Desconhecida, A

22/02/2008 | Categoria: Críticas

Excessos melodramáticos não chegam a comprometer a boa narrativa de suspense do filme de Giuseppe Tornatore

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um fracasso nunca faz bem à carreira de um diretor. Se até nos Estados Unidos o mau desempenho de um filme nas bilheterias pode causar estragos na reputação de qualquer cineasta, fora a situação é muito pior. O caso do italiano Giuseppe Tornatore é um ótimo exemplo. Incensado no mundo inteiro após o sucesso de “Cinema Paradiso” (1988), ele quase teve que encerrar prematuramente a carreira após a péssima recepção de crítica e público do drama “Malena” (2000). Levou sete anos para conseguir tocar um novo projeto. Por sorte, o melodrama de suspense “A Desconhecida” (La Sconosciuta, Itália, 2006) teve melhor destino. Foi o filme de Tornatore que obteve a melhor recepção de público desde o já citado mega-sucesso, ganhador do Oscar de filme estrangeiro.

Não se trata de um grande filme, apesar de ter qualidades. “A Desconhecida” apresenta marcas indeléveis do trabalho anterior do diretor italiano, equilibrando o gosto por um estilo exagerado de melodrama, que se aproxima perigosamente do kitsch, com uma montagem que mantém o espectador no escuro durante a maior parte da projeção. O resultado final parece um híbrido de “Cinema Paradiso” com o thriller “Uma Simples Formalidade” (1994). Tem uma história bem contada, que só não funciona com maior eficiência por causa dos excessos de estilo que fazem parte do DNA de Tornatore, e que podem ser reconhecidos principalmente na trilha sonora (do mestre Ennio Morricone) e na direção de arte.

Um dos grandes destaques do filme é o trabalho da atriz principal, a russa Kseniya Pappoport. Desconhecida no ocidente, a moça é veterana do teatro russo, apesar da pouca idade. O trabalho é valorizado ainda mais porque ela é sol da história, estando presente em virtualmente todas as cenas. Irenia é uma imigrante ucraniana que esconde um segredo. Ela chega à Itália com um objetivo bem definido: se aproximar de uma família de classe média alta, formada por um casal jovem e uma menina de cinco anos. Para conseguir tal intento, aluga um apartamento próximo à residência da família, arruma um emprego no mesmo prédio (inclusive topando reservar uma parcela do baixo salário para subornar o zelador) e até provoca intencionalmente um acidente sangrento.

O motivo para Irenia fazer isso é um segredo que Giuseppe Tornatore esconde até o terceiro ato da projeção. O diretor vai liberando informações a conta-gotas, principalmente através de misteriosos flashbacks que mostram o passado pouco recomendável da ucraniana. Desta forma, estimulando discretamente o lado voyeur que existe em cada um de nós, o cineasta direciona o interesse da platéia em descobrir a natureza do segredo. Criando seqüências bem coreografadas – em determinada cena, a ucraniana chega a invadir o apartamento da família, em busca de algo que não temos idéia do que pode ser – e espalhando algumas pistas falsas, Tornatore consegue manter o suspense até o final do filme, e isto se mostra positivo.

Por outro lado, o lado melodramático dele se manifesta na estética da produção. Os flashbacks, em particular, soam terrivelmente errados, pois são filmados com uma iluminação dourada, artificial, de dramalhão mexicano, que jamais encontra reflexo no lado emocional da personagem (a estratégia é óbvia: provocar um contraste entre o presente sombrio e o passado iluminado). A música de Ennio Morricone, apesar de linda, invade todos os espaços do longa-metragem, chegando a prejudicar o suspense das cenas mais tensas. Ainda assim, nunca é demais elogiar a imensa capacidade que o maestro tem de compor melodias inesquecíveis, como a da canção de ninar que se torna tema importante no segundo ato do filme.

A direção de arte, por fim, também sofre do mal do exagero. Preste atenção na casa de Irenia, cuja arrumação caótica é meticulosamente construída desta forma para contrastar com a arrumação impecável que a mesma mulher dedica ao apartamento onde trabalha – acontece que nenhum ser humano moraria no meio de tamanha bagunça, especialmente alguém que demonstra ser extremamente disciplinada quando necessário. Apesar dos exageros melodramáticos, “A Desconhecida” alcança um resultado positivo, sobretudo, pela excelência da atriz principal e pela qualidade de sua história sinuosa, que sofre uma ou duas reviravoltas em instantes quase impossíveis de prever. Vale a pena dar uma conferida atenta.

O DVD nacional é um lançamento da Paris filmes.

– A Desconhecida (La Sconosciuta, Itália, 2006)
Direção: Giuseppe Tornatore
Elenco: Kseniya Pappoport, Michele Placido, Claudia Gerini, Margherita Buy
Duração: 118 minutos

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