Demolidor

29/09/2005 | Categoria: Críticas

Influência do primeiro filme do Homem-Aranha prejudica resultado final da aventura

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A euforia da Marvel após o sucesso do primeiro “X-Men” deu partida a uma grande quantidade de projetos de filmes oriundos de revistas em quadrinhos. Um dos primeiros a decolar foi o longa-metragem sobre o Demolidor, herói cego que desenvolve uma sensibilidade extraordinária e força física acima do normal. “Demolidor” (Daredevil, EUA, 2003) teve uma receptividade negativa nos cinemas, sendo bastante criticado em virtude da semelhança com o primeiro filme-solo do Homem-Aranha. A semelhança realmente existe, mas os acontecimentos posteriores demonstraram que boa parte das críticas tinha origem, na verdade, em modificações impostas pelos estúdios Fox.

O caso foi o seguinte: o diretor e roteirista, Mark Steven Johnson, recebeu carta branca do chefão da Marvel, Avi Arad, para desenvolver o projeto, com orçamento reduzido. Isso foi feito, e por isso o longa-metragem acabou produzido com razoável independência criativa. Só que, na hora de passar pelo crivo dos executivos da Fox, o filme empacou. O veredicto é que estava longo e violento demais. Por isso, ele sofreu cortes violentos e teve a censura amenizada. O resultado foi um tiro no pé, pois as maiores reclamações tinham diretamente a ver com isso, uma vez que o filme ficou leve e bem-humorado demais para o personagem torturado e sombrio que é o Demolidor.

Não há dúvida de que isso aconteceu por influência direta do sucesso do primeiro “Homem-Aranha”. Quem não conhece o personagem dos quadrinhos deve pensar no Demolidor como uma variação do Batman (que pertence a uma editora rival da Marvel, a DC). Como o Homem-Morcego, o personagem possui um passado traumático, é um homem solitário e leva vida dupla. Matt Murdock teve os pais assassinados e ficou cego em um acidente na infância. Um extenso treinamento desenvolveu seus outros sentidos. Quando adulto, ele virou um advogado comprometido com causas populares, enquanto à noite vestia uma fantasia de demônio para caçar criminosos.

Um dos erros cruciais de Mark Steven Johnson foi ampliar os poderes do Demolidor para o filme. Na tela, o herói consegue saltar de um prédio para outro e pular de grandes alturas para o chão, sem sofrer danos físicos, o que seria uma impossibilidade. Ele fez isso, afinal de contas, para aproximar os poderes de Matt Murdock daqueles demonstrados por Peter Parker no filme de Sam Raimi. Mas aí “Demolidor” fica inverossímil, uma vez que o Homem-Aranha ganhou poderes devido a um evento sobrenatural (no sentido de além da natureza), enquanto o Demolidor teve que malhar arduamente para conseguir seus poderes, obviamente mais limitados. O problema fica ainda mais evidente para o espectador que viu “Batman Begins”.

O enredo filme também tem furos e trechos emperrados, o que deixa o filme irregular e insatisfatório; esses defeitos, porém, praticamente desaparecem na versão do diretor, que tem 30 minutos a mais e possui enredo bem mais claro. A trama revela a origem do herói em um flashback na abertura, mas se concentra no momento presente, quando Murdock (Ben Affleck, incapaz de interpretar um homem traumatizado com a correta nuance sorumbática) luta para descobrir a identidade do Rei do Crime, enfrenta o Mercenário (Colin Farrell, numa caracterização demente e divertida) e briga/ama a ninja Elektra (Jennifer Garner).

As cenas de Murdock com Elektra são a melhor coisa do filme, apesar da péssima mudança do figurino da garota, transformado em uma roupa de couro negro com toque sadomasoquista (nos quadrinhos, ela se vestia de vermelho, em uma roupa adequada para uma ninja). Os efeitos especiais, claramente inspirados no filme do Aranha, são eficientes, mas o orçamento limitado obrigou o diretor a filmar todas as cenas de ação em ambientes escuros, abusando de enquadramentos fechados e cortes rápidos, a fim de esconder a deficiência dos dublês digitais utilizados para substituir os atores nas cenas perigosas.

Existem três edições de “Demolidor” no mercado brasileiro de DVDs, a saber:

1) A versão de locação. Trata-se de um disco simples, com a versão mais curta da película, lançada nos cinemas. Contém o filme com enquadramento original (widescreen 2.35:1) e som de primeira (Dolby Digital 5.1 e DTS), acompanhado de comentário em áudio com o diretor e o produtor Gary Foster.

2) A edição de colecionador. São dois discos, sendo que o primeiro é idêntico ao DVD de locação. O segundo disco é dedicado aos extras, e não decepciona: tem dois documentários longos, teste de cena com Jennifer Garner, duas cenas em multiângulo, três featurettes (um making of resumido, outro sobre o Rei do Crime e um terceiro com um cego que foi consultor do filme), três clipes musicais e um segmento que compara os quadrinhos à película. Todo o material soma três horas de extras, sem contar o comentário em áudio.

3) A versão do diretor. O disco é simples, mas traz o filme (imagem em formato wide 2.35:1 e som DD 5.1) com 30 minutos a mais, incluindo uma subtrama inteirinha eliminada da versão que passou nos cinemas e cenas de luta mais violentas, mas sem uma cena de sexo. O comentário em áudio é diferente do primeiro filme, e reúne o diretor com Avi Arad, presidente da Marvel. Um featurette (15 minutos) explica as diferenças entre as duas versões do filme.

– Demolidor (Daredevil, EUA, 2003)
Direção: Mark Steven Johnson
Elenco: Ben Affleck, Jennifer Garner, Colin Farrell, Michael Clarke Duncan
Duração: 103 minutos (versão normal) e 133 minutos (versão do diretor)

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