Cruzada

16/10/2005 | Categoria: Críticas

Superprodução de Ridley Scott enfoca luta entre cristãos e muçulmanos pelo domínio de Jerusalém

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O filme épico, que biografa a vida de um homem comum em meio a eventos históricos, é o longa-metragem clássico de Hollywood por excelência. O gênero passou alguns anos em decadência, mas foi recuperado para grandes platéias pelo diretor Ridley Scott, que fez de “Gladiador” um dos maiores sucessos dos anos 1990. Scott está de volta ao gênero com o peso-pesado “Cruzada” (Kingdom of Heaven, EUA/Espanha/Alemanha, 2005). A superprodução troca as arenas de luta romanas pelas planícies secas de Jerusalém, e flagra um dos momentos históricos mais importantes da rivalidade sangrenta entre cristãos e muçulmanos.

“Cruzada” possui todos os ingredientes que o público se acostumou a esperar de um filme de Ridley Scott, para o bem e para o mal. Os maiores destaques estão na produção visual esmerada, com excelente reconstituição de época, figurinos e cenários impecáveis e uso discreto, mas bem feito, de efeitos especiais. Por outro lado, há uma certa tendência para o melodrama raso, algo difícil de evitar em filmes com orçamento acima de US$ 100 milhões (nesse caso, foram US$ 130 milhões). Em “Cruzada”, esse melodrama bobo está presente em alguns exageros na trilha sonora, em interpretações desiguais de alguns atores e, especialmente, em diálogos simplistas e equivocados, em determinados momentos do filme.

O personagem principal de “Cruzada” é um ferreiro. Balian (Orlando Bloom) não sabe, mas é filho bastardo de um poderoso cavaleiro, principal protetor da cidade de Jerusalém, chamado Godfrey de Ibelin (Liam Neeson). Em uma breve passagem pela aldeia francesa onde Balian vive, Godfrey revela o parentesco e o convida para ir com ele a Jerusalém. O ferreiro vive um momento difícil: a esposa acaba de cometer suicídio. A princípio ele recusa, mas após um incidente violento com o padre local, acaba topando o convite e se mudando para a Terra Santa.

O ano é 1186. Na época, Jerusalém está sob domínio cristão. Esse domínio, contudo, é frágil. O rei Balduíno IV (Edward Norton, sob uma máscara prateada) está morrendo de lepra, e a cidade está cercada por 200 mil soldados muçulmanos, comandados pelo sultão Saladino (Ghassan Massoud). O poderia militar dos muçulmanos é infinitamente superior, mas a trégua permanece devido ao bom senso dos dois governantes; Balduíno permite liberdade de culto dentro de Jerusalém, e em troca da gentileza Saladino evita a guerra. Ambos sabem que a situação está longe de ser a ideal, mas querem evitar um derramamento de sangue inevitável, em caso de guerra.

Esse frágil equilíbrio logo vai ser rompido por incidentes que envolvem o preconceituoso nobre Reynald de Chatillon (Brendan Gleeson). Os repetidos atos de violência do fanático contra caravanas de muçulmanos a caminho de Jerusalém são incentivados pelo cavaleiro Guy de Lusignan (Marton Csokas), marido da irmã do rei, Sibylla (Eva Green). Guy sabe que inevitavelmente será coroado, quando Balduíno morrer, e sente que a hora está próxima. Ele deseja domínio absoluto sobre o território sagrado dos cristãos. Desse modo, quando Balian chega a Jerusalém, o cenário está pronto para a guerra. O filme enfoca o papel central que ele vai possuir no conflito.

A mensagem de Ridley Scott é clara, a favor da convivência pacífica de diferentes credos, mesmo que um lado e outro tenham que abrir mão de algo para conseguir a paz. De fato, “Cruzada” funciona como uma espécie de recado de Hollywood para as complicadas relações entre os países de Oriente Médio, onde o terrorismo e os atos de guerra são comuns de parte a parte (homens-bomba palestinos, tanques israelenses) neste início de século XXI. A lição de “Cruzada”, portanto, é simples e prática: é preciso negociar, saber abrir mão, para que as frágeis tréguas nos países da região se transformem em paz duradoura. Uma mensagem óbvia, mas válida.

