Deixe-me Entrar

17/05/2011 | Categoria: Críticas

Diretor de “Cloverfield” comanda refilmagem quase plano-a-plano de longa de horror sueco, mas pequenas alterações ainda diluem a força do original

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O pequeno filme sueco “Deixa Ela Entrar” (2008) despontou com rara unanimidade na segunda metade da década de 2000. Misto de filme de horror com parábola melancólica sobre a chegada da adolescência, o longa-metragem de Tomas Alfredson aglomera grande quantidade de virtudes, raras de serem vistas num só filme: excelente roteiro – com subtexto nada óbvio e cheio de sutilezas –, atuações estupendas, fotografia deslumbrante, efeitos especiais discretos. Alinha-se sem sombra de dúvida entre os melhores lançamentos da década, e poderia ter sido facilmente um dos grandes sucessos do período, não fosse um pequeno e significativo detalhe: diálogos em sueco. Esse fato determinou a realização de um remake obviamente desnecessário, que ganhou o nome de “Deixe-me Entrar” (Let me In, EUA, 2010).

Nesse ponto, cabe um parêntese para explicar que refilmagens de produções não faladas em inglês e que fizeram sucesso internacional de crítica e público se tornaram uma rotina no cinema norte-americano, sobretudo a partir dos anos 1980. A razão principal se deve a um fator cultural: cidadãos nascidos no país que mais consome cinema não têm o hábito de ver filmes com legendas. Sete em cada dez norte-americanos evitam freqüentar salas de projeção que exibam filmes falados em outra língua. Assim, para capitalizar em cima de títulos com sucesso comprovado, os produtores dos EUA costumam comprar os direitos de tais filmes e refazê-los na língua inglesa. Foi isso que aconteceu aqui.

O diretor chamado para o trabalho, Matt Reeves (“Cloverfield”), pelo menos teve bom senso. Sabia que estava diante de uma pequena jóia cinematográfica, e tratou de respeitar o material original. Embora tenha estudado o romance que deu origem ao título sueco e assinado o roteiro da refilmagem, Reeves compreendeu e aceitou que o trabalho de adaptação original da literatura para o cinema (realizado pelo próprio autor do livro, John Ajvinde Lindqvist) estava muito bom. Tratou, então, não ceder às tentações de enfiar algo “autoral” no enredo, o que poderia estragar o original. Ele limitou-se a repisar as pegadas deixadas por Tomas Alfredson, mudando muito pouco da ambientação, da direção de arte e dos diálogos. As principais alterações consistem em uma pequena mexida na cronologia linear da trama original; na substituição de uma locação (uma cena que ocorria num banheiro agora tem vez dentro de um carro); e na retirada de fragmentos do subtexto que tinham cunho sexual, além de em alterações na decupagem original, com a escolha de posições de câmera mais próximas dos rostos dos atores, um tique estilístico comum em Hollywood.

Ainda que mínimas, essas mudanças são significativas o bastante para diluir a força de “Deixa Ela Entrar”. O embaralhamento cronológico é desnecessário (talvez a única intervenção “autoral” do novo diretor), enquanto a nova cena dentro do carro funciona bem dentro da lógica do cinema americano, que privilegia a ação física à emocional. As alterações na decupagem, embora possam passar despercebidas aos menos atentos, funcionam contra a história, que perde um pouco do seu caráter desolador e melancólico. Podemos percebê-las claramente no clímax do filme, situado dentro de uma piscina – uma cena sangrenta, bela e impressionante no original, e apenas ordinária na refilmagem. E a retirada do subtexto sexual implica na perda de parte da força do personagem da menina, magnificamente ambígua na obra sueca.

Isso posto, o trabalho de Matt Reeves na direção de atores é digno de nota. Os dois atores adolescentes, já com alguma experiência e muito elogiados pela crítica americana por trabalhos anteriores (ele foi companheiro de Viggo Mortensen no excelente “A Estrada”; ela esteve ao lado de Nicolas Cage em “Kick-Ass”), oferecem desempenhos fortes, enquanto o veterano Richard Jenkins brilha no papel taciturno do guardião da estranha garota que se muda em pleno inverno glacial para bagunçar o coreto de Owen (Smit-McPhee), o magrinho vítima de abuso na escola. De fato, talvez Matt Reeves tenha feito aquilo que todo diretor de refilmagens desnecessárias deveria realizar: não atrapalhar, ou tentar preservar algo da magia da obra original, deixando o público desfrutar o máximo possível daquilo que já era bom.

– Deixe-me Entrar (Let me In, EUA, 2010)
Direção: Matt Reeves
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono
Duração: 116 minutos

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