Demônios Sobre Rodas, Os

13/09/2006 | Categoria: Críticas

Richard Rush filma história quase documental sobre os legendários motoqueiros Hell’s Angels

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O fenômeno da gangue de motoqueiros Hell’s Angels, que tomou conta da costa oeste dos EUA na virada das décadas de 1960 e 70, inspirou muitos cineastas, gerando na época uma verdadeira onda de longas-metragens de caráter quase documental. Neste aspecto, embora esteja longe de ser um filme realmente bom, “Os Demônios Sobre Rodas” (Hell’s Angels on Wheels, EUA, 1967) possui um valor cult intrínseco. Afinal de contas, foi a primeira peça de entretenimento que tentou saciar uma curiosidade da época: quem eram, afinal, esses Hell’s Angels?

“Os Demônios Sobre Rodas” providencia uma resposta. Os “anjos do inferno” eram turmas de jovens que compartilhavam o amor pelas motocicletas e viviam na estrada, em meio a farras homéricas, drogas psicodélicas e muito amor livre, conforme ensinava a cartilha flower power. Havia, também, muita agressividade entre eles, o que às vezes gerava violência. Não se pode esquecer do lendário episódio do festival de Altamont, três anos depois, quando um dos “anjos” matou um rapaz negro a facadas, em frente às câmeras, durante um show dos Rolling Stones. A cena está no documentário “Gimme Shelter”.

Não há muita história a ser contada no longa de Richard Rush. O maior objetivo do cineasta foi mostrar como viviam os Hell’s Angels. Para isto, contou com a assessoria dos próprios motoqueiros, contratados como consultores para o filme. Desta forma, o nível de autenticidade – as roupas encardidas de óleo, as motos incrementadas, as bebedeiras e brigas em bares, o ar atrevido diante das autoridades policiais – fica sempre bem próximo à realidade. Por outro lado, essa busca quase documental gera cenas freqüentemente muito longas, que mantêm a história parada e não possuem função dramática alguma.

Em linhas gerais, o filme segue a trajetória do Poeta (Jack Nicholson), um frentista de posto de gasolina que se vê, por força das circunstâncias, atraído para dentro de uma gangue de Hell’s Angels. Ele gosta de motos, mas se sente um peixe fora d’água – não lida muito bem com a idéia de amor livre, por exemplo. Furioso como um galo de briga, o Poeta atrai a atenção do líder do grupo, Buddy (Adam Roarke), e disputa com ele o amor de uma garota (Sabrina Scharf). Há tensão palpável entre os dois, e um tipo de comunicação não-verbal se estabelece; eles se respeitam mutuamente, mas estão constantemente tentando demarcar espaços individuais, como dois cães de briga que se estudam.

Infelizmente, o filme não desenvolve muito bem esta tensão, apesar das boas interpretações de Nicholson e Roarke. É importante observar, porém, que “Os Demônios Sobre Rodas” tem o mérito de ser um longa-metragem pioneiro – sem ele, o cinema não veria a revolução de “Sem Destino” (1969), o clássico hippie definitivo sobre o fenômeno dos Hell’s Angels. Além disso, é possível inserir a obra de Richard Rush dentro de uma linha evolutiva do cinema norte-americano produzido para jovens – em enredo e espírito anárquico, por exemplo, “Os Demônios Sobre Rodas” pode ser visto como descendente direto de “Juventude Transviada” (1955), embora não tenha os mesmos méritos cinematográficos.

O DVD da Aurora tem boa qualidade. A imagem está límpida e em formato correto (widescreen 1.85:1 anamórfico) e o som é OK (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Os Demônios Sobre Rodas (Hell’s Angels on Wheels, EUA, 1967)
Direção: Richard Rush
Elenco: Adam Roarke, Jack Nicholson, Sabrina Scharf, Jana Taylor
Duração: 95 minutos

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