Cronocrímenes, Los

15/12/2008 | Categoria: Críticas

Abordagem pouco comum do tema da viagem no tempo mistura ficção com suspense e horror, gerando filme interessante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Muito se fala sobre a Itália, mas é a Espanha o país europeu com maior tradição na área do cinema fantástico. Existe por lá uma verdadeira indústria cinematográfica dedicada à produção de filmes baratos de horror, ficção científica e suspense. Essa indústria conta com cineastas interessantes, produtoras especializadas em filmar com pouco dinheiro, e até circuitos exibidores alternativos que se apóiam numa rede de pequenos festivais organizados. Graças a esse fenômeno local organizado, o mundo já pôde ser apresentado a talentos como Alejandro Amenábar (“Os Outros”) e Jaime Balagueró (“[REC]”). O curto e impactante “Los Cronocrímenes” (Espanha, 2007) também se encaixa nessa tradição fantástica. O filme é responsável por apresentar o cineasta Nacho Vigalondo ao mundo do cinema.

Produzido por uma quantia relativamente pequena (dois milhões de euros) e investindo pesadamente em um conceito simples e engenhoso, que parte de um ângulo pouco explorado do sempre instigante tema da viagem no tempo, “Los Cronocrímenes” fez muito sucesso no circuito de festivais independentes dedicados ao cinema de fantasia. Vigalondo venceu um evento em Amsterdã, outro na Ásia, e aos poucos foi chegando ao mercado norte-americano, o mais arisco e também o mais importante para uma projeção internacional de peso. Ao vencer prêmios no Texas e na Filadélfia (EUA), o diretor conseguiu chamar a atenção de Hollywood, onde foi comprado para refilmagem e lançou uma carreira promissora para Vigalondo.

Na verdade, não existe motivo especial para frenesi. O filme, cujo roteiro também é assinado pelo diretor (ele também interpreta um papel secundário), se apóia em um enredo simples que se apóia no conceito chamado pelos físicos de “paradoxo da avó”. Esse conceito é um desafio às leis da física, normalmente expresso em uma situação dramática incomum: se você retornasse no tempo e sem querer matasse a sua avó, estaria em maus lençóis, pois seu pai não nasceria, e nem você – portanto, você não poderia voltar no tempo para matar a sua avó. Filmes como a série “De Volta Para o Futuro” (especialmente o segundo capítulo) e “Donnie Darko” trabalharam com esse conceito. A abordagem de “Los Cronocrímenes” mistura-o com elementos de suspense e horror, gerando um filme divertido, embora não genial.

A história começa com a chegada de um casal de meia idade a uma casa de campo. Hector (Karra Elejalde) só quer saber de descansar. Enquanto a esposa (Candela Fernández) limpa a casa, ele arruma um binóculo, se deita numa espreguiçadeira e vai espiar o bosque. Logo vê, por entre as árvores, uma linda garota tirando a roupa. Na tentativa de vê-la de mais perto, ele sai da propriedade – e sem querer dá início a uma trama surreal de viagem no tempo, uma trama em espiral, em que várias realidades paralelas começam a colidir. O roteiro, que parecia linear a príncípio, vai se complicando mais e mais até um final absolutamente imprevisível (e também um pouco insatisfatório, já que deixa várias pontas soltas).

Nacho Vigalondo mostra mais talento no engenho necessário para construir um roteiro cheio de bifurcações e atalhos do que propriamente na condução visual da história. A construção da narrativa, na verdade, apela para uma série de convenções típicas do suspense, como a trilha sonora abundante que sinaliza, através do volume e das evoluções em crescendo na escala musical, os sustos que estão por vir. Além disso, as atuações estão abaixo da média, a começar pelo próprio Vigalondo (que interpreta o assustado homem que faz experiências com uma máquina desconhecida). Por outro lado, as alusões visuais curiosas aos antigos filmes de monstro da universal, em especial “A Múmia” e “Frankenstein”, dão um tempero extra à receita. No todo, trata-se de um filme interessante, mas nada além disso.

– Los Cronocrímenes (Espanha, 2007)
Direção: Nacho Vigalondo
Elenco: Karra Elejalde, Candela Fernández, Bárbara Goenaga, Nacho Vigalondo
Duração: 88 minutos

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