Déjà Vu

06/06/2007 | Categoria: Críticas

Thriller de mistério com Denzel Washington começa bem, mas desaba a meio caminho do final

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Lidar de forma clara e coerente com os paradoxos da viagem no tempo não é algo simples de realizar em um thriller de ação. No entanto, há uma regra em Hollywood que é inviolável: a credibilidade de um bom filme depende diretamente da capacidade de convencer a platéia sobre as possibilidades concretas de que os eventos mostrados na tela aconteçam na vida real. Este princípio se chama, no cinema, de suspensão da descrença. Em outras palavras, um roteiro só é bom quando consegue convencer o espectador que os fatos relatados nele poderiam mesmo ocorrer, mesmo quando são claramente impossíveis. O thriller “Déjà Vu” (EUA, 2006) consegue isto durante parte do tempo, mas vai abandonando qualquer tipo de lógica ao longo do caminho e falha feio no final.

Terceiro título a unir o diretor Tony Scott e o ator Denzel Washington (“Maré Vermelha” e “Chamas da Vingança” foram os outros), a produção carrega a assinatura do megaprodutor Jerry Bruckheimer, e todo mundo sabe o que isto quer dizer: intermináveis seqüências de ação frenética, tiroteios ensurdecedores, carros explodindo e um protagonista que, mesmo sendo homem de carne e osso, possui qualidades dignas de um certo sujeito nascido em Krypton. Tudo isto aparece em “Déjà Vu”, como era de se esperar, só que em doses um pouco menores do que o habitual – e isto é um elogio. A boa notícia é que o primeiro dos três atos, antes de os elementos de ficção científica serem adicionados, funciona. A má notícia é que após os primeiros 30 minutos o filme desaba.

A ação começa com uma tragédia, causada pela explosão de navios e de uma ponte no rio Mississipi, que corta Nova Orleans. A explosão, aparentemente acidental, causa a morte de mais de 500 pessoas. Um dos primeiros policiais a chegar ao local é o agente estadual Doug Carlin (Washington). Esperto e cheio de iniciativa, ele não demora a perceber indícios de explosivo, que indicam um possível ato terrorista. As deduções de Carlin impressionam o homem do FBI encarregado de dirigir as investigações (Val Kilmer), e ele é integrado à equipe, após convencê-la de que a chave para descobrir o culpado está na morte de uma garota (Paula Patton) minutos antes da explosão. Logo, Carlin descobre que a força de elite possui acesso a uma tecnologia inovadora que permite ver, através de um supercomputador, qualquer acontecimento ocorrido quatro dias antes.

“Déjà Vu” começa bem, pintando o cenário misterioso e promissor de um thriller convencional, mas eficiente. Bem ao estilo da série “C.S.I.” (que o produtor Bruckheimer dirige na TV), o detetive coleta indícios que pintam um quebra-cabeça incompleto, com direito até a uma exumação de cadáver bem na linha do famoso programa de televisão. A impressão é que assistiremos à investigação detalhada do incidente, até a descoberta dos culpados. No entanto, quando o FBI entra em cena, o thriller toma um rumo diferente, introduzido por uma longa cena explicativa (um diálogo quase interminável entre diversos personagens, feito para tentar explicar para o público como se dá a viagem no tempo). É a partir desta cena que o filme começa a perder o rumo.

Curiosamente, os fãs do estilo exagerado do diretor Tony Scott – ação incessante, edição rápida intercalando cortes rápidos e tomadas em câmera lenta – correm o risco de ficar meio decepcionado, porque a quantidade de seqüências frenéticas é menor do que o habitual. Mas o maior problema mesmo acontece porque os roteiristas Bill Marsilii e Terry Rossio não se dão ao trabalho de elaborar melhor as idéias relacionadas aos paradoxos da viagem no tempo. Essas idéias são cruciais para a resolução do mistério. No entanto, quando a correria começa, o roteiro decide ignorar por complexo as leis da Física – e olhe que estas mesmas leis são debatidas pelos personagens! – e criar cenas de ação a partir de premissas artificiais, absolutamente impossíveis.

É um erro fatal para qualquer pretensão da obra. Tome como exemplo a interessante perseguição de automóvel entre o agente Carlin e o terrorista solitário (Jim Caviezel): é uma seqüência que jamais poderia ocorrer na vida real, porque o policial está quatro dias à frente do vilão, que se encontra em outra dimensão temporal (ou seja, no passado). Como o longa-metragem explica isso? Não explica. Nem tenta. Contenta-se com uma frase de efeito cuspida pelo personagem de Denzel Washington, sugerindo que um “elemento espiritual” poderia subverter as leis da Física em determinadas situações. Obviamente, é uma explicação que só convenceria um fanático religioso. Afinal de contas, se para viajar no tempo bastasse a força de vontade, qualquer um de nós poderia fazê-lo, e sem necessitar da parafernália eletrônica utilizada pelo FBI.

No fim das contas, “Déjà Vu” soa como uma mistura mal ajambrada de “C.S.I.” com os filmes bombásticos de Michael Bay, temperada com elementos de “Minority Report”. Como thriller para platéias sedentas por ação, que não ligam para coisas como lógica interna do roteiro, é capaz de funcionar direitinho. Mas se você faz questão de explicações convincentes, e não aceita passivamente que pessoas comuns sejam capazes de feitos extraordinários (como virar cobaia de experiências científicas bizarras que envolvem morrer), vai terminar “Déjà Vu” com um gosto de decepção na boca. No geral, apesar do início promissor, trata-se apenas do lamentável desperdício de uma boa idéia.

O DVD da Buena Vista traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem quatro featurettes cobrindo aspectos dos bastidores das filmagens, tudo com legendas.

– Déjà Vu (EUA, 2006)
Direção: Tony Scott
Elenco: Denzel Washington, Jim Caviezel, Val Kilmer, Paula Patton
Duração: 128 minutos

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