Damien – A Profecia II

27/06/2006 | Categoria: Críticas

Continuação do sucesso de 1976 encontra o Anticristo adolescente e capricha nas mortes exóticas e sangrentas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Produção minúscula, que pouca gente acreditava poder se tornar um sucesso, “A Profecia” (1976) não foi concebida como uma série. Na verdade, sequer foi filmada de forma a permitir uma continuação. Originalmente, o longa-metragem terminava com a morte do pequeno Damien Thorn. Ele só permaneceu vivo graças ao então presidente da Fox, Alan Ladd Jr. Após ver o filme, ele comentou com o diretor Richard Donner que o final seria mais aterrorizante caso o filho do Demônio sobrevivesse. Donner pediu mais US$ 200 mil, filmou a seqüência de encerramento num cemitério e encerrou a produção com a clássica imagem estática de Damien, olhando para a câmera e dando uma risada de congelar os ossos.

Foi uma grande sacada. O filme fez um enorme e inesperado sucesso, e uma continuação se tornou inevitável. O produtor Harvey Bernhard ganhou um orçamento de US$ 4 milhões, bem folgado para os padrões da época, para desenvolver a linha-mestra de “Damien – A Profecia II” (Damien: Omen II, EUA, 1978). Ele mesmo bolou a história, que flagra Damien (Jonathan Scott-Taylor) agora adolescente, aos 14 anos, interno em uma academia militar e sendo criado por um tio milionário em Chicago (EUA). Bernhard também foi buscar a participação de Jerry Goldsmith, cuja trilha sonora para o original, cheio de corais masculinos em latim e melodias soturnas, deixara maravilhados público e crítica.

Fora Goldsmith, quase ninguém do elenco e da equipe técnica retornou. O desconhecido Mike Hodges foi contratado para dirigir, mas filmou apenas as cenas que se passam na academia militar, sendo depois substituído por Don Taylor (Hodges levou crédito apenas pela colaboração no roteiro). Curiosamente, o papel de protagonista acabou nas mãos do versátil e experiente William Holden (de “Crepúsculo dos Deuses”, “Quando Paris Alucina” e “Meu Ódio Será sua Herança”), ator que havia recusado o papel principal na produção de 1976. Aqui, Holden interpreta Richard Thorn, presidente de uma das maiores empresas do mundo e tutor de Damien.

Basicamente, “A Profecia II” reconta a mesma história do primeiro filme, que em linhas gerais mostrava alguns conhecedores de História religiosa tentando avisar a família de Damien sobre a natureza demoníaca do rapaz e sendo eliminados, aos poucos, em acidentes bizarros. A diferença é que a segunda parte se assume completamente como filme de horror, caprichando na violência gráfica, matando mais gente e criando mortes exóticas à vontade. O capricho utilizado para coreografar essas cenas sangrentas é evidente, com uso abundante de câmera lenta e truques de montagem. Elas respondem pelos melhores momentos da produção. Merecem destaques, em particular, o ataque de corvos à jornalista religiosa e o acidente envolvendo um elevador e um médico.

Desenvolvendo melhor as inserções musicais do primeiro filme, Jerry Goldsmith faz um bom trabalho, embora a música não tenha a mesma sutileza, e nem o sabor de novidade. No entanto, “Damien – A Profecia II” tem um grande problema: o roteiro, cheio de diálogos pobres e artificiais, que aposta em muitas situações impossíveis e atira contra o realismo sólido estabelecido no primeiro filme. O melhor exemplo é o artefato criado pelos roteiristas para tentar estabelecer uma forma de fazer os personagens acreditarem que Damien é o verdadeiro Anticristo: o garoto teria sua face exata impressa em uma muralha do século XIII, pintada por um artista que, reza a lenda, teria encontrado o próprio Satanás antes de pintar o muro.

Caso tivessem feito uma pesquisa histórica consistente, os roteiristas teriam percebido que os artistas, naquela época, ainda não tinham desenvolvido técnicas de profundidade de campo, para dar a impressão de três dimensões – e, portanto, a gravura com a face do Anticristo jamais poderia ter sido feita daquela maneira, como se um Rembrandt tivesse nascido cinco séculos antes apenas para desenhar um rosto num muro. Aliás, a idéia de fazer a tal muralha ser descoberta por arqueologistas apenas uma semana após o sangrento final do primeiro filme contribui para tornar a trama ainda mais inverossímil.

O filme também distorce diversos trechos da Bíblia para gerar a sensação de que os acontecimentos vistos na tela estavam previstos no Livro do Apocalipse, mas faz isso com menos competência do que na obra de 1976. Por fim, o diretor Don Taylor perde a chance de explorar melhor um dos momentos mais dramáticos da série, que é a tomada de consciência do rapaz sobre sua natureza satânica. A cena em que isso acontece é pífia, oca, sem qualquer ressonância emocional. Em resumo, trata-se de um filme B assumido, mais violento e bem menos criativo do que a produção que o gerou.

A edição vendida no Brasil tem o selo da Fox e é um disco simples. O filme tem ótima qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som razoável (Dolby Digital 2.0). O único extra é um comentário em áudio do produtor e co-roteirista Harvey Bernhard. O mesmo disco é vendido separadamente e como parte integrante de dois pacotes, “A Profecia: Trilogia” (2000) e “A Profecia: Quadrilogia” (2006).

– Damien – A Profecia II (Damien: Omen II, EUA, 1978)
Direção: Don Taylor
Elenco: William Holden, Lee Grant, Jonathan Scott-Taylor, Robert Foxworth
Duração: 107 minutos

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