Dama de Shangai, A

26/04/2005 | Categoria: Críticas

Disco simples da Columbia recupera clássico dos filmes noir de Orson Welles

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Orson Welles sempre teve uma queda para o visual estilizado, repleto de contrastes violentos, do cinema noir. A fotografia de “Cidadão Kane”, o grande clássico de Welles, tem influência evidente dos panoramas escuros e esfumaçados dos longas-metragens policiais que os autores do segundo escalão de Hollywood produziam, na época. O elo mais evidente do cineasta enfant terrible com o filme noir, contudo, apareceu em 1947: “A Dama de Shangai” (The Lady From Shangai, EUA, 1947), o filme que a diva Rita Hayworth carregou nas costas para tentar reerguer o prestígio de do então marido.

Em meados da década de 1940, todo mundo sabia que Orson Welles era um cineasta extremamente talentoso. Só que o nome do diretor de “Cidadão Kane” já se tornara maldito, e nenhum estúdio arriscava lhe entregar uma produção que tivesse a autonomia absoluta que outrora tivera. Welles gastava muito dinheiro, comprava briga com gente poderosa e ainda entregava filmes anticomerciais. Por isso, Rita Hayworth – a estrela mais poderosa da Hollywood de 1947, mulher belíssima e desejada por milhões – bateu o pé: queria o marido no comando de uma grande produção. “A Dama de Shangai” nasceu por imposição da atriz.

Na condição em que Welles se encontrava, a maioria dos diretores teria feito um filme inofensivo, apenas para mostrar ao mercado que poderia ser um cordeirinho quando necessário. Não Welles. O gênio de “Cidadão Kane” implicou com a trilha sonora que o estúdio queria e entregou um corte inicial com impossíveis 155 minutos (como o diretor não tinha autonomia na montagem, o estúdio o remontou, cortando o resultado final para 87 minutos). Além disso, em ato que causou escândalo, desvirtuou a imagem da própria mulher, obrigando-a a cortar o cabelo bem curtinho e a pintá-lo de louro.

Justiça seja feita: por mais que o eterno pôster de “Gilda” seja, para sempre, a imagem mental que todos fazemos ao ouvir a simples menção do nome de Rita Hayworth, a atriz jamais esteve tão linda quanto em “A Dama de Shangai”. Paradoxalmente desafiadora e angelical, um lobo em pele de cordeiro, misteriosa ao extremo (como uma garota tão linda e fina poderia ter morado em Shangai?), sua Elsa Bannister é a epítome da loura fatal dos filmes noir. Até na forma como a imagem de Rita aparecia no filme, contudo, tem o dedo do estúdio: Welles só queria filmar Elsa em planos médios (da cintura para cima) ou de longe, mas após ver o primeiro corte da película, o produtor Harry Cohn obrigou-o a filmar diversos close ups, apenas com o rosto de Gilda, e inseri-los em diversos trechos do filme.

Mesmo com tanta interferência da Columbia, Welles ainda fez um filme brilhante, surpreendente. Ele mesmo interpreta Michael O’Hara, um marinheiro irlandês que se apaixona instantaneamente por Elsa ao salvá-la da ação de bandidos em um parque, à noite, em Nova York. Welles inclui, na seqüência de abertura, detalhes aparentemente insignificantes, que esclarecem muito sobre a natureza manipuladora de Elsa. Ela tem um revólver na bolsa, mas atira-o na grama quando é atacada pelos malfeitores. “Fiz isso apenas para que você pudesse me salvar”, explica ela, armada de um sorriso manhoso que derreteria o mais durão dos marujos. O’Hara fica enfeitiçado.

Por causa disso, aceita o convite indecoroso, feito pelo marido milionário da garota, o extravagante advogado criminalista Arthur Bannister (Everett Sloane): levá-los, junto com o sócio deles, em um cruzeiro pela costa do México. A viagem é dolorosa para Michael O’Hara, mas também proveitosa. Entre tapas e beijos, ele inicia um caso com a mulher dos seus sonhos, embora pressinta que há algo de errado com a situação. Afinal, parece evidente que tanto Arthur quanto o seboso George Grisby (Glenn Anders), o sócio dele, parecem ver claramente a atração magnética que Elsa exerce sobre o corajoso, mas pouco inteligente O’Hara.

“A Dama de Shangai” é um magnífico exemplo de trama noir clássica, com reviravoltas que acontecem no momento exato e surpresas inimagináveis. Além disso, o filme possui como clímax uma das seqüências mais famosas de todos os tempos: a perseguição dentro de uma casa de espelhos. Fotografada de maneira espetacular por Charles Lawton Jr, a cena – infelizmente encurtada pela montagem criminosa da Columbia – serviu de inspiração para inúmeros longas-metragens que vieram depois. A mente do protagonista (uma mistura de desespero, incompreensão e vontade febril de fugir da morte) ganha uma tradução visual estonteante, de tirar o fôlego mesmo. “A Dama de Shangai” não é o filme que Orson Welles desejava ter feito, mas ainda assim está acima de maioria dos filmes do gênero a que pertence. Uma obra-prima.

A Columbia é a responsável pelo lançamento deste clássico no Brasil. O DVD é excelente, a começar pela cópia do filme, restaurada, com imagem límpida e trilha de áudio clara e potente, em formato Dolby Digital 1.0. Como extras, o pacote traz um trailer, um comentário em áudio (do cineasta e estudioso de Welles, Peter Bogdanovich) e um documentário (20 minutos), em que Bogdanovich relembra fatos e curiosidades sobre a produção. A nota negativa é a falta de legendas no material.

– A Dama de Shangai (The Lady From Shangai, EUA, 1947)
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Rita Hayworth, Everett Sloane, Glenn Anders
Duração: 87 minutos

| Mais


Deixar comentário