De Volta ao Vale das Bonecas

30/08/2007 | Categoria: Críticas

Clássico cult de Russ Meyer é um delicioso filme doidão que celebra a cultura do sexo, drogas e rock’n’roll

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um coquetel explosivo de sexo, drogas e rock’n’roll, “De Volta ao Vale das Bonecas” (Beyond the Valley of the Dolls, EUA, 1970) foi o único dos 27 longas-metragens dirigidos por Russ Meyer no seio (vale o trocadilho) de um grande estúdio de Hollywood. Talvez por isso, tornou-se com o tempo o mais celebrado de todos os filmes do excêntrico cineasta, conhecido pelos cinéfilos como ferrenho defensor do amor livre e de peitos femininos generosos. É o tipo de filme aparentemente maluco, doidão mesmo, que quebra todas as regras narrativas e causa muita estranheza a quem o assiste sem conhecer bem o contexto em que foi produzido.

Em 1970, os EUA viviam uma fases das mais hedonistas. Jovens freqüentavam festivais de música, faziam passeatas pelados contra a guerra do Vietnã, vestiam roupas supercoloridas, não penteavam os cabelos, tomavam muito LSD e transavam como coelhos, especialmente em cidades como San Francisco. Os filmes de Russ Meyer, inicialmente produzidos de forma independente, refletiam com precisão este panorama libertário. As obras eram recheadas de nudez feminina, rock’n’roll psicodélico e drogas de todos os tipos, sem demonstrar preocupação com coerência narrativa ou desenvolvimento de personagens. O negócio era, parafraseando a famosa música do Kiss, rock a noite toda e festas todo dia.

De certa forma, o enredo maluco de “De Volta ao Vale das Bonecas” funciona como microcosmo da ascensão e queda da chamada contracultura. Na narrativa, uma banda de rock formada exclusivamente por mulheres – numa época em que isto era heresia absoluta – ruma para Los Angeles, acompanhada do namorado e empresário de uma delas (David Gurian). A líder do trio (Dolly Read) tem a intenção de pedir a ajuda da tia milionária (Phyllis Davis) para ingressar no show business. E é exatamente isso o que ocorre. Enquanto a banda consegue fama e fortuna, cada integrante do grupo (inclusive o rapaz que as acompanha) vive dramas pessoais, que incluem homossexualismo, fidelidade, muita bebida e farras homéricas freqüentadas por lindas garotas nuas.

O roteiro do filme foi escrito pelo crítico Roger Ebert, então um iniciante no ramo e que depois se tornaria o profissional mais conhecido dos Estados Unidos. Em texto publicado em 1980, ou 10 anos depois da estréia, o próprio Ebert escreveu que não tinha idéia da revolução que estavam fazendo. “À medida que os anos passam, parece mais e mais um filme feito por acidente, no momento em que os lunáticos tomaram conta do hospício”, diz ele. Faz sentido. É o tipo de filme que obriga o espectador a esquecer critérios objetivos de análise e embarcar no clima de farra, se não quiser se sentir excluído da experiência lisérgica.

De fato, “De Volta ao Vale das Bonecas” fazia mais sentido na época em que foi produzido porque, lá, as platéias viviam experiências semelhantes àquelas por que os personagens passam. As exibições nos cinemas eram festas regadas a maconha, pílulas e LSD. O status de cult adquirido com o tempo veio, em certo sentido, pela nostalgia de um tempo politicamente incorreto, que não volta mais. Críticos de todos os tipos louvam o filme pela coragem de satirizar a época e mostrar o que, em tese, não podia ser mostrado, como um romance idílico vivido por um casal de negros, além de tirações de sarro com celebridades da época com quem ninguém brincava, como Cassius Clay (o boxeador que vive sem camisa, tentando comer alguém) e Phil Spector (o festeiro Z-Man).

O final acachapante, que mistura nazismo (“este é o novo rosto de Martin Boorman”) e homens com seios em uma orgia, é antológico, fazendo piada até mesmo com a clássica música-tema da Fox em uma cena famosa pela violência. Além disso, a fotografia exuberante (cada tomada parece iluminada por um arco-íris tamanho GG), a beleza das mulheres desnudas, a excelente trilha sonora pop e a atmosfera anárquica que permeia cada imagem são os pontos fortes. As atuações fracas respondem pela parte mais fraca. É um autêntico musical-comédia-horror que funcionou como precursor de “Rocky Horror Show”. Para quem curte a obra de diretores excêntricos como John Waters, confessadamente influenciados pelo filme, pode ser um grande programa.

Por causa do status de cult, o filme foi lançado pela Fox em uma edição dupla e recheada de extras. O disco 1 tem o filme, com ótima qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mais dois comentários de áudio, um com o elenco e outro com o roteirista Roger Ebert. O disco 2 possui um bom documentário e mais quatro featurettes enfocando partes da produção (a música, a cena lésbica, o contexto político da época). A edição brasileira contém legendas no segundo CD.

– De Volta ao Vale das Bonecas (Beyond the Valley of the Dolls, EUA, 1970)
Direção: Russ Meyer
Elenco: Dolly Read, Cynthia Myers, Marcia McBroom, David Gurian
Duração: 109 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário