Daunbailó

26/09/2007 | Categoria: Críticas

Filme de 1986 sobre tédio e espera é o título mais bem resolvido de Jim Jarmusch

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Certa vez, o cineasta norte-americano Jim Jarmusch deu uma declaração esclarecedora sobre o tipo de filme que lhe atrai, utilizando um exemplo concreto. Ele disse que qualquer filme comercial mostraria a viagem de táxi de um personagem importante com uma elipse radical – um plano dele entrando no carro, um corte, outro plano dele saindo do carro. Pelo menos 95% dos filmes são assim, segundo Jarmusch, e não lhe interessam. Os momentos da vida que ele tem vontade de narrar nos filmes dele são exatamente aqueles instantes em que o personagem em questão está dentro do táxi. Em outras palavras: o que interessa a Jarmusch são os momentos mortos da vida, em que a gente não faz nada a não ser esperar. Momentos de tédio, em que nada parece acontecer. Momentos que vivemos diariamente. Nossos momentos mais freqüentes.

O segundo ato de “Daunbailó” (Down by Law, EUA/Alemanha, 1986) se encaixa perfeitamente neste exemplo. O trecho mais longo da película mostra os três personagens principais dentro de uma cela de prisão. O cafetão Jack (John Lurie) está lá depois de ser pego com uma menor de idade, num motel, numa armadilha montada pela polícia. Zack (Tom Waits) também foi capturado num mal-entendido – ele dirigia um carro emprestado com um cadáver no porta-malas. De cara, os dois se odeiam. São parecidos demais, até no nome. A cola que os une é o tagarela italiano Roberto (Roberto Benigni), cujas tentativas canhestras de falar inglês são tão bem-humoradas que acabam desarmando as duas trombas.

Num filme comum, as seqüências dentro da prisão seriam encurtadas ao máximo, pois se passam em um espaço apertado, onde o tempo parece parado, quase morto. Num filme de Jarmusch, porém, esses momentos são fundamentais. O cineasta filma o nascimento da bizarra amizade entre os três marginais em longos planos sem cortes, com câmera estática, e alonga-os até não mais poder. A estética minimalista reforça a atmosfera de tédio, de banalidade, de espera constante. Nada acontece ali. E ficaria até o fim sem acontecer, se não fosse a ação do estrangeiro curioso. Primeiro ele inventa um mantra hilariante (“we all scream for ice cream”, todos esperamos por sorvete) que o trio repete ad nauseaum, levando os outros presos e os guardas da cadeia à loucura. Depois, acha que descobre um meio de escapar.

Talvez “Daunbailó” – a tradução brasileira, aparentemente estúpida, curiosamente ajuda o espectador a entrar no clima do filme, esse mesmo tempo morto vivido pelos personagens – seja o filme mais bem resolvido de Jarmusch, aquele que resume com maior eficiência os elementos caros ao cinema independente que ele desenvolve. A bela fotografia em preto-e-branco de Robby Muller, com contrastes radicais e quase nenhuma profundidade de campo, descortina uma New Orleans completamente diferente dos estereótipos: uma cidade fria, suja, velha, solitária, de ruas permanentemente vazias. São imagens com a textura de um cartão postal desbotado.

A galeria de personagens é exemplar: homens socialmente marginalizados, vivendo uma rotina de imobilismo. Gente sem tesão, sem vontade. Gente que vive em preto-e-branco. Pessoas que parecem esperar um elemento externo para lhes tirar do marasmo, algo que, sozinhos, não conseguem. Curioso que o fator que chega para sacudir a rotina dos marginais de Jarmusch seja, quase sempre, um estrangeiro (“Estranhos no Paraíso”, “Ghost Dog”). Dá o que pensar. De quebra, ainda ganhamos o humor peculiar, leve e sofisticado, expressado por exemplo na cabana que os presidiários encontram durante a passagem pelo pântano (a decoração do lugar é idêntica à da cela da prisão). A cereja do bolo é o belo simbolismo do plano final, silencioso e fantasmagórico.

O longa-metragem foi lançado em DVD no Brasil pelo pequeno selo Lume. O disco é baseado no lançamento norte-americano da Criterion Collection: imagens (widescreen anamórficas) e áudio (Dolby Digital 2.0) remasterizados, documentário, entrevistas do diretor e do elenco, e um vídeo musical (Tom Waits).

– Daunbailó (Down by Law, EUA/Alemanha, 1986)
Direção: Jim Jarmusch
Elenco: Roberto Benigni, Tom Waits, John Lurie, Nicoletta Braschi
Duração: 107 minutos

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