Depois de Horas

08/01/2005 | Categoria: Críticas

Nova York ganha homenagem no estilo “Alice no País das Maravilhas”, por Martin Scorsese

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Depois de Horas” (After Hours, EUA, 1985) não é um projeto típico de Martin Scorsese, mas possui elementos consistentes com os temas preferidos do diretor. Embora tenha sido recebido pela crítica como uma espécie de filme menor, na época do lançamento nos cinemas, o longa-metragem só ganhou, em termos de respeito e credibilidade, com o tempo. A película pode ser lida como uma esquisofrênica declaração de amor a Nova York, e geralmente é assim que o público a recebe.

Para começar, “Depois de Horas” não é um drama barra-pesada, como “Taxi Driver” ou “Touro Indomável”. Pelo contrário: é uma comédia de humor negro, um desses filmes satíricos, um pesadelo urbano capturado em celulóide. Este é um gênero que o diretor ítalo-americano nunca dominou muito bem. Embora seja um grande filme, cheio de lances surpreendentes e cenas hilariantes, dá para perceber uma certa hesitação por parte da montadora Telma Schoonmaker, parceira fiel de Scorsese. A montagem geralmente tem ainda mais importância na comédia: quantos segundos deve durar uma tomada? Quando cortar uma cena? Na comédia, meio segundo a mais pode fazer toda a diferença; uma cena engraçada pode virar nervosa e, com isso, perder a graça.

Há seqüências, aqui e acolá, onde se pode perceber sutis problemas de ritmo. Em determinado momento, o herói do filme, Paul Hackett (Griffin Dunne), entra num clube noturno para procurar outro personagem. O local está realizando uma festa temática sobre moicanos. Assim, ele é levado até um grupo de jovens que, barbeadores elétricos em punho, “transformam” os penteados dos freqüentadores em cortes punk radicais. Ocorre que Pasul não quer cortar o cabelo, e fica aterrorizado com a situação. No contexto do filme, a cena poderia ser muito engraçada, mas a edição a tornou rápida demais, e isso esvazia boa parte do surreal da situação. Esses problema de edição, contudo, é mínimo, e não chega a atrapalhar a bela experiência que é assistir a “Depois de Horas”.

O filme narra uma noite na vida de Paul Hackett. Ele é um programador de computadores, um yuppie que veste ternos e gravatas da moda, e mora na parte chique de Manhattan, em Nova York. Após o trabalho, ele conhece uma garota, Marcy (Rosanna Arquette), numa lanchonete. Eles flertam, Paul apanha o telefone dela, e liga assim que chega em casa. Marcy o chama para sair. A noite promete, e o rapaz pega um táxi para ir até o SoHo, um subúrbio chique lotado de artistas plásticos e freaks de diversos tipos. No táxi, todo o dinheiro de Paul sai voando pela janela. É o primeiro de uma série de incidentes surreais, que o deixam “preso” dentro do bairro durante toda a madrugada, sem conseguir voltar para casa.

Claro: ao fazer graça sobre a multiculturalidade de Nova York, o filme a celebra. “Depois de Horas” tem um feeling de “Alice no País das Maravilhas”, e vários dos coadjuvantes com quem Paul cruza durante a madrugada são tipos impagáveis; garçonetes solitárias, artistas boêmios, vendedores, homossexuais enrustidos, garçons – é uma verdadeira fauna humana, pintada de forma colorida e bem humorada. Todo esse pessoal transforma progressivamente a vida de Paul Hackett em um inferno, para delícia do espectador. “Depois de Horas” não é aquele tipo de comédia que faz a gente rir o tempo todo, mas tem um tipo de humor fino, diálogos inteligentes e uma direção de fotografia (de Michael Ballhaus) sensacional, que realça as cores fortes mesmo quando filme se passa em exteriores mal iluminados.

Reza a lenda que o antológico final do longa-metragem foi modificado várias vezes, porque Scorsese não sabia a melhor maneira de encerrar a louca aventura de Paul Hackett. O filme termina do modo que conhecemos, segundo Schoonmaker, porque o cineasta Michael Powell andava pelas filmagens com freqüência (os dois, montadora e cineasta, estavam casados) e o sugeriu. Se foi assim, acertou na mosca: não haveria maneira mais apropriada de encerrar o filme sem transformá-lo em uma tragédia que retiraria todo o humor refinado.

O DVD de “Depois de Horas” contém alguns bônus interessantes. Há um documentários de bastidores (18 minutos), essencialmente narrado por Dunne e Amy Robinson, que produziram o longa e escolheram Scorsese para dirigi-lo; é curto, mas ágil e correto. Um comentário em áudio reúne Scorsese, Schoonmaker, Dunne, Robinson e Ballhaus. Existem 8 minutos de cenas cortadas, algumas bem interessantes. O filme em si tem corte original de imagens (widescreen anamórfico) e áudio Dolby Digital 2.0 Mono, formato atrasado mas que não compromete, por ser um filme essencialmente de diálogos.

– Depois de Horas (After Hours, EUA, 1985)
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Lisa Fiorentino
Duração: 97 minutos

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