Declínio do Império Americano, O

09/09/2005 | Categoria: Críticas

Filme que gerou o sucesso ‘As Invasões Bárbaras’ é verborrágico e pretensioso, mas tem idéias inteligentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“O Declínio do Império Americano” (Le Déclin de l’Empire Américain, Canadá, 1986), do diretor franco-canadense Denys Arcand, começa de uma forma pouco usual. Um dos seus personagens dá uma entrevista a uma emissora de televisão. Ela afirma que os dias de dominação política e ideológica dos EUA estão contados, e tem uma teoria para explicar o fato: quando a idéia de que a felicidade pessoal é mais importante do que o bem estar coletivo passa a predominar entre os habitantes de uma comunidade, a falência da mesma começa a ser decretada. Os 101 minutos seguintes vão tentar provar essa afirmação com uma trama verborrágica e pretensiosa, mas também bem amarrada e inteligente.

O longa-metragem que pôs Arcand no mapa da indústria cinematográfica é um ambicioso estudo de geração. O que foi feito daquela turma que abraçou as revoltas estudantis na França em 1968, que viveu a onda flower power (ou hippie, como queiram chamar) nos EUA com intensidade? Em 1986, esse pessoal já estava passando dos 40 anos, e Arcand tinha a sua própria teoria sobre quem essas pessoas haviam se tornado. Esse é o seu grupo de personagens: quatro homens e quatro mulheres diretamente saídos dessa geração. Todos são professores (alguns universitários), têm ideologias de esquerda e desenvolveram uma visão de mundo cínica e iconoclasta.

O filme é muito simples e tem um formato meio problemático, porque é 100% constituído de diálogos, o que o torna cansativo e dá a impressão de ser mais longo do que realmente é. Os oito personagens são divididos em dois grupos. Os homens preparam um jantar numa casa de campo, à espera das mulheres, que fazem ginástica na cidade antes de se dirigirem à área rural. Ambos os grupos conversam. Sexo, traições e relacionamentos de um modo geral são os temas das conversas dos dois grupos. Eles se encontram a partir da metade do filme.

Arcand conduz o filme com perícia, abordando uma grande quantidade de temas de maneira fascinante e inteligente. A desilusão com os rumos das sociedades, por exemplo, é claramente expressa no modo iconoclasta como todos se comportam (o filme é repleto de citações a filósofos como Sartre, Wittgenstein e Susan Sontag, quase sempre de maneira sarcástica). Por outro lado, Arcand não poupa os próprios personagens, pois mostra que, ao mesmo tempo em que têm uma visão lúcida dos rumos tomados pela geração a que pertencem, se comportam exatamente da maneira que criticam. Afinal, ali estão oito pessoas que só têm olhos para as próprias felicidades individuais.

O diretor franco-canadense teve a felicidade de abordar, às vezes de forma periférica, muitos problemas que caracterizaram os anos 1980. Um dos personagens masculinos, por exemplo, é um gay que sofre porque só pode se abrir com os amigos mais íntimos, e mesmo assim não conta a ninguém sobre as suspeitas de estar sofrendo de Aids. Detalhes como esse, contudo, ao mesmo tempo em que enriquecem a trama e dão contornos humanos aos personagens fictícios, também impõem uma barreira à platéia. É pouco provável que qualquer pessoa com menos de 30 anos, de qualquer geração, compreenda os dramas daquelas pessoas – o cinismo que esconde os fracassos pessoais, as mentiras desnecessárias, o modo quase desesperado como se entregam a aventuras sexuais.

Todas são características específicas de uma geração, mas que certamente têm ressonância nas vidas da maior parte das pessoas, em algum momento de suas vidas. Só que o espectador também necessita desta bagagem – ou seja, precisa ter vivido experiências semelhantes – para poder se identificar com as situações da trama. Isso faz de “O Declínio do Império Americano” um filme com um público de perfil bem específico: pessoas acima dos 30 anos, que freqüentem círculos universitários de esquerda. Para essa turma, trata-se de um filme poderoso, com potencial para despertar reflexões interessantes.

Todos sabem que, quase 20 anos depois, Arcand retornou aos personagens no longa-metragem “As Invasões Bárbaras”. No filme de 2003, ele fez a mesma coisa que havia feito em 1986, apresentando os personagens de determinada geração reagindo às coisas em volta. No novo filme, o cineasta – certamente mais experiente – acrescentou dois elementos que ampliam o leque da audiência do filme: a morte e o melodrama. Isso faz de “As Invasões Bárbaras” um filme melhor. As duas obras, contudo, têm uma coerência admirável, e cada uma ganha muito quando vista ao lado da outra.

A Europa Filmes lançou o filme em DVD no Brasil com mais cuidado do que o fez com a premiada (e mais famosa) continuação. O lançamento preserva, por exemplo, o enquadramento correto, com uma janela widescreen 16:9, e tem áudio Dolby Digital 2.0 (suficiente para um filme que sobrevive apenas de diálogos). Não existem extras.

– O Declínio do Império Americano (Le Déclin de l’Empire Américain, Canadá, 1986).
Direção? Denys Arcand
Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi
Duração: 101 minutos

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