De Volta Para o Futuro – A Trilogia

23/11/2006 | Categoria: Críticas

Clássicos jovens dos anos 1980 estão disponíveis em três formatos diferentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Ver a trilogia “De Volta Para o Futuro” em DVD era um antigo sonho de consumo da geração que foi adolescente nos anos 1980. A trinca de filmes do cineasta Robert Zemeckis demorou bastante para aparecer no formato digital, mas quando isto aconteceu, os três filmes foram lançados de três modos diferentes: em DVDs isolados, em uma caixa de três discos e também num box com quatro CDs. O luxo faz sentido: a trilogia “De Volta para o Futuro” permanece como um dos produtos mais emblemáticos para a citada geração. Além disso, é cinema de aventura da melhor qualidade, despretensioso e inteligente.

Os filmes receberam tratamento classe A para a empreitada. As imagens aparecem límpidas e no formato original (widescreen 1.85 anamórfico). As trilhas de áudio dos três trabalhos ganharam duas remixagens, sendo uma em formato Dolby Digital 5.1 (já de alta qualidade) e outro no padrão DTS, o mais alto da indústria de vídeo atual. Em qualquer um dos três formatos à venda, os filmes podem ser encontrados com grande número de material extra, que detalha bastante bem os bastidores da empreitada.

Na verdade, os três discos correspondentes aos três filmes são exatamente iguais, nos três lançamentos. Portanto, os DVDs individuais contêm, cada um, o filme e um conjunto de extras que inclui featurettes da época do lançamento original, cenas cortadas, comentário em áudio de Robert Zemeckis (diretor) e Bob Gale (roteirista), mais trailer. O extra mais saboroso é um documentário de 45 minutos, em três partes, cada uma cobrindo as gravações de um filme. Cada parte pode ser conferida no disco correspondente ao filme que ela enfoca. Portanto, para ver o documentário completo, o usuário precisa ter os três discos em mãos.

A caixinha de três discos apenas reúne os três discos individuais num pacote único. Já a caixa de quatro discos, em embalagem digipack de luxo, vem com um disco a mais, apenas de material extra. O CD é dividido em três áreas, uma para cada filme. Os extras são muitos: documentários antigos, mais cenas cortadas, galerias de fotos e storyboards, pequenos featurettes enfocando partes específicas do filme, entrevistas em vídeos com atores e diretor. O melhor extra é também o mais esquisito: uma entrevista em três partes (apenas em áudio, com tela preta, num total de 185 minutos) reunindo Zemeckis e Gale. O extra tem legendas em português e é uma bem-humorada conversa que aprofunda bastante os bastidores e a concepção da trilogia como um todo.

Os filmes em si dispensam muitos comentários. Embora seja perfeitamente adequada ao cenário oitentista de produção dos estúdios norte-americanos – do figurino ultracolorido à abordagem nostálgica da década de 1950, duas características fartamente exploradas pelo cinema da época –, a trilogia se destaca do oceano de semelhantes por causa de uma palavrinha: criatividade. A combinação perfeita de aventura, romance e ficção científica faz a trilogia transitar entre os gêneros com desenvoltura, a bordo de uma premissa inteligente e de roteiros tanto intrincados quanto surpreendentes. Os textos de Bob Gale são um destaque tão importante quanto a química perfeita da dupla Michael J. Fox e Christopher Lloyd, que interpretam os protagonistas, o garotão guitarrista Marty McFly e o cientista maluco Emmett “Doc” Brown.

Os três filmes são diversão de qualidade, mas é impossível não ficar empolgado com o primeiro longa, que leva o jovem Marty para 1955, onde ele impede, sem querer, que os pais se conheçam – e ainda desperta o interesse romântico da futura mãe. Claro que ele precisa desfazer o mal-entendido, ao mesmo tempo em que tenta arrumar um jeito de retornar ao futuro (ou melhor, ao presente). O ritmo do filme é perfeito; as piadas, engraçadíssimas (a cueca Calvin Klein); e há várias cenas que se tornaram clássicas. A longa seqüência do baile de formatura em que Marty “inventa” o rock’n’roll já tem garantido um lugar na história do cinema.

As partes 2 e 3 não atingem o mesmo status de clássico adolescente, mas bebem da mesma fonte satírica e são dirigidas com a mesma segurança por Zemeckis. Na primeira, Marty e Doc viajam para o futuro (2015) e depois são obrigados a retornar ao passado (1955) porque a incursão futurística acabou por criar uma realidade paralela. Esse mundo alternativo nos permite rever a cena do baile do filme anterior de outra perspectiva. Já a terceira parte se passa no Velho Oeste, em 1885, e brinca com vários clichês dos faroestes, incluindo até mesmo uma participação do ZZ Top (uma banda de hard country bacana). Marty dançando break num saloon é uma imagem de matar de rir.

Os documentários que acompanham o pacote merecem uma olhada atenta. Robert Zemeckis (“Contato” e “Forrest Gump”) e Bob Gale explicam que vinham trabalhando na temática das viagens no tempo, em um filme jovem, havia pelo menos quatro anos – e só demoraram tanto tempo para materializar a idéia porque demorou esse mesmo período para convencerem um estúdio a bancar o primeiro filme. A dupla revela, em fartas entrevistas, a enorme quantidade de energia criativa que foi investida no projeto. Isso fica latente quando o espectador percebe tantas boas idéias, materizalizadas numa trama inteligente e complexa, mas sempre colocada no filme em linguagem ágil e acessível. Boas sacadas pulam por todos os cantos das obras.

“De Volta Para o Futuro” é um raro exemplo de trilogia que, embora não tenha sido concebida originalmente dessa maneira, consegue manter a energia e o frescor nos três filmes. Isso ocorre porque Zemeckis e Gale não filmaram como empregados de um estúdio, mas como verdadeiros autores, que embalavam as idéias como a um bebê recém-nascido. A dupla gastou dez anos concebendo cada detalhe dos filmes – e um dos grandes fascínios da trilogia é exatamente a quantidade de pequenos detalhes de que a estória consegue dar conta.

Exatamente por isso, a experiência de assistir aos três filmes como se fossem uma única aventura de seis horas é maravilhosa. As reviravoltas no enredo se sucedem velozmente, mas nunca chegam a cansar; a ação flutua em quatro dimensões diferentes de tempo de maneira fluida, engraçada e bem planejada. Entre 1885 (época do Velho Oeste), 1955 (nascimento do rock‘n‘roll e da cultura teen por excelência), 1985 (tempo presente para a época, passado nostálgico que justifica o lançamento para os fãs) e 2015 (futuro hipercolorido a la anos 1980), Zemeckis narra um conto de fadas adolescente temperado com muito bom humor.

– De Volta Para o Futuro – A Trilogia (Back to the Future, EUA)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Thomas F. Wilson, Lea Thompson
Duração: 111 (parte 1), 108 (parte 2) e 118 minutos (parte 3) e 269 minutos (disco 4).

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