê problemas em copiar descaradamente “O Senhor dos Anéis”. A batalha que vemos no clímax parece uma maquete em miniatura da seqüência equivalente em “O Retorno do Rei”, com tomadas aéreas idênticas, estratégias militares semelhantes e até mesmo armamentos iguais, como enormes catapultas que são usadas como armas pelo exército do mal. Adamson não perdeu nem mesmo a chance de dar às árvores da floresta de Nárnia a mesma função narrativa que os vegetais gigantes já tiveram em “As Duas Torres”. Por outro lado, “Príncipe Caspian” jamais atinge o escopo grandioso dos filmes de Peter Jackson. Lembram, quando muito, uma adaptação em menor escala daqueles filmes, com CGI de qualidade bem inferior – observe os centauros, por exemplo, que jamais parecem realistas.

O segundo longa-metragem da série poderia ser melhor do que “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas”, graças à ação mais compacta e de melhor qualidade, mas acaba perdendo pontos preciosos no fator elenco. O primogênito da franquia contava com os serviços de Liam Neeson (dublador do leão Aslam, que faz pouco mais do que uma ponta), da ótima atriz Tilda Swinton (aqui ela aparece numa cena curta, que o roteiro sequer faz questão de explicar) e do talentoso jovem James McAvoy (“Desejo e Reparação”). Já os atores de “Príncipe Caspian” decepcionam. O vilão (Sergio Castellitto), frágil, passa a impressão de que pode ser derrotado a qualquer momento. O ator que faz o personagem-título também não mostra energia, apesar de ter um pequeno envolvimento romântico com Susana. Quem salva a pátria é o anão Peter Dinklage, cujo olhar transmite muito mais dor e tristeza do que os quatro pares de olhos dos pretensos heróis mirins.

O quarteto de adolescentes, por sua vez, parece hesitante, sem empolgação, sem carisma. Nenhum deles convence. Além disso, sofrem também com a falta de um roteiro que explore melhor as individualidades de cada um. Edmundo e Susana, por exemplo, têm pouquíssima participação nas aventuras. Lúcia, cuja participação é bem mais importante (sua incursão pelas florestas, no terceiro até, é um plágio bem disfarçado do papel exercido pelo mago Gandalf em “As Duas Torres”), continua como o destaque maior do quarteto. E Pedro, supostamente o líder, se ressente tanto da má qualidade do intérprete quanto do personagem mal desenvolvido – como rei de Nárnia, ele deveria ser mais altivo, mais decidido e mais inteligente, ao invés de se mostrar um meninão irritadiço, mal-humorado e imaturo. Há boas cenas de ação, como a invasão das criaturas à cidade dos usurpadores, mas isso é muito pouco para uma superprodução tão grande.

O DVD nacional leva o selo da Buena Vista e é simples. O enquadramento original (widescreen 1.85:1 anamórfico) é preservado e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian, EUA, 2008)
Direção: Adrew Adamson
Elenco: William Moseley, Anna Popplewell, Skandar Keynes, Georgie Henley
Duração: 137 minutos

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