Deixa Ela Entrar

02/12/2009 | Categoria: Críticas

Longa sueco consegue ser, ao mesmo tempo, um belo drama sobre solidão, amadurecimento e sincronicidade, e um brilhante filme de horror

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Uma das maneiras mais interessantes de subverter um gênero fílmico clássico, dizem os pesquisadores da área, é combinando-o com outro gênero igualmente clássico. Esse procedimento traz, contudo, um risco: se a mistura não for bem feita, pode-se decepcionar tanto admiradores de um gênero quanto do outro. O filme sueco “Deixa Ela Entrar” (Låt den Rätte Komma In, Suécia, 2008) consiste num exemplo de solução feliz desse impasse. Combinando sensibilidade e violência num pacote narrativo firme e seguro, o longa-metragem consegue ser, ao mesmo tempo, um belo drama de personagens sobre solidão, amadurecimento e sincronicidade, e um brilhante filme de horror.

Realizado pelo diretor Tomas Alfredson com base num romance escrito por John Ajvide Lindqvist, que foi responsável também pelo roteiro, “Deixa Ela Entrar” se inscreve diretamente na linhagem de filmes que abordam a transição da infância para a adolescência com delicadeza e economia narrativa. Ao mesmo tempo, respeita integralmente a mitologia ocidental sobre vampiros (não podem ter contato com a luz do sol, só devem adentrar um recinto se convidados pelo dono, pessoas mordidas por eles e não mortas viram outros vampiros, etc.), embora evite percorrer o caminho fácil dos sustos impactantes em prol de uma narrativa que valoriza a riqueza interior de seus personagens, e não apenas os dois protagonistas-mirins.

Eles são Oskar (Kåre Hedebrant) e Eli (Lina Leandersson). O primeiro é um garoto louro e magricela, de 12 anos, que parece a meio caminho de se tornar um assassino quando chegar à idade adulta. Oskar é espancado insistentemente pelos valentões da escola e seus pais divorciados não têm tempo para ele, que coleciona recortes sobre crimes violentos numa pasta cuidadosamente organizada. Quando Eli, uma menina da mesma idade que vive com o pai, se muda para o apartamento vizinho, a amizade que surge é inevitável. Afinal, ela compartilha com ele a solidão: não estuda, só sai de casa depois que escurece, tem um “cheiro engraçado”. A amizade surge naturalmente, e aos poucos os dois vão descobrir possuir algo mais em comum do que a falta de amigos.

O diretor conta a história da aproximação curiosa e hesitante entre essas duas almas solitárias de maneira inteiramente visual. Até mesmo por Oskar ser uma criança, eles não verbalizam os sentimentos. Em certo momento, com os dois deitados numa cama, Oskar pergunta a Eli se ela deseja namorar com ele. “Eu não sou menina”, é a resposta. “Tudo bem”, reflete Oskar. Um diálogo tão simples e econômico quanto refinado e rico de significados. Afinal, há muito mais em jogo, numa relação afetiva, do que questões de gênero. Especialmente quando o mundo parece ser um lugar tão duro, frio e impassível, algo ressaltado pela trilha sonora composta de esparsos acordes de piano.

Os panoramas gelados da Suécia e os cenários interiores, sempre decorados com cores frias, sinalizam a melancolia, a solidão, a desolação da vida interior de ambos. Os demais personagens são pintados com uma economia narrativa que lhes empresta um senso de mistério e empatia. O homem que acompanha Eli, por exemplo, parece muito velho para ser pai dela. Ele freqüenta o bar da comunidade, mas bebe apenas leite e não demonstra nenhum interesse em confraternizar com os vizinhos. Aos poucos, suas ações e reações revelam detalhes sobre ele. A expressão angustiada denuncia: trata-se de alguém que se encontra exausto, física e mentalmente. Está no limite. Este personagem parece ser a chave para compreender a cena final, inclusive. Será mesmo o pai de Eli?

Por sua vez, o pai de Oskar aparece numa única seqüência. É um homem gentil, carinhoso com o filho. Tomas Alfredson não precisa de mais do que essa única cena – praticamente sem diálogos – para mostrar que, mesmo assim, esse adulto dócil tem problemas pessoais que o mantêm emocionalmente distante do filho. O mesmo ocorre com a mãe do menino, que aparece em apenas duas cenas. Sua ausência é significativa e diz tudo o que precisa ser dito a respeito do personagem. E o que falar da relação existente entre dois dos freqüentadores do bar da vizinhança – um casal que vive às turras – senão que o diretor os usa como diapasão que dá ressonância aos afetos dos dois meninos?

Além de usar apropriadamente o aspecto scope (2.35:1, tela retangular) para registrar as paisagens naturais com inteligência, Alfredson opta por um estilo de fotografia sutil e adequado. Ele insiste em enquadrar os personagens, sobretudo as crianças, bem de perto, com abundância de planos-detalhes e uso do foco para criar belos efeitos de profundidade. Essa proximidade da câmera deixa o espectador mais íntimo dos meninos, como um colega invisível que compartilha de seus segredos. As interpretações impecáveis dos atores-mirins, escolhidos após um ano de testes por toda a Suécia, valorizam essa técnica incomum.

Além disso, a decupagem é rigorosa e coerente, algo que fica evidente nas seqüências mais violentas. Há uma cena especialmente memorável, que se passa na piscina da escola em que Oskar estuda; preste atenção no senso de colocação de câmera e na variação do ritmo da seqüência, que termina com um plano de conjunto absolutamente fascinante. O diretor sueco também utiliza efeitos especiais digitais, mas com discrição e elegância, de modo que essas tomadas estão sempre integradas à ação dramática e parecem naturais, sem chamar a atenção para si.

Por fim, há que se ressaltar a habilidade do roteirista John Ajvide Lindqvist no trabalho de adaptação. Além de eliminar uma série de subtramas e valorizar a economia de diálogos (algo incomum quando um escritor adapta seu próprio livro), ele soube incluir pequenos detalhes saborosos que dão vida interior aos personagens e contribuem para a narrativa. É o caso dos momentos em que Oskar aprende Código Morse e ensina a linguagem para Eli, de forma que ambos possam “conversar” silenciosamente batendo levemente na parede que divide os quartos de ambos. Essas cenas ressoam lindamente no final algo especial, que sela os destinos dos dois meninos. Em resumo, um filme raro.

– Deixa Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In, Suécia, 2008)
Direção: Tomas Alfredson
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl
Duração: 115 minutos

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