Curva do Destino

20/09/2010 | Categoria: Críticas

Produção vagabunda não esconde originalidade e senso de humor cínico deste legítimo filme noir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Curva do Destino” (Detour, EUA, 1945) é um dos filmes noir mais importantes, e contraditoriamente menos conhecidos. Esse paradoxo existe por duas razões: 1) porque o diretor do longa-metragem, Edgar G. Ulmer, não se tornou com o tempo um grande nome de Hollywood, como ocorreu com Billy Wilder e John Huston, apenas para citar dois dos autores de produções do estilo mais importantes do século XX; e 2) porque a produção é, com o perdão da palavra, vagabunda. Esses detalhes, porém, não escondem a originalidade e o senso de humor único da história.

Para começar, “Curva do Destino” oferece uma leitura bem diferente, pois parece antecipar o estilo de vida dos beatniks, que se tornariam famosos na década de 1950. Os beats, como se sabe, foram intelectuais e artistas que pregavam o amor livre e viviam de forma quase marginal, sem dinheiro e na estrada. Mais ou menos como faz o protagonista de “Curva do Destino”, o músico fracassado Al Roberts (Tom Neal).

O mais famoso livro beat chama-se “On The Road”, foi escrito por Jack Kerouac e relata um episódio verdadeiro da vida do romancista, quando este cruzou os EUA, de Nova York para San Francisco (ou seja, uma viagem costa a costa, no sentido leste-oeste), pedindo carona. Em “Curvas do Destino”, Al Roberts faz quase o mesmo trajeto – a diferença é que o destino do pianista é Los Angeles – da mesmíssima maneira: levantando o dedo polegar e torcendo para que algum motorista solitário pare e lhe dê carona.

Como era de praxe nas produções do estilo, Al Roberts narra o longa-metragem em retrospectiva, o que faz do filme um flashback gigante. Pianista de um bar de jazz em Nova York, ele vê a namorada Sue (Claudia Drake) recusar a proposta de casamento para viajar a Hollywood, a fim de tentar a sorte como atriz. Deprimido, Al decide segui-la, algum tempo depois. Sem dinheiro para a viagem, precisa ir pegando caronas até conseguir aportar em Los Angeles.

O estado de espírito de Al é absolutamente negro. Tom Neal o interpreta da maneira correta, com rosto contorcido, repleto de linhas de expressão na testa e sobrancelhas permanentemente franzidas. A própria iluminação ressalta esse estado de espírito torturado. Logo na abertura, quando inicia sua narrativa em flashback, Al começa a falar e a câmera faz um zoom no rosto dele, ao mesmo tempo em que a iluminação escurece e joga seu rosto nas sombras.

Na estrada, nem tudo sai como o esperado para Al, e dois encontros sucessivos provocam uma reviravolta completa (ou melhor, duas) na vida do sujeito. Primeiro ele contra Charles Haskell Jr (Edmund MacDonald), um vendedor de papo envolvente; depois, uma garota de rosto cansado e ar petulante, Vera (Ann Savage). Contar mais do que isso seria estragar as surpresas genuínas que os dois encontros reservam ao espectador. Vale ainda observar como título original da produção é perfeitamente adequado à trama, já que “detour” significa, literalmente, “desvio”.

Edgar G. Ulmer filmou “Curva do Destino” quase sem dinheiro, o que explica, por exemplo, porque as ruas de Nova York estão sempre esfumaçadas, como se envoltas em nevoeiro. As cenas são obviamente registradas em estúdio. A falta de recursos também pode explicar porque a maior parte das tomadas do filme são planos fixos de um carro, com a câmera posicionada de frente para os bancos dianteiros, onde dois personagens sentam e travam diálogos, enquanto paisagens são projetadas em uma tela postada atrás do carro.

Enfim, do ponto de vista técnico, o filme é de uma pobreza genuína. No quesito enredo, porém, a coisa muda de figura, e é aí que “Curva de Destino” se revela inesquecível, um clássico de verdade. A trama é original e intrigante, cheia de surpresas, e deixa o espectador mais do que curioso; ficamos ansiosos, esperando para onde o próximo lance do enredo irá nos levar. Tudo isso culmina com um final extremamente inteligente, parcialmente estragado pela estupidez dos censores da época. Ulmer, contudo, soube atender às exigências da censura sem precisar dar lição de moral no espectador, incluindo uma tomada ambígua e pouco conclusiva no encerramento do longa-metragem.

Além disso, o próprio texto de “Curva de Destino” honra a tradição dos filmes noir: é agil, inteligente e espirituoso. Como todo herói noir, Al Roberts não perde a presença de espírito, apesar do pessimismo e da melancolia em que se encontra mergulhado. Em certo momento, por exemplo, ele percebe um feio arranhão no braço do vendedor que lhe dá carona. “Tive um encontro com o animal mais perigoso do mundo: uma mulher”, explica o sujeito. “Deve ter sido a mulher do Tarzan”, rebate o pianista, de bate-pronto. Perfeito.

Um ponto de referência importante para a platéia mais jovem seria, sem dúvida, a obra dos irmãos Coen. Como a maior parte dos protagonistas dos filmes de Joel e Ethan, Al Roberts é um homem comum, um fracassado, que perde o controle da própria vida após um incidente em que não teve culpa. Al não é bom nem mau, mas apenas um pobre diabo à mercê das peças pregadas por um destino implacável. Pense em “O Homem Que Estava Lá” e terá um espelho deste filme brilhante e pouco conhecido.

Pouquíssimo conhecido fora do círculo de cinéfilos, “Curva do Destino” saiu em DVD no Brasil duas vezes, a primeira pela pernambucana Aurora DVD, em 2006. O filme tem imagem com corte original (1.33:1) e som mono (Dolby Digital 2.0). Não há extras dignos de nota, a não ser notas de produção e trechos de crítica, em texto. A edição mais caprichada da Videofilmes (2010) inclui um perfil do diretor.

– Curva do Destino (Detour, EUA, 1945)
Direção: Edgar G. Ulmer
Elenco: Tom Neal, Ann Savage, Claudia Drake, Edmund MacDonald
Duração: 67 minutos

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