Garota Morta, A

02/01/2009 | Categoria: Críticas

Cinco histórias curtas ligadas por um cadáver feminino compõem filme chumbado de Valium e cheio de lágrimas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O drama independente “A Garota Morta” (The Dead Girl, EUA, 2006) parece ter sido filmado sob a ótica de um ser humano de olhos turvos de lágrimas. Tudo nele é sofrimento, dor, perda. Trata-se de um longa-metragem 100% baixo astral, contra-indicado para quem entende cinema como diversão. Cada uma das duas dezenas de personagens mostrados em seus 93 minutos, mesmo aqueles que aparecem por apenas alguns segundos, vive soterrado em tristeza. Não haveria nada de errado com isso, se o longa-metragem de Karen Moncrieff procurasse construir um fluxo de imagens mais espontâneo e menos calculado. Porém, apesar de alguns acertos ocasionais, o resultado final é histérico e turvo, como uma ressaca em preto-e-branco.

Escrito e dirigido por uma cineasta muito querida no circuito de festivais independentes norte-americanos, “A Garota Morta” é um filme cuja grande qualidade é a estrutura, organizada como um livro de contos. São cinco histórias curtas sobre pessoas que não se conhecem. Todas são afetadas de alguma forma pela descoberta do corpo da garota morta do título. No geral, a obra lembra um cruzamento de “Crash – No Limite” (há um desejo quase infantil de expor a sujeita por baixo do sonho americano) com “Babel” (o tom solene e freqüentemente auto-piedoso), adornado por uma atmosfera decrépita surrupiada diretamente de “Twin Peaks”, a lendária minissérie televisiva de David Lynch.

Não há dúvida de que o trabalho de Lynch, que muita gente considera a melhor série já exibida na TV, é a principal inspiração em termos narrativos. Não se trata de um thriller estilo “caça ao assassino”, mas de um drama chumbado de Valium, uma tentativa de revelar aquilo que há de podre sob a couraça dos habitantes de uma cidade de médio porte nos Estados Unidos. Cada história é aberta com um intertítulo (“A Estranha”, “A Esposa”, “A Filha”) e narrada de um fôlego só, o que é um dado positivo. Se houvesse tentado seguir a já batida regra de saltitar aleatoriamente entre as histórias, Moncrieff poderia ter tornado o quadro inteiro ainda mais artificial.

Aliás, artificial é a palavra que melhor se encaixa como comentário descritivo do filme. De modo geral, todos os personagens são rasos, superficiais, sem solidez. Não têm passado, nem futuro, nem densidade. Existem de forma limitada, em duas dimensões, exclusivamente dentro do filme. Tome como exemplo o primeiro (e mais deslocado) conto, sobre a mulher catatônica (Toni Collette) que encontra o cadáver mutilado da garota no deserto. Ela avisa à polícia, volta para casa, chora, geme, leva esporros homéricos de uma senhora inválida, e vira uma espécie de celebridade involuntária por ter aparecido no noticiário local, atraindo toda a sorte de esquisitões à sua volta, como o vampiresco empacotador (Giovanni Ribisi) do supermercado local. Acontece que nenhum desses freaks de carteirinha é mais maluco do que a própria moça. Sim, e daí?

Como em todos os livros de contos, algumas das histórias são melhores do que outras. Uma das mais interessantes é aquela que mostra a jovem ajudante de legista (Rose Byrne) tentando superar o desaparecimento (ou fuga, ninguém sabe) da irmã, ocorrido 16 anos antes. O assunto ocupa todo o tempo da família, de modo que a menina não existe; vaga pela casa como uma morto-viva lacrimosa, sem vontade própria. Já o conto mais previsível – você já viu histórias parecidas muitas vezes antes – focaliza uma mãe (Marcia Gay Hayden) tentando superar a culpa que sente por ter abandonado a filha, anos antes.

Um destaque inegável é o elenco, que se esbalda com o material choroso em atuações cheias de energia, algumas vezes esbarrando no exagero. Via de regra, os atores mais experientes driblam o problema buscando um registro mais contido, mais humano, menos teatral. Entre todos, o destaque vai para Mary Beth Hurt, estrela do melhor segmento de todos, como a explosiva esposa de meia-idade de um camarada caladão e muito estranho. Caprichando nos gritos, nas olheiras fundas e nas expressões faciais tresloucadas, Brittany Murphy também ganha pontos ao criar uma prostituta claramente inspirada em Courtney Love, a viúva doidona de Kurt Cobain.

A direção de arte e a fotografia enfatizam ainda mais o clima baixo-astral. O visual é escuro, cheio de sombras, e a iluminação utiliza uma paleta de cores esmaecidas e amareladas. Por fim, a trilha sonora é outro elemento que evoca “Twin Peaks”, com melodias etéreas, escritas em tom menor e tocadas em rotação aparentemente mais lenta, como um velho disco de 45 rpm sendo executado em 33 rpm. O efeito desta combinação é correto, mas diluído pela combinação histriônica e excessiva dos elementos – a música praticamente não pára durante todo o filme, e a preferência da diretora pelos enquadramentos fechados, inclusive nas cenas mais escuras, enfatiza ainda mais a artificialidade. Parece um filé queimado: poderia ser gostoso, se não tivesse passado do ponto.

O DVD brasileiro, da Europa Filmes, não tem extras. O filme possui enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio razoável (Dolby Digital 2.0). 

– A Garota Morta (The Dead Girl, EUA, 2006)
Direção: Karen Moncrieff
Elenco: Toni Collette, Brittany Murphy, Rose Byrne, Mary Beth Hurt
Duração: 93 minutos

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