CSI – Perigo a Sete Palmos

20/06/2006 | Categoria: Críticas

Tarantino assina episódio duplo, mantém características da série intactas, insere humor e elegância

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Quentin Tarantino é um cineasta contemporâneo por excelência. Como se não bastassem as inúmeras características on screen que o afastam do cinema clássico, o gosto dele também é diferente dos cineastas tradicionais. O autor de “Pulp Fiction” lida com cultura pop vagabunda (filmes de kung fu, faroestes espaguete) sem se importar com o rótulo “arte de segunda divisão” que esses produtos carregam. Tendo isso em mente, não é nenhuma surpresa que Tarantino tenha decidido escrever o argumento e dirigir um episódio duplo de uma série de TV muito popular nos Estados Unidos: “C.S.I.”

“Perigo a Sete Palmos” (EUA, 2005) é, oficialmente, o telefilme que encerrou a quinta temporada da série. O projeto nasceu da vontade de Tarantino em integrar aproveitar suas férias no cinema para passar a integrar a mitologia do seriado. Para quem não conhece, “C.S.I” acompanha o cotidiano de uma equipe de peritos criminais responsáveis pela investigação de casos complicados em Las Vegas (EUA). O grande desafio do telefilme, do ponto de vista dos fãs do seriado, era que o “estilo Tarantino” chamasse demasiada atenção para si e, com isso, quebrasse a dinâmica estabelecida entre os personagens do programa.

A boa notícia é que o cineasta prova mais uma vez, nos 85 minutos de ação tensa, bem filmada e extremamente inteligente, que é um mestre no seu ofício. Tarantino soube manter as marcas registradas que desenvolveu no cinema (cronologia embaralhada, uso de canções pop obscuras, diálogos divertidos sobre assuntos aparentemente sem relação com a ação principal) enquanto, ao mesmo tempo, respeita as características da série e a personalidade desenvolvida por cinco anos para cada personagem. O resultado é que “Perigo a Sete Palmos” possui a inteligência habitual dos quebra-cabeças investigativos que fizeram a fama do seriado, acrescido de um tratamento visual mais elegante, humor refinado e algumas surpresas bem… explosivas.

O enredo, que saiu da cabeça do diretor (ele não escreveu o roteiro, apenas forneceu o argumento aos roteiristas da série), é bastante simples. Durante um plantão tedioso, o agente Nick Stokes (George Eads) é raptado por um desconhecido que, aparentemente, possui conhecimentos em perícia forense. O seqüestrador enterra Stokes vivo em um caixão de vidro (aqui, uma óbvia conexão com “Kill Bill 2”) e pede um resgate de um milhão de dólares pela vida dele. O dinheiro deve ser pago em doze horas. Detalhe: o criminoso teve a manha de colocar uma webcam dentro do caixão, de forma que os membros da equipe possam acompanhar, em tempo real, a agonia de Stokes.

O ritmo tenso da investigação é quebrado, de quando em quando, com artifícios bem tarantinescos: participações especialíssimas (Tony Curtis interpretando a si mesmo e tirando um sarro impagável com o clássico “Quanto Mais Quente Melhor”, que protagonizou), canções pop com letras que brincam com situações da trama (“You Don’t Stand an Outside Chance”, de desconhecido grupo The Turtles, que sacaneia a situação de Stokes), cronologia quebrada.

Quase todos os personagens do seriado possuem cenas bem desenvolvidas que fazem bem mais do que mover a ação adiante: revelam pequenos detalhes deliciosos sobre os personagens e ajudam a compor melhor a personalidade de cada um deles. A melhor dessas cenas mostra o chefão Gill Grissom (William Petersen) tendo que explicar um bizarro diploma emoldurado e assinado (!) pelo cavalo Trigger, montaria do clássico caubói Roy Rogers, um herói dos primeiros tempos do cinema.

É interessante perceber, também, que Tarantino dirige como se estivesse fazendo um filme para ser exibido no cinema. Grande parte da ação se passa de noite, há um monte de cenas escuras (recurso que funciona muito melhor na tela grande) e os enquadramentos não abusam de closes, embora os utilize sempre que necessário (o intestino sangrento que dispara a ação responde pelo close mais original e bizarro, já que o órgão é insistentemente focalizado de perto). “Perigo a Sete Palmos” confirma, novamente, que na cabeça de Tarantino não existe o dogma segundo o qual o cinema é uma forma de arte superior à televisão. Os dois suportes tecnológicos usam imagens e sons para contar histórias, e ponto final.

Para colocar logo nas lojas brasileiras o telefilme com a grife Tarantino, a PlayArte desvinculou-o do contexto da série, lançando-o antes que a quinta temporada (que o episódio encerra) chegasse às lojas por aqui. Como “C.S.I” é uma série cujos episódios são independentes, os espectadores podem conferi-lo sem medo. No entanto, cabe uma observação: os novatos na série vão perder detalhes que só os fãs compreendem. Um exemplo está na cena em que Gill mostra ser o único integrante do grupo capaz de entender o que Nick Stokes está falando, vendo as imagens na tela do computador sem ouvir o som. Os fãs sabem o motivo: é que Gill, devido a um problema de audição, é versado em leitura labial.

O disco simples traz apenas o episódio duplo, com imagem no formato original (widescreen anamórfico) e som em quatro canais (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– CSI – Perigo a Sete Palmos (Grave Danger, EUA, 2005)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: William Petersen, Marg Helgeberger, George Eads, Gary Dourdan
Duração: 85 minutos

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