Descendentes, Os

26/01/2012 | Categoria: Críticas

Chafurdando mais uma vez na fórmula Sundance de cinema independente, Alexander Payne decepciona com drama artificial e personagens chochos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Um dos personagens coadjuvantes de “Os Descendentes” (The Descendants, EUA, 2011) se chama Sid (Nick Krause). O filme analisa o que acontece com a vida em família de um advogado (George Clooney) depois que sua esposa sofre um acidente de barco e entra em coma. O advogado, que administra diversas propriedades da família em ilhas havaianas, é um workaholic de chinelos e bermudas floridas. Emocionalmente ausente da vida das duas filhas, Matt King se vê obrigado a reaprender como lidar com ambas, com o resto da família e, claro, consigo mesmo. Sid é um amigo da filha mais velha, uma adolescente problemática. Esse personagem resume muito do que há de errado com o filme de Alexander Payne.

Pouco depois de receber uma má notícia a respeito da recuperação da mãe, Alexandra (Shailene Woodley) manda chamar Sid para ficar com ela. O rapaz ficará com a família King até o final do longa-metragem. Essencialmente, ele encarna o clichê do ombro amigo. De maneira conveniente, Alexander Payne (que também co-escreveu o roteiro) elimina do personagem quaisquer traços de sexualidade, para deixar bem claro à platéia que Sid não está na narrativa para se tornar interesse afetivo de Alexandra. Sid tem trejeitos meio ambíguos, mas o filme não aprofunda a figura do rapaz. Ele está ali para servir de alívio cômico, e cumprir uma batida função narrativa que os roteiristas americanos adoram (porque as platéias americanas não suportam assistir a dramas familiares sem um toque de humor).

No entanto, Alexander Payne tem uma ligação umbilical com o Festival de Sundance, onde já ministrou muitas oficinas de roteiro e trabalhou com cineastas talentosos (Fernando Meirelles, por exemplo). Na cartilha de Sundance, seguida por nove entre dez cineastas que atuam às margens dos grandes estúdios, todo personagem precisa ter uma função narrativa. Fazer o público dar algumas risadas não é suficiente. Para justificar a presença na trama, Sid precisaria fazer algo narrativamente relevante. Sabendo disso, passei a esperar em que momento de “Os Descendentes” o personagem teria uma cena longa, que justificasse sua existência no filme.

Essa cena acontece logo após a primeira hora de projeção. Em meio a uma viagem para resolver problemas particulares, Matt tem uma noite de insônia. Sid, que dorme no sofá do quarto de hotel onde a família está hospedado, mantém com ele um diálogo de três ou quatro minutos, e lhe ensina uma lição de vida. Quando a cena começou, pensei comigo mesmo: “aí está”. A cena terminou (de modo incrivelmente previsível), e outro pensamento cruzou minha cabeça: Sid cumpriu sua função no filme. Ele não participará de nenhuma outra cena importante. Ficará por ali, às margens da história. Soltará uma ou outra piadinha (alívio cômico, lembram?), e será esquecido junto com o filme quando este terminar. Eu estava certo.

“Os Descendentes” pertence ao famigerado filão do cinema pseudo-independente que atrai a parcela, digamos, mais liberal do público norte-americano. Gente culta, bem informada, que gosta de ir ao cinema, mas tem o olhar míope a praticamente tudo que seja minimamente ousado e fora do esquadro. Quando François Truffaut cunhou a expressão “cinema de papai” (em 1954, vale lembrar), para definir a geração de roteiristas/diretores franceses que se preocupava em contar histórias essencialmente literárias, estava se referindo a esse tipo de filme que não ousa, não vibra, não oferece experiências viscerais.

O filme de Alexander Payne é assim. Bonitinho na aparência, tem um roteiro que funciona como um relógio suíço, em que cada peça possui um motivo para estar ali (um motivo bem previsível, diga-se de passagem), dá aquilo que dela se espera no momento certo, e depois sai de cena. É assim, como Sid, o personagem de Beau Bridges – o primo farrista de Matt, que deseja vender uma das maiores áreas verdes do arquipélago à especulação imobiliária. O primo bon vivant poderia ser um bom personagem, mas só aparece em duas cenas. Não sabemos nada sobre ele. Aliás, não é preciso ser um grande especialista em cinema independente para saber exatamente o que vai acontecer com cada um dos bonecos assépticos que são os personagens de “Os Descendentes”. O filme termina exatamente como se imagina que vai terminar. Quem tem uma lição a aprender, vai aprender. Ponto. Os personagens não possuem vida fora da tela, ou qualquer tridimensionalidade palpável.

Em se tratando de Alexander Payne, isso é decepcionante. Payne é diretor e (principalmente) roteirista talentoso. “Eleição” (1999) e “As Confissões de Schmidt” (2002), seus melhores trabalhos, são perfeitas crônicas de cidadãos medíocres que viveram o avesso do sonho americano, talvez sem perceber. “Sideways” (2004), seu trabalho anterior, consegue equilibrar amor e dor de forma mais cinemática, ainda que, em avaliação retrospectiva, já fosse possível identificar nesse trabalho a queda por fórmulas narrativas que acaba com estragar “Os Descendentes”. Para piorar, Payne se entrega aqui ao pior do cinema de índole literária, enchendo boa parte do primeiro ato com uma narração em off que explica tudo, tintim por tintim, sobre os conflitos do personagem principal, perdendo boas chances de criar cenas que expressem as dúvidas e desejos de Matt de forma visual. Em uma palavra: ruim.

– Os Descendentes (The Descendants, EUA, 2011)
Direção: Alexander Payne
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Judy Greer, Beau Bridges
Duração: 115 minutos

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