Daqui a Cem Anos

15/03/2006 | Categoria: Críticas

Épico histórico de ficção científica, feito em 1936, ganha edição em vídeo no Brasil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Em meados da década de 1930, H.G. Wells já era o escritor de ficção científica mais respeitado do planeta. Ao observar com cuidado a situação político-econômica global, contudo, ele não gostava do que via. A ascensão de Hitler na Alemanha, a crise econômica que varria os Estados Unidos e a instabilidade social no continente europeu apontavam para a possibilidade de guerra, algo em que Wells não gostava de pensar. Como a maioria dos europeus, ele havia visto de perto os horrores da I Guerra Mundial. Assim, decidiu que poderia utilizar o prestígio pessoal para conceber um ambicioso épico futurista que funcionasse como peça de resistência de uma tese anti-belicista ancorada o potencial pacifista da ciência.

Este projeto acabaria se tornando “Daqui a Cem Anos” (Things to Come, EUA, 1936), talvez o primeiro grande filme de ficção científica da história do cinema. Aliás, Wells não queria entrar no cinema por acaso. Como escritor ele já era um gigante, mas entendia que a mídia audiovisual tinha um apelo popular que poderia beneficiar demais as tramas dos livros, repletos de acuradas descrições futuristas. Wells se aproximou do produtor Alexander Korda e, com ele, apostou tudo numa grande produção. A baso de pensamento que a trama deveria defender dizia que só a ciência, mais do que a religião ou a política, poderia evitar a guerra.

O filme foi baseado num romance recém-escrito pelo escritor, chamado “Shape of Things to Come”. A trama foi estabelecida em uma cidade fictícia denominada Everytown (uma metáfora um tanto óbvia para qualquer grande centro do mundo, mas baseada visualmente em Londres) e dividida em três momentos históricos distintos: 1940, com o início de uma nova guerra mundial; 1966, quando devido à guerra prolongada a humanidade retornava a um estágio primitivo, medieval, com a civilização é assolada por fome e doenças; e 2036, quando o avanço tecnológico criava novos focos de tensão social.

O espetáculo visual foi garantido com a contratação do cenógrafo William Cameron Menzies para o posto de diretor. Vencedor do Oscar em 1929 e um dos maiores criadores de cenários de Hollywood na época (são dele, por exemplo, os sets assombrosos do épico “E o Vento Levou”, de 1939), Menzies estreou na direção com um trabalho visual de tirar o fôlego. Os vastos sets e efeitos especiais inovadores de “Daqui a Cem Anos” são impressionantes, um trabalho de tirar o fôlego. Há seqüências antológicas a dar com o pau: cenas realistas de guerra nas ruas de Londres, enormes prédios e quarteirões destruídos por bombardeios, e cenários de magnitude inédita – um prédio futurista e um foguete gigantesco – para o terceiro segmento da história.

Outro ponto que merece destaque está nas sempre visionárias visões do futuro elaboradas por H.G. Welles, que escreveu o roteiro e supervisionou a transformação dos seus conceitos em objetos reais. Wells não apenas previu a Segunda Guerra Mundial (ele imaginou que a guerra começaria em 1940, mas a realidade se antecipou em um ano), mas também futuros artefatos tecnológicos como a televisão e o foguete, além de conceitos estratégicos na história da tecnologia como, por exemplo, a obsessão do homem em chegar à Lua.

É verdade que o foguete de “Daqui a Cem Anos” funciona com uma tecnologia bisonha que ignora conceitos como a gravidade, funcionando como uma espécie de canhão gigante. A cena, aliás, remete ao clássico curta-metragem “Viagem à Lua”, feito pelo francês Georges Mèliés nos primórdios do cinema. Também é verdade que o ritmo do filme é irregular, alternando longas seqüências de diálogos (em que a teoria de Welles é apresentada e discutida pelos personagens) com elipses que, apesar de visualmente fascinantes, são tão longas que quebram a fluência narrativa da história. Pecados menores para um épico futurista visionário que influenciaria dezenas de filmes posteriores – o que seria dos uniformes dos astronautas da série “Jornadas nas Estrelas” sem “Daqui a Cem Anos”?

Pela primeira vez lançado no Brasil, o filme aparece num DVD razoável da distribuidora pernambucana Aurora. A cópia é repleta de arranhões e possui um corte editado do filme (93 minutos, com imagem 4:3 e som Dolby Digital 1.0). A montagem original levada aos cinemas tinha cerca de 130 minutos, e uma versão intermediária com 113 minutos do longa-metragem ainda sobrevive, mas para um épico de ficção científica que ocupa um lugar tão importante na história do cinema e passou tanto tempo inédito no Brasil, o simples fato de tê-lo disponível em DVD já é motivo de júbilo.

– Daqui a Cem Anos (Things to Come, EUA, 1936)
Direção: William Cameron Menzies
Elenco: Raymond Massey, Cedric Hardwicke, Edward Chapman, Ralph Richardson
Duração: 92 minutos

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