Dança da Morte, A

17/10/2007 | Categoria: Críticas

O Apocalipse segundo Stephen King: excelente cenário e produção cuidadosa em série irregular de seis horas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Para a maior parte da legião de fãs do escritor Stephen King, o ponto da obra literária do autor está no nababesco romance “A Dança da Morte”. Lançado originalmente em 1978, a maçaroca de quase 1.200 páginas concretiza todas as qualidades e defeitos da prosa de King. Como se sabe, o romancista tem sido há décadas um dos favoritos da indústria cinematográfica, e portanto a produção de um longa-metragem baseado no livro já era esperada desde que a obra ganhou relançamento especial em 1991, com ampliações na trama e um final diferente. Por razões diversas, parcela significativa dos admiradores de King guarda carinho especial pela adaptação de “A Dança da Morte” (The Stand, EUA, 1994).

Uma pesquisa básica no Google confirma a enorme popularidade da minissérie assinada por Mick Garris entre os fãs de carteirinha de King. Resenhas amadoras espalhadas por blogs pessoais, bem como comentários respeitosos publicados em bancos de dados do porte do Internet Movie Database (Imdb), continuam a alimentar a lenda em torno da adaptação cinematográfica/televisiva. Fora do círculo de admiradores mais fanático a popularidade do seriado é menor, mas ainda positiva. O fenômeno não deixa de despertar atenção, até porque a lista de lançamentos cinematográficos de boa qualidade, relacionados aos livros de Stephen King, é bastante longa, e inclui títulos como “Carrie” (Brian De Palma), “O Iluminado” (Stanley Kubrick) e “Um Sonho de Liberdade” (Frank Darabont).

O motivo da devoção, na verdade, está na extrema fidelidade com que a adaptação foi realizada. Aqui, é preciso acrescentar uma rápida história de bastidores. O escritor e o diretor/roteirista George A. Romero, fã ilustre com experiência em adaptar King (“A Metade Negra”), chegaram a trabalhar por três anos na adaptação da história para o cinema. A grande dificuldade parecia ser condensar uma trama extremamente longa no espaço de um longa-metragem. Os dois chegaram a considerar a idéia de dividir o enredo em dois filmes – uma trajetória de produção bem semelhante a “O Senhor dos Anéis”, com cuja trama o romance guarda semelhanças inegáveis, especialmente na parte final – quando o cineasta Mick Garris apareceu com uma proposta irresistível: transformar o livro em uma minissérie de oito horas, com o generoso orçamento (para os padrões da TV norte-americana) de US$ 28 milhões.

Proposta aceita, Garris foi em frente. Convocou o próprio Stephen King para assinar o roteiro. Trouxe um elenco de qualidade, liderado por Gary Sinise (“Forrest Gump”), com participações especiais de ótimo nível (Ed Harris, Kathy Bates). Montou um esquema hercúleo de produção, com números impressionantes: 95 locações, cronograma de 100 dias de gravações em seis estados diferentes, e uma enorme galeria de protagonistas, com pelo menos quinze personagens importantes e 125 papéis com falas. Tudo isso foi feito sempre com um objetivo em mente: manter o máximo possível da trama original, condensando o mínimo possível de ação e mantendo intacto tudo o que o próprio autor imaginasse ser essencial. Considerando tudo isso, é evidente a razão do sucesso de “A Dança da Morte” entre os fãs mais fiéis de King – a minissérie tem a atmosfera e o espírito da obra do escritor.

Como de hábito em Stephen King, temos um cenário instigante que se sobrepõe aos personagens. Após uma família contaminada por uma amostra geneticamente modificada do vírus da gripe conseguir escapar de um complexo hospitalar, a praga altamente letal começa a se espalhar de forma descontrolada. Duas semanas depois, a devastação já assumiu caráter apocalíptico. Mais de 99% da humanidade está morta. Assoladas por saques e violência incontroláveis, as grandes metrópoles sofrem com o colapso de serviços essenciais. Multidões de corpos putrefatos trazem novas doenças. Enquanto isso, os raros sobreviventes, imunes ao super-vírus, começam a dividir os mesmos sonhos.

Nas imagens oníricas, aparecem dois personagens de forma recorrente: uma velha negra (Ruby Dee) e um sujeito com pinta de caminhoneiro (Jamey Sheridan), uma mistura de Mel Gibson em “Máquina Mortífera” com os dois vocalistas do AC/DC, banda predileta de King. Em torno das ordens proferidas por esses dois personagens, dois exércitos começam a se reunir. A turma do mal monta uma base de operações em Las Vegas (onde mais?). O pessoal do bem organiza uma comunidade no Colorado. Usando uma estrutura narrativa de mosaico, repleta de referências bíblicas e com algumas imagens de textura demoníaca – o corvo onipresente, os pesadelos no milharal – o filme nos apresenta a duas dúzias de protagonistas de mais uma versão da milenar guerra entre Céu e Inferno, que trará à Terra devastada o Armaggedon, batalha final citada no livro do Apocalipse.

A direção de Mick Garris é irregular. Ousado na primeira metade, o diretor elimina quase todas as cenas de ação e prefere se concentrar no desenvolvimento dos personagens, o que é um ponto forte. O cenário apocalíptico, montado sem pressa nas primeiras quatro horas de projeção, é excelente. Por outro lado, alguns cacoetes sempre presentes na obra de Stephen King mostram as garras de maneira insistente, e este é um dado que se mostra especialmente problemático quando a série de aproxima do final. O conhecido moralismo do escritor aparece sem pudor, construindo um sistema simbólico de punições que permite ao espectador atento antecipar os destinos de todos os personagens (quanto mais malvadas as ações, maior a punição). Auxiliado pela trilha sonora irregular, este cacoete deixa algumas partes insuportavelmente melodramáticas.

Além disso, conhecedores da obra de Stephen King não terão dificuldade em sacar rapidamente quais os coadjuvantes cuja importância será realmente importante (deficientes físicos e mentais, por exemplo, sempre desempenham papéis de destaque). Por fim, o que deveria ser o clímax acaba por se revelar uma decepção – não há tensão, e a jornada suicida empreendida por parte do exército do bem (a semelhança com “O Senhor dos Anéis” não é mera coincidência) acaba se mostrando absolutamente inútil. Isso sem falar que á fotografia é um tremendo equívoco, com iluminação clara e chapada, o que elimina as sombras e texturas. Nas cenas de sonhos isso fica ainda vai evidente – perceba como as aparições de Mãe Abigail no milharal são iluminadas com uma mistura de azul e vermelho que dá a impressão de que um painel néon está instalado logo ao lado da plantação.

O DVD nacional, lançado pela Paramount, é duplo e se baseia na edição lançada nos EUA em 1999, pela Artisan Entertainment. Cada disco contém dois episódios completos, totalizando três horas de vídeo (tela cheia, formato original) e áudio (Dolby Digital 2.0) de boa qualidade. Em relação ao lançamento importado, os brasileiros perderam um making of curto, duas galerias (fotos e comparações storyboard/filme), além de comentário em áudio reunindo Stephen King, o diretor Mick Garris e um punhado de atores.

– A Dança da Morte (The Stand, EUA, 1994)
Direção: Mick Garris
Elenco: Gary Sinise, Molly Ringwald, Jamey Sheridan, Laura San Giacomo
Duração: 359 minutos

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