Crying Fist

16/11/2005 | Categoria: Críticas

Melodrama sul-coreano sobre boxe e redenção biografa com solidez dois adoráveis fracassados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“O boxe é uma versão condensada da vida”. A frase, dita de modo hesitante durante uma atrapalhada palestra que o ex-lutador Gang Tae-Shik (Choi Min-Sik) tenta dar para crianças, de certo modo resumo o melodrama “Crying Fist” (Jumeogi Unda, Coréia do Sul, 2005). Trata-se de uma ironia interessante, levando-se em consideração o fracasso da retórica do boxeador durante a seqüência. Os meninos riem dele, que fica nervoso, fala um monte de bobagens e envergonha o filho, uma criança que tenta a todo custo se aproximar do pai ausente. Gang é um homem equivocado, pura e simplesmente. Um adorável fracassado que o filme biografa de maneira sólida.

O filme de Ryoo Seung-Wan não é muito diferente de tantos outros filmes de boxe que já marcaram época no cinema ocidental, de “Rocky” (1976) até “Menina de Ouro” (2004). O tema principal do filme é a redenção, e filmes sobre esportes violentos se prestam muito bem a retratar cinematograficamente esse tema. Em essência, o boxe é uma metáfora perfeita para ilustrar e sublinhar a trajetória de gente cujas vidas parecem destinadas a uma sucessão de fracassos retumbantes, gente que tem a coragem e a dor de abrir caminho à força em meio a tantas adversidades. Bem feito, esse tipo de filme não tem como dar errado. E “Crying Fist” (uma tradução fiel seria “Punhos que choram”) dá certo.

O cuidado do cineasta Ryoo Seung-Wan na construção dos dois personagens principais é bastante evidente. Ambos são construídos meticulosamente. São dois indivíduos sólidos cujas vidas não têm nada em comum, a não ser o boxe e o gosto amargo da falta de perspectiva na boca. Eles seguem trajetórias distintas, mas convergentes, aproximadas por uma longa montagem paralela que é particularmente eficaz. “Crying Fist” calibra direitinho a edição para que as duas histórias atinjam picos dramáticos simultâneos. A narrativa de cada personagem é apresentada em cenas progressivamente mais curtas, até que no ápice os dois dividem a tela em um efeito de split-screen curioso e eficiente. Muito bom.

O já citado Gang é um homem de 40 anos que ganhou uma medalha de prata lutando boxe na Olimpíada de Seul (1988), mas afundou em dívidas. Tem dificuldades para sustentar a casa, briga com a mulher sem parar e cria embaraço para o filho pequeno, a quem trata mal. Ele sofre com isso. É rejeitado pela família, fica sem teto, e acaba sendo obrigado a ganhar a vida com uma atividade original, mas humilhante. Todo dia, ele arma um ringue improvisado numa grande avenida de Seul e cobra para que transeuntes tenham a chance de bater o quanto puderem nele durante 10 minutos.

O outro personagem é Yoo Sang-Hwang (Ryoo Seung-Beom, irmão do diretor), um jovem com 20 e poucos anos, delinqüente juvenil. Preso durante uma tentativa de assalto, o rapaz acaba dentro do reformatório, vendo de longe a família se despedaçar, com a morte do pai e a doença da avó. Ele descarrega sua frustração através do boxe, apanhando e batendo em quantidades colossais, como um Mohamed Ali de olhos puxados. Yoo vislumbra um futuro negro pela frente, mas a fúria implacável que aplica nas lutas abre uma brecha nesse destino – uma brecha que ele pretende aproveitar a todo custo.

O cineasta sul-coreano monta um rico painel humano a partir dessas duas histórias de vida, e recorre a velhos truques eficazes do melodrama para provocar uma identificação incondicional da platéia com ambos. Os dois personagens têm pelo menos uma cena, cada um, realmente tocante: um momento entre pai e filho que desmonta Gong e um momento neto/avó que faz o mesmo com Yoo. O filme, no entanto, acaba se mostrando traiçoeiro, pois arma o cenário de um confronto entre ambos que põe a platéia em uma sinuca de bico. Entre os dois, haverá necessariamente um perdedor, embora estejamos torcendo por ambos. Lágrimas à vista.

Vale ressaltar que o melodrama pretendido por Ryoo Seung-Wan é modulado com sobriedade, sem jamais cair no piegas, apesar de o diretor construir um cenário perfeito para isso. Gong, por exemplo, apresenta no decorrer do filme uma crescente deficiência visual, diagnosticada como um grave problema cerebral que pode provocar sua morte, caso ele continue lutando. A platéia vislumbra o dramalhão sempre que a vista de Gong começa a falhar, mas o diretor habilmente dribla o clichê ao utilizar o expediente apenas como detalhe que enriquece a jornada do personagem. Esse é um ponto positivo importante.

Um detalhe perceptível é a invasão da cultura ocidental nos aspectos técnicos do longa-metragem, mas esses recursos são utilizados de maneira bastante original. A trilha sonora, por exemplo, é pontuada por lamentos de slide guitar à moda dos sons criados por Ry Cooder para o clássico “Paris, Texas”, de Wim Wenders, e utiliza suaves e inusitadas melodias flamencas nas coreografias das lutas. Um diretor de Hollywood teria abusado do clichê do rock pesado para acender a adrenalina da platéia na hora do quebra-pau, mas não é isso que Seung-Wan deseja. O resultado é refrescante.

Por fim, a coreografia das lutas é excepcional, abusando de técnicas diversas para fotografar os lutadores no ringue e fugindo do paradigma fixado por “Touro Indomável” (1980) para filmes de boxe (câmera lenta, closes exagerados, sangue espirrando). O diretor sul-coreano varia à vontade a forma como mostra os lutadores em ação. Tanto faz mostrar um assalto inteiro através de um único e virtuoso plano-seqüência de três minutos, sem cortes, quanto fragmentar a edição e esticar o tempo dos momentos mais dramáticos.

“Crying Fist” comprova, mais uma vez, o vigor do cinema oriundo da Coréia do Sul, que vem abrindo caminho a passos largos no mercado internacional. O melhor de tudo é notar que a cinematografia do país asiático não é marcada por trabalhos de um único gênero – caso do Japão, onde os filmes de horror viraram marca registrada. Pelo contrário. O cinema da Coréia tem como foco principal uma saudável diversidade que permite aos diretores trabalharem no drama (este filme), no policial (“Memories of Murder”), no horror (“A Tale of Two Sisters”) e no thriller (o fantástico “Oldboy”) com resultados igualmente vigorosos.

– Crying Fist (Jumeogi Unda, Coréia do Sul, 2005)
Direção: Ryoo Seung-Wan
Elenco: Choi Min-Sik, Ryoo Seung-Beom, Jeon Ho-Jin, Lim Won-Hie
Duração: 134 minutos

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