Dançando no Escuro

12/07/2006 | Categoria: Críticas

Obra de Lars Von Trier homenageia musicais e critica Hollywood durante banho de lágrimas – e isso é bom!

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um filme musical, feito fora dos Estados Unidos, com uso de tecnologia de ponta, levemente baseado na mitologia grega e bastante polêmico. Não, não se trata se “Moulin Rouge”, a obra australiana que estreou ontem nos cinemas nacionais. Por mais uma coincidência, o outro musical da mesma safra do épico carnavalesco de Baz Luhrmann está chegando agora às locadoras brasileiras. “Dançando no Escuro” (Dancer In The Dark, França/Dinamarca, 2000) consegue ser, ao mesmo tempo, muito parecido e radicalmente diferente do seu gêmeo australiano.

As semelhanças são óbvias e chamam a atenção de bate-pronto. O próprio Baz Luhrmann é o primeiro a reconhecê-las. O diretor elogiou a obra do colega dinamarquês Lars Von Trier quando veio ao Brasil, em 2001, mas fez questão de ressaltar as diferenças, que também não são poucas. A estética, que em “Moulin Rouge” aproxima-se do barroco, é naturalista em “Dançando no Escuro”. De qualquer forma, ambos são filmes instigantes, que estabelecem uma relação sentimental, inteiramente emocional, com o espectador. Por isso, não permitem meio termo: você pode amá-los ou odiá-los, mas dificilmente ficará em cima do muro.

”Dançando no Escuro” rachou a crítica internacional ao meio desde que saiu vitorioso no Festival de Cannes de 2001. Muita gente amou e decretou a obra de Von Trier como uma das mais importantes do cinema europeu nos últimos anos. Outros acusaram o cineasta de manipular o sentimento do público, algo que Von Trier realmente faz, afundando cada vez mais a protagonista numa tragédia de proporções sobre-humanas. De qualquer forma, isso tem dupla intenção: realizar uma homenagem ao musical de Hollywood, distorcendo-o propositalmente, e brincar com os clichês dos dramas trágicos da indústria do cinema.

Lars Von trier realiza as duas tarefas com absoluto domínio de cena. A incursão pelo terreno do musical é brilhante, tanto do ponto de vista das canções quanto das coreografias. E o melhor é que, ao estabelecer todas as seqüências de dança como devaneios da protagonista, Von Trier também dribla outro clichê do musical tradicional, que empurra os atores para danças, muitas vezes, sem uma justificativa decente para a narrativa. A verdade é que as pessoas que reclamaram de “Dançando no Escuro” (eu inclusive, quando o vi pela primeira vez) tinham o julgamento afetado pela força dramática inegável dos 140 minutos criados por Lars Von Trier.

O destaque obrigatório do filme é a presença da cantora Bjork, agraciada com a Palma de Ouro em Cannes, no papel da tcheca Selma, uma imigrante que trabalha duro numa fábrica para sustentar o filho pequeno. A mulher, sonhadora e fanática pelos velhos musicais de Hollywood, está perdendo progressivamente a visão, mas não pode parar de trabalhar antes que consiga juntar dinheiro suficiente para pagar uma cirurgia que vai evitar que o filho tenha a mesma doença no futuro. Os números de dança, que Selma imagina sempre que houve pequenos ruídos, são as pausas que ela precisa dar na vida dura que leva. Nesse sentido, a m,ensagem do filme é perfeita: todos precisamos sonhar para conseguir sobreviver.

É possível imaginar a tragédia que vai se desenrolar a partir desse argumento básico, mas o enredo guarda algumas cartas na manga que vão ampliando o sofrimento da protagonista a níveis estratosféricos – quem chora com o sofrimento de personagens do cinema deve ficar longe desse filme.

Um detalhe importante é que Lars Von Trier filmou 100% das imagens com câmeras digitais e também compôs boa parte das músicas, repletas de percussão e com números de dança bem bolados. Já Bjork é um espetáculo à parte e brilha em sua estréia cinematográfica. Os outros atores (gente famosa, como Peter Stormare e David Morse) acompanham a boa atuação da protagonista. Pode ter certeza: você pode até odiar “Dançando no Escuro”, mas vai ter bastante assunto para comentar depois que vê-lo.

O DVD da Versátil é muito bom, embora simples. Em um disco, traz o filme com boa qualidade de imagem (wide 2.35:1 anamórfico) e som (Dolby Digital 5.1), além do documentário “Os 100 Olhos de Lars Von Trier” (60 minutos), mais um featurette enfocando a recepção do filme em Cannes.

– Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, França/Dinamarca, 2000).
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Bjork, David Morse, Catherine Deneuve, Peter Stormare, Joel Gray.
Duração: 140 minutos

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