Nesse sentido, é muito interessante que Ridley Scott abandone inteiramente as figuras de “herói” e “vilão”, ao contrário do que fazem os tradicionais épicos de Hollywoood, inclusive “Gladiador”. Não existe certo e errado em “Cruzada”. Os dois adversários principais, Balduíno e Saladino, são homens que compreendem o conceito da diferença e o respeito sincero ao opositor. Ambos sabem que ceder com consciência, aqui e acolá, pode garantir a paz. Nenhum deles é cruel, falso ou estúpido. Evitar o maniqueísmo bobo é o maior mérito de “Cruzada”, maior inclusive do que o estupendo visual do filme.

Egresso de uma escola de design gráfico, Ridley Scott sempre foi um diretor extremamente visual. Seus filmes são verdadeiras aulas de cenários, figurinos e utilização correta de efeitos visuais; ele concebe mundos completos e dá vida a esses mundos virtuais. Em “Cruzada”, essas qualidades aparecem nas seqüências de batalha, que são pouco mais do que tumultos travados no meio de nuvens de poeira, terra, lama, sangue e suor. Alternando imagens panorâmicas de tirar o fôlego para mostrar a movimentação dos exércitos (truque repetido em excesso e claramente inspirado em “O Senhor dos Anéis”) com closes dos campos de batalha, Scott comprova que é muito bom nesse campo. Ele supera até mesmo a edição irregular de Dody Dorn, que faz a primeira metade do filme parecer lenta demais.

Do outro lado do espectro, “Cruzada” se ressente de ousadia na hora de filmar a jornada do herói. Balian vive tudo aquilo que o típico herói de Hollywood enfrenta em filmes do gênero: um processo de aprendizado (de luta e de moral), uma perda trágica, um triângulo amoroso, um rival desalmado. Não falta nada. Alguns desses elementos parecem enfiados na narrativa de modo forçado, como o imbecil e covarde Guy de Lasignon, personagem mais fraco da galeria criada por Scott e, a julgar pelas equivocadas decisões tomadas perto da guerra, um dos piores estrategistas militares que a humanidade já viu.

Para completar, o ator Marton Csokas, que defende o quase-rei, é o elo mais exagerado no ótimo elenco. Orlando Bloom e Eva Green estão bem nos papéis centrais, e os veteranos Liam Neeson, Jeremy Irons e Brendan Gleeson aparecem fazendo o que deles se espera. Mas o show mesmo é de Ghassan Massoud e Edward Norton. O primeiro dá a Saladino uma aura de sabedoria e dignidade, enquanto o segundo mostra que, mesmo com o rosto coberto por uma peça de metal, sabe transmitir emoções, utilizando a voz e gestos contidos. “Cruzada” não é melhor do que “Gladiador”, mas está um degrau acima dos longas-metragens contemporâneos que lhe mordem o calcanhar, como “Alexandre” e “Tróia”.

O DVD da Warner, duplo, é um pouco diferente do habitual. O disco 1 traz o filme com excelente qualidade de imagem (widescreen 2.35:1) e som (Dolby Digital 5.1 e DTS), mais uma faixa de comentário em texto contendo comentários e curiosidades sobre os fatos históricos mostrados na tela. O disco 2 tem como peça principal um documentário interativo dividido em três seções e 16 partes (90 minutos). Há ainda dois documentários enfocando a história verdadeira (40 minutos cada) e uma galeria de quatro featurettes curtos (10 minutos) sobre os bastidores do filme. O material tem legendas em português.

– Cruzada (Kingdom of Heaven, EUA/Espanha/Inglaterra, 2005)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Orlando Bloom, Ghassan Massoud, Liam Nesson, Eva Green, Jeremy Irons
Duração: 145 minutos

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