Dama na Água, A

10/01/2007 | Categoria: Críticas

Produção tem a atmosfera tensa dos melhores filmes de M. Night Shyamalan e é muito bem filmada, apesar de boba

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Os ruidosos lances de bastidores que cercaram a chegada aos cinemas de “A Dama na Água” (Lady in the Water, EUA, 2006) influenciaram, decisivamente, no massacre impingido à produção pela crítica norte-americana. Para quem não sabe, Shyamalan brigou com a Disney, foi fazer o filme na Warner e ainda escreveu um livro detonando a empresa responsável por alavancar a sua carreira. A atitude pegou mal e rebateu no longa, que foi chamado de bobo, ingênuo, confuso e outros adjetivos menos agradáveis. Afinal, é tão ruim assim? A resposta mais coerente seria não, embora os adjetivos acima não estejam longe da verdade. Um paradoxo que vou tentar explicar nas próximas linhas.

Antes de qualquer coisa, uma declaração concreta: “A Dama na Água” confirma, mais uma vez, que Shyamalan é um autor, no sentido clássico da palavra. Este, como os filmes anteriores que ele dirigiu, pois possui uma assinatura pessoal muito nítida, uma marca registrada que pode ser percebida desde os primeiros minutos do longa-metragem. Um espectador atento vai reconhecer o estilo e as obsessões do diretor sem muito esforço. O senso de mistério e tensão crescente, o ritmo quase contemplativo, a banda sonora cheia de silêncios; na narrativa, questões envolvendo fé e redenção. Tudo isso são características que marcam a obra do cineasta.

O protagonista é, também, uma típica cria dele: um homem solitário, um pária, vítima de grande trauma pessoal no passado, que se envolve em um acontecimento fantástico e o utiliza para superar os fantasmas que o atormentam. Assim eram, em maior ou menor grau, os personagens de Bruce Willis em “O Sexto Sentido” (1999) e “Corpo Fechado” (2000), de Mel Gibson em “Sinais” (2002) e de William Hurt em “A Vila” (2004). A situação volta a se repetir com o zelador Cleveland Heep (Paul Giamatti), personagem principal de “A Dama na Água”. Ele é um médico que perdeu mulher e filha alguns anos antes e, traumatizado, largou tudo para viver em um condomínio na Pensilvânia (EUA), localizado ao lado de um bosque.

Certa noite, este homem solitário encontra uma garota esquisita nadando na piscina do condomínio. Story (Bryce Dallas Howard), uma loira de olhos arregalados e fala macia, se revela personagem de um conto de fadas cujo cenário real é justamente o condomínio. Story é uma “narf”, espécie de ninfa aquática cuja missão na Terra é servir de musa inspiradora para um escritor anônimo que mora em um dos apartamentos. A moça, que tem o dom de prever o futuro, garante que o romance escrito depois que o sujeito vê-la – ela não sabe quem ele é – será o livro de cabeceira de um futuro líder dos Estados Unidos, alguém que mudará a história da humanidade.

A história, portanto, trata de uma lenda invadindo a realidade. A fábula em si é apresentada logo na abertura, sob a forma de animação tosca que lembra um número musical de “Hedwig” (2000). Foi criada de improviso pelo próprio Shyamalan como história de ninar para os filhos. Como tal, é uma historinha ingênua com heróis, vilões e monstros, inclusive cachorros, águias e macacos gigantes que possuem a habilidade extraordinária de se esconder dos humanos. Toda a história é narrada do ponto de vista de Cleveland Heep. Basicamente, é o mesmo filme que o diretor vem fazendo há muitos anos, uma fábula que usa a vida real como cenário.

Um detalhe importante, infelizmente ignorado por muitos, é que o olhar de M. Night Shyamalan é assumidamente infantil, apesar de sombrio e tristonho. Por causa disso, os personagens não têm grande profundidade e parecem maniqueístas, até mesmo superficiais. Nesse sentido, a obra do diretor apresenta grande semelhança com a de Steven Spielberg, cujo “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, de 1977, possui atmosfera semelhante. Ambos são longas-metragens que mostram um grupo de adultos tomando contato com criaturas extraordinárias, e reagindo não com medo, mas com fascínio e encantamento. Como crianças, enfim.

Do ponto de vista técnico, é um filme muito bem feito. A fotografia do grande Christopher Doyle (responsável pelos filmes de Wong Kar-Wai) é nunca menos do que espetacular, abusando de iluminação em chave menor, escura e opressiva. O filme dá preferência aos ângulos baixos e esta decisão, associada à pouca luz, transforma o condomínio num lugar bastante sinistro. A inventiva tomada de abertura, com o zelador matando um inseto, resume perfeitamente o que será mostrado e, mais importante, o que não será mostrado – nós nunca vemos o tal inseto, e jamais veremos por inteiro os seres mitológicos (um defeito de “A Vila” que o diretor, graças a Deus, não repetiu). Shyamalan deixa a imaginação do espectador livre para “ver” as criaturas, o que deixa o filme bem mais assustador.

Um cacoete típico do diretor, que em grande parte é responsável por manter o interesse do público na história, é que existe um mistério que o protagonista (e por conseqüência também a platéia) precisa desvendar. O cineasta aproveita esse mistério para introduzir um importante personagem e dar aquela que é, talvez, a bofetada mais inteligente que um filme já acertou nos críticos de cinema. Não é difícil imaginar que o Sr. Farber (Bob Balaban) representa todos os críticos, e suas ações no longa-metragem funcionam como metáfora perfeita para o que o diretor, também roteirista, pensa deles – o destino do personagem na história sacramenta de vez esta certeza.

Por fim, e isso talvez seja inconsciente, o personagem representado pelo próprio Shyamalan também parece funcionar como um avatar da maneira como ele vê a si próprio – um cara incompreendido, cujas qualidades talvez só sejam reconhecidas e respeitadas no futuro. Vale lembrar que a decisão de se escalar para um papel importante é inédita, e foi uma das razões para o rompimento com a Disney, que não o queria num papel com muitas falas. Infelizmente, nesse caso os produtores tinham razão. Shyamalan tem talento como roteirista e diretor, mas é péssimo ator.

Como se vê, existem muitas qualidades em “A Dama na Água”. O quadro geral é que empalidece o filme. Trata-se de uma produção eficiente nas partes, bem filmada, com atmosfera adequada de mistério, e senso de encantamento bem-vindo a uma narrativa que ressalta o poder do mito. No todo, porém, esse conjunto de qualidades resulta… bobo e sem relevância, exatamente o que diziam os detratores. Para mim, porém, o detalhe mais importante é que o longa-metragem deixou a sensação de que, apesar das falhas, vou gostar de rever no futuro. Também senti isso em filmes como “A Vila” e “Corpo Fechado”, e estas foram obras que cresceram, para mim, com o tempo. O que, claro, é um bom sinal.

O DVD é um lançamento da Warner. O disco é simples e traz cenas cortadas, erros de gravação e um making of como extras. O filme comparece com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– A Dama na Água (Lady in the Water, EUA, 2006)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, M. Night Shyamalan
Duração: 110 minutos

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