De Volta Para o Futuro

29/11/2006 | Categoria: Críticas

Zemeckis mescla comédia, aventura, ficção e romance em filme que se tornou um clássico dos anos 1980

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“De Volta Para o Futuro” (Back to the Future, 1985, EUA) nasceu de uma espiada do roteirista Bob Gale no álbum de fotos da formatura do pai. Enquanto observava aquelas imagens amareladas, um pensamento cruzou a mente do escritor: se ele tivesse sido adolescente na mesma época do genitor, pai e filho teriam sido amigos? Este episódio ocorreu em 1980. Ao longo dos quatro anos seguintes, Gale e o diretor Robert Zemeckis trabalharam em cima desta idéia, criando o roteiro de um dos filmes mais emblemáticos dos anos 1980.

A rigor, “De Volta Para o Futuro” é um trabalho cinematográfico perfeito. Funciona como um concerto de gala, regido com maestria e sem uma única nota sequer fora do lugar. O filme mescla comédia, romance, ficção científica e aventura em doses exatas, gerando um produto homogêneo e sem gorduras, em que cada cena tem uma razão de ser e leva naturalmente à próxima. O senso de humor afiado gera inúmeras seqüências antológicas e piadas absurdamente boas, além de duas ou três cenas de ação que deixam a platéia de coração na mão. Além disso, quem foi adolescente nos anos 1980 vai perceber que o longa oferece um retrato minucioso do que foi aquela época multicolorida e ultra-pop.

A história é relativamente simples, e extremamente conhecida: trata da viagem ao passado do adolescente Marty McFly (Michael J. Fox). Por acidente, Marty retorna ao ano de 1955 e impede que a mãe conheça o pai, em uma inteligente concepção cinematográfica de um problema científico real, conhecido como “paradoxo da avó” e muito discutido por físicos quânticos: se a viagem no tempo fosse mesmo possível, e os viajantes matassem seus próprios antepassados, será que eles nasceriam no futuro? Para evitar que o paradoxo se concretize, Marty precisa dar um jeito para que os futuros pai e mãe se apaixonem, além de arrumar combustível para a máquina do tempo (instalada num carro-ícone do período, o DeLorean,) funcionar novamente, de modo a poder levá-lo ao presente, em 1985.

Escrita assim, a trama pode parecer complexa, mas o modo como Zemeckis a apresenta faz tudo ficar claro e límpido como água. Beneficiando-se dos quatro longos anos que trabalhou no script, Zemeckis inclui uma quantidade abissal de idéias e detalhes no filme – e isto faz toda a diferença. Não são poucas as cenas em que duas ou até três coisas acontecem ao mesmo tempo, gerando ganchos que serão aproveitados muitas cenas à frente. Isto é algo raro no cinema. Tome como exemplo a cena em que Marty e a namorada combinam acampar à noite na beira do lago. Neste momento, o filme estabelece seu tema (a diferença de gerações, pois os pais dele, castradores, não querem que o encontro aconteça), a motivação do personagem (Marty ama Jennifer) e, de quebra, dá ao protagonista duas informações que serão importantes mais adiante (o panfleto sobre o relógio na torre, e o próprio acontecimento no lago). Uma maravilha.

Há pelo menos duas longas seqüências impecáveis, ambas relacionando a presença do garoto do futuro em 1955 ao surgimento de ícones associados à juventude. Numa delas, Marty “inventa” o skate a partir de um carrinho de rolimã, durante uma frenética perseguição na praça da cidade. Na outra, talvez a cena mais lembrada do filme, o rapaz cria o rock’n’roll executando o clássico “Johnny B. Goode” num baile colegial, anos antes de a canção ser efetivamente escrita por Chuck Berry. Como se não fosse suficiente, há diversas piadas geniais, como as referências à cueca Calvin Klein e ao presidente dos EUA na época do lançamento do filme, Ronald Reagan.

Acima disso tudo, há o desempenho extraordinário de todo o elenco, com destaque para a química perfeita de Michael J. Fox com Christopher Lloyd, que baseou seu professor Emmett “Doc” Brown no físico Albert Einstein. Há quem observe que os efeitos especiais são um tanto toscos para os padrões do século XXI, mas isto não representa qualquer problema. Para completar, Zemeckis e Bob Gale se orgulham de ter criado um dos raros longas-metragens que respeitam, com fidelidade, as idéias dos cientistas a respeito das possibilidades reais da viagem no tempo. Aliás, pode fazer o teste: ao terminar o filme, repasse-o mentalmente e perceba que não existe qualquer furo na intrincada trama montada pelos roteiristas. Resumindo, o que temos aqui é um pequeno clássico adolescente para gente de todas as idades.

Em DVD, o filme pode ser encontrado de três maneiras: em disco simples vendido separadamente e como parte integrante de duas caixas, uma com três e outra com quatro CDs. Nos três casos, o disco contendo o longa-metragem é exatamente o mesmo: imagens límpidas no formato original (widescreen 1.85 anamórfico), áudio nos formatos Dolby Digital 5.1 e DTS, e muitos extras. Há featurettes da época do lançamento original, cenas cortadas, comentário em áudio de Robert Zemeckis (diretor) e Bob Gale (roteirista), mais trailer, além da primeira parte de um documentário atual (15 minutos) sobre a trilogia.

A caixinha de três discos apenas reúne os três discos individuais num pacote único. Já a caixa de quatro discos, em embalagem digipack de luxo, vem com um disco a mais, apenas de material extra. O melhor deles referente ao primeiro filme da trilogia é um bate-papo com Zemeckis e Gale (99 minutos), apenas em áudio e com legendas em português, onde eles detalham em profundidade a concepção do projeto.

– De Volta Para o Futuro (Back to the Future, 1985, EUA)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Thomas F. Wilson, Lea Thompson
Duração: 111 minutos

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