De Repente É Amor

20/01/2006 | Categoria: Críticas

Velho tema dos amigos que se descobrem apaixonados rende filme com boa química entre atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Trailers de filmes costumam enganar muito. A prévia exibida nos cinemas brasileiros da comédia “De Repente É Amor” (A Lot Like Love, EUA, 2005), por exemplo, contém um par de cenas que levam qualquer cinéfilo a classificar o filme como um pastelão para adolescentes. Numa delas, um casal é acordado por um policial enquanto ambos dormem, nus, dentro do carro, no meio da uma estrada. Em outra, a garota enfia o nariz numa porta de vidro porque não percebe que ela está entre ela e o cômodo seguinte. Não há como esconder a surpresa – boa surpresa, por sinal – quando se confere o filme por inteiro. “De Repente É Amor” não é mais um besteirol americano, mas uma comédia para casais, que recicla o velho tema dos amigos que se descobrem apaixonados. O humor é mais suave e nada físico.

Se você gosta do gênero, e conhece razoavelmente filmes sobre encontros e desencontros de casais, deve ser fã de “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”. Pois bem, em linhas gerais, é possível dizer que o filme de 2005 do diretor Nigel Cole segue o mesmo esqueleto narrativo do excelente trabalho de Rob Reiner. Mas, por favor, a comparação diz respeito apenas ao enredo, não à qualidade do filme, uma vez que “Harry e Sally” é uma pequena obra-prima, enquanto “De Repente É Amor” fica apenas no razoável, mais ou menos no mesmo nível do bobinho “Escrito nas Estrelas”, outra obra que também lembra.

O enredo trata de duas pessoas que se conhecem e iniciam uma esquisita amizade, encontrando-se de tempos em tempos, sem jamais perceber que, na verdade, entre ambos pode existir algo mais do que uma empatia fortuita. Letreiros no início da projeção indicam que a ação é contada em flashback, começando sete anos antes do presente e saltando a cada novo encontro dos protagonistas: três anos, um ano, seis meses, e por aí vai. Nada muito original, mas funciona, e é isso que importa.

Apesar disso, uma explicação importante para que o romance entre Harry e Sally parecesse real, e não apenas artifício para fazer um filme, ficou pelo caminho em 2005. No filme de 1989, o casal antipatizava-se mutuamente a cada novo encontro, e só se descobria amigo depois de alguns anos nessa toada, após muita convivência forçada. Em “De Repente É Amor”, antes que sequer uma palavra seja trocada, Oliver (Ashton Kutcher) e Emily (Amanda Peet) fazem sexo no banheiro de um avião, a caminho de Nova York (sinal dos tempos, talvez?). Depois, os dois passeiam, se embebedam e tiram pencas de fotos juntos nas belas paisagens da Grande Maçã. Parece namoro, mas mesmo assim ela desdenha dele, e os dois nem pensam em ficar juntos. Difícil de acreditar que, apesar da empatia quase instantânea e da evidente atração física entre os dois, nada de mais sério se insinue.

O filme tenta explicar isso definindo personalidades teoricamente incompatíveis. Oliver é organizado, metódico e tem planos rígidos para os próximos seis anos – e isso não inclui um namoro sério. Já Emily é espontânea, biriteira e não pensa em trabalho. Até aí tudo bem, se essas duas personalidades não mudassem tanto entre o primeiro e o segundo encontro. De repente, Emily não é mais uma garota punk-gótica, mas uma aspirante a atriz que encaixaria perfeitamente no estilo de vida de Oliver. Até certo ponto, o filme acerta ao não definir demais as duas personalidades, pois assim não os coloca em rota de colisão, evitando um dos maiores clichês das comédias românticas. O problema é que, com tanta empatia e tanto fogo entre os dois, fica difícil acreditar que eles nunca pensem em namoro.

Nem tudo é ruim em “De Repente É Amor”, contudo. Todos sabem que para um filme assim funcionar é preciso de química antre os atores – e isso é algo que Kutcher e Peet, dois atores apenas razoáveis, têm de sobra. Eles funcionam muito bem juntos, tanto que um faz a atuação do outro crescer. O timing cômico é muito bom; as risadas tímidas dele casam bem com os olhares insinuantes dela, de forma que até as cenas mais bobas e insensatas (a “briga” de cusparadas de água mineral dentro do restaurante chinês) têm algum charme. Casais vão se abraçar mais agarradinho a cada vez que Oliver e Emily dividirem a tela, o que sempre é uma boa notícia para uma comédia romântica.

O DVD é da Buena Vista. O filme está com enquadramento original (wide anamórfico), tem opções de áudio em inglês e português (Dolby Digital 5.1) e alguns extras, incluindo comentário em áudio reunindo diretor e produtores, cenas cortadas e um videoclipe.

– De Repente É Amor (A Lot Like Love, EUA, 2005)
Direção: Nigel Cole
Elenco: Ashton Kutcher, Amanda Peet, Kal Penn, Ali Larter
Duração: 107 minutos

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