Dark Water – Água Negra

10/10/2005 | Categoria: Críticas

Água vira quase um personagem com vida própria no atmosférico terror psicológico de Hideo Nakata

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Todo mundo sabe que a cartilha de Hollywood determina algumas regras importantes para que os filmes supostamente possam atrair mais espectadores. Uma dessas regras diz que longa-metragem sem um bom vilão não funciona. Os cineastas japoneses, que conseguiram estabelecer para si um mercado fértil e criativo de filmes de baixo custo, parecem não acreditar muito nessa regra. “Dark Water – Água Negra ” (Honogurai mizu no soko kara, Japão, 2002), estiloso filme de terror psicológico, é mais uma prova dessa afirmação. A obra dá sustos e mexe com os nervos da platéia mesmo sem possuir um antagonista muito claro.

De fato, o filme do cineasta Hideo Nakata também quebra outra regra de Hollywood, esta relativa ao protagonista. Em geral, os personagens principais dos filmes norte-americanos são pessoas com quem a platéia pode se identificar; gente comum, de boa índole, submetida a situações extraordinárias. Dessa maneira, a empatia entre espectadores e protagonista é estabelecida de imediato, sem necessidade de muito esforço dos roteiristas para criar uma conexão entre filme e platéia. De certa forma, não é assim em “Dark Water”.

Matsubara Yoshimi (Hitomi Kuroki) é uma mulher jovem que acaba de passar por um longo e desgastante processo de divórcio. Desempregada e com pouco dinheiro, a mulher agora se dedica a lutar com todas as forças para manter a guarda da filha de cinco anos, Ikuko (Rio Kanno). A situação econômica força a dupla a se mudar para um decrépito prédio semi-abandonado na periferia de Tóquio. O lugar, além de barato, fica pertinho da escola de Ikuko. O problema é que quase não há vizinhos, e a garotinha precisa enfrentar a solidão de não ter com quem brincar.

Para complicar tudo, o pai de Ikuko (Fumiyo Kohinata) mantém no tribunal uma ação de guarda para ficar com a filha. Ele permanece rondando a vizinhança e revela no tribunal que a Matsubara já foi submetida a tratamento com drogas pesadas para curar problemas psicológicos, algo que pode atrapalhar o desejo da mulher de morar com a filha. Sob pressão intensa, Matsubara começa a perceber estranhos acontecimentos envolvendo Ikuko e o velho prédio onde moram. A menina fala sozinha. Uma lancheira vermelha infantil aparece nos lugares mais inesperados, mesmo depois que a mulher atira a bolsa no lixo. Infiltrações aparecem no teto do apartamento. Todos esses elementos parecem ter conexão com o sumiço de uma outra garotinha, dois anos antes. Ou será que Matsubara está prestes a ter mais um colapso nervoso?

Hideo Nakata é o cineasta japonês de terror mais conhecido no Ocidente, por causa do enorme sucesso de “O Chamado”, refilmagem do grande sucesso “Ringu”. Ele é muito respeitado nos círculos de cinéfilos amantes do terror psicológico pela capacidade de realizar filmes com atmosfera sombria impecável. Em “Dark Water”, ele presenteia o público com uma das imagens mais impactantes e poderosas dos últimos anos: uma garotinha com capa de chuva amarela e lancheira vermelha. Há duas ou três seqüências no longa-metragem de parar a respiração, todas envolvendo essa imagem aterrorizante.

O diretor manipula convenções do filme de terror psicológico com segurança e desenvoltura. A água, é evidente, aparece com abundância no filme, tornando-se quase um personagem com vida própria. A chuva cai sobre Tóquio na maior parte das cenas externas. Existem infiltrações e inundações, tanto no prédio semi-abandonado quanto na escola. Há uma caixa d’água sinistra que aparece em algumas cenas. Tudo isso são pistas que o cineasta espalha ao longo do filme, transformando platéia e protagonista em amedrontados detetives obrigados a seguir uma trilha assustadora de eventos para descobrir o que se passa de verdade por trás das imagens assustadoras. E é aí que Nakata mostra o quanto é bom: ao colocar sua personagem depressiva, meio pirada, na mesma situação da platéia, ele alcança a empatia do modo mais difícil e original.

Se você é fã do gênero, vai se divertir a valer com “Dark Water”. No Japão, onde os filmes costumam ser construídos ao redor de poucas cenas de sustos, o filme fez enorme sucesso. Mas não espere tomar surpresas a cada 10 minutos de projeção. Hideo aprendeu bem a lição do mestre Alfred Hitchcock. Ele constrói as seqüências sem pressa, aguçando a curiosidade do público aos poucos e esticando a tensão ao máximo. Com isso, consegue valorizar as poucas cenas realmente assustadoras, fazendo com que elas se tornem inesquecíveis.

Em DVD, “Dark Water” ganhou lançamento tímido da Alpha Filmes, feito para aproveitar o lançamento da refilmagem norte-americana, que teve Walter Salles como diretor. O disco é simples, contém apenas o filme, tem enquadramento stardand 4×3 e som Dolby Digital 2.0, em português e japonês.

– Dark Water – Água Negra (Honogurai mizu no soko kara, Japão, 2002)
Direção: Hideo Nakata
Elenco: Hitomi Kuroki, Rio Kanno, Asami Mizukawa, Fumiyo Kohinata
Duração: 102 minutos

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