Desafinados, Os

22/05/2009 | Categoria: Críticas

Walter Lima Jr projeta imagem afetiva e pessoal dos anos 1960 com inegável qualidade, apesar da sisudez das imagens

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

A palavra que melhor define o longa-metragem “Os Desafinados” (Brasil, 2008), de Walter Lima Jr, é “profissional”. A superprodução de R$ 7,2 milhões, que levou mais de três anos para ser finalizada (todas as cenas foram gravadas no primeiro semestre de 2005), cumpre sua inegável ambição narrativa com invejável profissionalismo, goste-se ou não do resultado final. O filme acompanha a trajetória de um quarteto de músicos que buscou o sonho do sucesso internacional, em plena explosão mundial da bossa nova, e aproveita para mostrar uma versão pessoal e afetiva do cineasta para os anos 1960. É cinema clássico, de cenas longas, fotografia e atuações impecáveis, e também generosamente musical, em que pesem algumas derrapadas no uso de clichês visuais e na sisudez das imagens.

A seqüência de abertura funciona como exemplo daquilo que o filme tem de pior. Ao som de uma tranqüila bossa nova, Walter Lima Jr organiza uma montagem chinfrim de uma série de imagens de cartões postais cariocas: Copacabana, o bondinho do Pão-de-Açúcar, surfistas no Arpoador, a baía da Guanabara, meninas de biquíni andando pela areia da praia, tudo embelezado artificialmente por aqueles filtros de imagem que enchem os cenários de brilho e cores, como se o fotógrafo tivesse lavado a película com detergente. Ainda bem que a introdução fake não compromete o que vem a seguir. Assim que a imensa galeria de bons atores entra em cena, “Os Desafinados” ganha ritmo, cor e intensidade. Não são precisos mais do que alguns minutos para o espectador se veja imerso na história, e se emocione com o variado espectro de sensações que os personagens experimentam durante as quatro décadas que a história cobre.

O roteiro, assinado por Walter Lima Jr, Suzana Macedo e Elena Soarez, organiza a narrativa em dois tempos distintos. A ação dramática é disparada, já no século XXI, pela morte da cantora Glória (Cláudia Abreu), em um acidente de carro. Consternado, o cineasta Dico (Selton Mello) decide reunir os músicos que tocavam com ela nos anos 1960, e revisitar filmagens que fez da viagem do quarteto até Nova York, onde eles encontraram a mulher pela primeira vez. A partir daí, a narrativa se alterna entre o passado e o presente, contando casos de amor e amizade. A estrutura pode não ser das mais originais, mas o trio de roteiristas a maneja com muita habilidade, abrindo espaço para que o ótimo elenco brilhe em diálogos espontâneos, travados em longas seqüências em que o trabalho de câmera valoriza as locações sofisticadas (como o Central Park).

Vale a pena enfatizar a excelência do trabalho dos atores. Afinal, uma das mais repetidas reclamações de parte da audiência sobre os filmes brasileiros sempre denunciou a artificialidade das interpretações. Se nos anos 1970-80 isso tinha um quê de verdade, já que naquela época os atores trabalhavam muito mais no teatro, a ótima e homogênea atuação do elenco comprova, mais uma vez, que este trauma faz parte do passado. Walter Lima Jr chega, inclusive, a usar não-atores em papéis importantes, como é o caso do músico Jair Oliveira, e obtém resultado positivo. Os diálogos espontâneos, em que os atores interrompem frases uns dos outros e falam da maneira mais coloquial possível, sem evitar palavrões e interjeições, contribuem muito para o bom resultado. Esta mesma característica também ajuda o público a captar o clima de camaradagem e excitação que toma conta dos jovens músicos, no primeiro ato.

Além disso, todo o trabalho técnico é de excelente qualidade. Observe, por exemplo, como o personagem Dico no presente (Arthur Kohl) fala com a voz de Selton Mello, num ótimo trabalho de dublagem e envelhecimento artificial do tom de voz. Walter Lima Jr também capricha na montagem, que não deixa o público perder o fio da meada durante os constantes vai-e-vem na cronologia. Para tanto, o cineasta usa transições criativas e elegantes. Numa delas, o Dico do passado repete um tique nervoso constante, coçando o queixo, e um corte seco nos leva até o Dico do presente, repetindo o mesmíssimo tique. Coisa simples, mas extremamente cinematográfica. É possível notar, inclusive, a influência do Sergio Leone de “Era uma Vez na América”, filme que abusava desse tipo de transição, tem estrutura narrativa idêntica, a mesma atmosfera nostálgica e até algumas tomadas da Ponte do Brooklin feitas do mesmo ângulo.

Se “Os Desafinados” tem um problema, ele está exatamente no caráter excessivamente clássico, quase sisudo mesmo, que a obra retém.Este não é um filme jovem. Longe disso. As seqüências são longas, e há muitos momentos 100% musicais, em que a ação dramática pára, a fim de que se possa curtir a música (ótima, mas antiga – é difícil encontrar alguém abaixo dos 30 anos que ainda ouça bossa nova). Pois bem: Walter Lima Jr garante que tinha o objetivo, ao conceber o projeto em 1999, de prestar um tributo ao espírito dos anos 1960 no Rio de Janeiro. Não há dúvida de que ele conseguiu alcançar esse feito. Resta saber se o público estará interessado em compartilhar desse espírito com ele.

O DVD da Swen Filmes traz o filme com razão de aspecto original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). 

– Os Desafinados (Brasil, 2008)
Direção: Walter Lima Jr
Elenco: Rodrigo Santoro, Cláudia Abreu, Selton Mello, Ângelo Paes Leme
Duração: 131 minutos

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