Dália Negra

06/02/2007 | Categoria: Críticas

Brian De Palma cria aura de corrupção e decadência moral em thriller composto por sofisticadas imagens retrô

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O projeto do thriller noir “Dália Negra” (The Black Dahlia, EUA/Alemanha, 2006) andou de mão em mão durante exatos 20 anos em Hollywood. Os direitos do romance de James Ellroy foram adquiridos pelos estúdios Universal em 1986, mas a trama complicada que misturava personagens e fatos históricos com ficção não parecia exatamente atraente para grandes fatias de público, naquela época. A situação mudou quando o diretor Curtis Hanson conseguiu a proeza de criar, em 1997, o genial “Los Angeles – Cidade Proibida”, filme policial extraordinário, a partir de um livro ainda mais complexo do mesmo autor.

Mesmo assim, foi preciso mais nove anos até que “Dália Negra” visse a luz do dia. O primeiro cineasta contratado para desenvolvê-lo, David Fincher (“Seven” e “Clube da Luta”), queria fazer um longa-metragem em preto-e-branco com três horas de duração. O estúdio preferia algo menos radical. Vários outros diretores pularam fora do barco por achar a história complicada demais. A tarefa acabou nas mãos do estilista Brian De Palma. O veterano diretor (“Vestida Para Matar”) mantém a atmosfera de decadência e corrupção do romance, enquanto exercita um estilo personalista, à base de sofisticadas imagens retrô e citações visuais que exalam paixão pelo cinema antigo. No final, a inteligência da história compensa o formato narrativo meio desequilibrado em seus três atos.

A história original, bolada por James Ellroy, resume o tipo de estratégia narrativa em que o romancista se especializou. O melhor trabalho de Ellroy é ficção seca e irônica, de frases curtas, que consiste em preencher lacunas de fatos e personagens históricos com complicados enredos ficcionais. O grande truque de Ellroy é usar anônimos fictícios como protagonistas, colocando-os para interagir em cenários verídicos de corrupção e decadência moral. Aqui, Ellroy criou um triângulo amoroso envolvendo dois detetives do Departamento de Polícia de Los Angeles e uma ex-prostituta. Como pano de fundo, utilizou o assassinato real de uma aspirante a atriz, ocorrido em janeiro de 1947. Elizabeth Short (Mia Kirshner) foi encontrada morta em um terreno baldio, com o corpo retalhado em duas partes e o rosto rasgado de uma orelha a outra, numa espécie de risada mortal. O caso jamais foi solucionado.

De início, “Dália Negra” não enfoca diretamente o assassinato de Short, cujo apelido – surgido devido à predileção por roupas pretas – dá nome ao filme. Seguindo com fidelidade a trama intrincada de James Ellroy, o roteiro de Josh Friedman prefere narrar, em primeiro plano, o triângulo amoroso formado pelos detetives Dwight Bleichert (Josh Hartnett) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart) e pela ex-prostituta Kay Lake (Scarlett Johansson), todos personagens ficcionais. A história é contada do ponto de vista do primeiro, assumindo a forma clássica dos antigos melodramas noir: narração em off abundante, frases curtas, entonação sarcástica. A produção cara e bem cuidada se reflete na reconstituição de época impecável, com sets deslumbrantes criados por Dante Ferretti (“Gangues de Nova York”) em uma cidade cenográfica na Bulgária, e fotografia sepiada do mestre Vilmos Szigmond (“Contatos Imediatos do Terceiro Grau”).

Como de hábito, De Palma brinda o espectador com alguns longos e geniais planos-seqüência, o melhor deles utilizando de forma magistral o movimento de câmera circular patenteado pelo diretor. Este momento virtuosístico marca o momento da descoberta do cadáver: a câmera dá um giro de 360, ao mesmo tempo em que sobe para cima de um prédio, desce pela rua ao lado e desemboca na avenida principal, cobrindo três ações de personagens diferentes ao mesmo tempo – é sensacional. Citações a filmes antigos também aparecem aqui e acolá, com alguma discrição, exceto na referência explícita ao clássico mudo “O Homem que Ri” (1928), cujas imagens perturbadoras são elemento-chave na original solução do enigma.

O elenco de gala não faz feio. Embora Johansson não esbanje energia sexual como de hábito, está correta como a confiante Kay, e Aaron Eckhart oferece uma performance sólida. Alguns críticos apontam a pouca idade (26 anos) de Josh Hartnett como desvantagem, mas a característica é adequada ao personagem, um novato um tanto ingênuo que começa, justamente com o caso da Dália Negra, a ver como as coisas são sujas por baixo de todo o glamour de Hollywood. Para ele – que, não esqueçamos, narra o caso – a investigação funciona como a primeira espiada na lixeira moral que é o mundo decadente da aristocracia hollywoodiana. Esta devassidão é representada magnificamente pelos membros excêntricos da família Linscott, de onde vem o maior destaque no elenco: Fiona Shaw, espetacularmente histriônica no papel da aterradora matriarca.

O maior pecado de “Dália Negra” é o desequilíbrio entre os três atos. No primeiro, tudo é felicidade e cor, e o diretor gasta tempo demais mergulhando na boemia rica com o trio principal. Quando o crime finalmente começa a ser investigado e a família Linscott entra em cena, a história ganha vivacidade e inteligência, mas aí já não há muito tempo para aproveitar a forte presença cênica da oscarizada Hilary Swank. Além disso, o último ato amarra de forma apressada demais a complicada e detalhista resolução do enigma, com formato narrativo quadradão, que apela para flashbacks de momentos mostrados antes e narração em off para deixar tudo bem mastigadinho. Um pecado menor para um thriller mais inteligente e melhor filmado do que a média das grandes produções.

O DVD nacional, da Imagem Filmes, é simples e não tem extras. A qualidade da imagem (widescreen anamórfica) é bom, assim como o áudio (Dolby Digital 5.1).

– Dália Negra (The Black Dahlia, EUA/Alemanha, 2006)
Direção: Brian De Palma
Elenco: Josh Hartnett, Aaron Eckhart, Scarlett Johansson, Hilary Swank
Duração: 121 minutos

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