Desafio ao Além

02/08/2005 | Categoria: Críticas

Fotografia escura e cenários góticos criam atmosfera adequada para um filme de horror eficiente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Desafio ao Além” (The Haunting, EUA, 1963) é um clássico filme de terror B, a epítome de qualquer longa-metragem ambientado em mansões assombradas por fantasmas. É um filme que, como a maior parte dos longas-metragens do gênero, depende muito mais da atmosfera de mistério e suspense do que de uma trama lógica e coerente. Dirigida por um cineasta, Robert Wise, que sabia disso muito bem, a película permanece até hoje como a principal fonte de inspiração de artistas do cinema que desejam revisitar o tema. Apenas para ficar em um exemplo, “Os Outros”, que Alejandro Amenábar fez em 2001, deve muito a esse ótimo filme B.

Não se pode compreender corretamente “Desafio ao Além”, contudo, sem dar o devido contexto ao trabalho de Wise. Ele foi lançado apenas quatro anos após o lançamento do romance de Shirley Jackson, saudado pela crítica como o mais importante livro sobre casas mal-assombradas (um subgênero da literatura de horror, popular desde Edgar Allan Poe, no século XIX) já escrito. Apesar disso, foi feito com um orçamento apertado e atores do segundo time de Hollywood. Por isso, “Desafio ao Além” é econômico no uso de efeitos especiais, apostando tudo na escura fotografia em preto-e-branco de Davis Boulton e nos cenários góticos e elegantes de John Jarvis.

A opção pelo uso de película preto-e-branca só faz bem ao longa-metragem de Robert Wise. Boulton utilizou, em praticamente todas as seqüências, uma única fonte de luz artificial, colocada exatamente sobre os personagens em primeiro plano. Com isso, a câmera de Wise deixa os cenários mergulhados na penumbra. Esse detalhe, aliado à deliberada decisão de encher os cômodos da mansão assombrada de estátuas e gárgulas, cria uma sensação permanente de desconforto e opressão. O resultado deixa os personagens asfixiados, e dá aos espectadores a impressão de que eles estão sendo observados por algum tipo de presença invisível – o que, claro, dá ao filme toda a atmosfera de que ele necessita para gerar medo, tanto nos personagens quanto na platéia.

“Desafio ao Além” padece de um certo desleixo na narrativa. A trama em si é simples, mas seria copiada inúmeras vezes por filmes menores, como “A Casa da Noite Eterna” (1971). O antropólogo John Markway (Richard Johnson) reúne uma equipe de observadores para passar uma temporada na mansão denominada Hill House, uma casa com fama de assombrada. Ele nutre a esperança de provar cientificamente, no local, a existência de vida após a morte. A equipe, porém, é mal escolhida. Theo (Claire Bloom) é uma vidente com ares de superioridade, Luke (Russ Tamblyn) não passa de um playboy atrás de conquistas, e Eleanor (Julie Harris) é uma pessoa claramente perturbada, devido a uma existência solitária.

Eleanor é, na verdade, o personagem central, e isso a transforma ao mesmo tempo em ponto forte e fraco do trabalho. Ela chega à mansão vinda de um lar desfeito e parece desesperada. Por isso, fica mais sensível aos mistérios da casa. Robert Wise explora muito bem a fragilidade emocional de Eleanor, fazendo a platéia acompanhar toda a insegurança e o medo da solidão que cercam a vida dela, através de uma narração em off quase que permanente. O recurso, apesar de ser pouco criativo, cai bem no filme porque planta na mente do espectador a dúvida sobre a qual todo o suspense está erguido: as assombração são reais ou apenas frutos de uma mente perturbada?

Por outro lado, a evidente perturbação mental da protagonista impede que a platéia se identifique com ela, e o filme permanece frio, distante do espectador. Wise utiliza muitos ruídos caseiros (portas batendo, pancadas na parede) e uma grande quantidade de planos fixos em close no rosto das estátuas e gárgulas (aparentemente em estado de permanente sofrimento) que “habitam” Hill House. Dessa forma, entrega um filme eficiente, capaz de dar grandes sustos na platéia com o uso de recursos baratos e quase minimalistas. No DVD (Região 1), a imagem é de boa qualidade, o som é Dolby Digital 1.0 Mono, e o único extra disponível é um comentário em áudio da cinco pessoas da equipe de filmagem (Wise, os atores Harris, Bloom e Tamblyn, mais o roteirista Nelson Gidding).

– Desafio ao Além (The Haunting, EUA, 1963)
Direção: Robert Wise
Elenco: Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn
Duração: 112 minutos

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