Desejo e Reparação

28/05/2008 | Categoria: Críticas

Apesar dos deslizes no segundo ato, filme de Joe Wright surpreende pelo arrojo da narrativa e pela bela cinematografia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Seria fácil, para qualquer crítico, reduzir “Desejo e Reparação” (Atonement, Reino Unido/França, 2007) a um daqueles dramas de época lindos e ocos, feitos sob medida para faturar prêmios como o Oscar. Fazer algo assim, porém, seria falso e injusto. O longa-metragem assinado por Joe Wright, adaptação cinematográfica de romance do prestigiado dramaturgo inglês Ian McEwan, até guarda algumas características do gênero, como a pompa solene em figurinos e diálogos, e um segundo ato bastante irregular. Só que também transborda elegância nos aspectos técnicos (fotografia, direção de arte, música) e tem a coragem de dar uma guinada surpreendente e original, no terceiro ato, para levantar uma discussão interessante sobre um tema delicado: será que a arte tem o poder de corrigir os percalços da vida?

Feito com orçamento generoso para os padrões da Inglaterra (US$ 30 milhões), por um diretor jovem – 35 anos durante as filmagens – e com olho apurado para o visual, “Desejo e Reparação” teve certa dificuldade para vencer a resistência inicial da crítica norte-americana, que esperava algo como uma continuação informal de “Orgulho e Preconceito” (2005). Era fácil pensar assim, pois os dois filmes reúnem Joe Wright à atriz Keira Knightley em dramas de época que abordam amores impossíveis. Ocorre que esta adaptação do livro de McEwan, assinada pelo roteirista Christopher Hampton (Oscar por “Ligações Perigosas”, de 1988), vai além tanto em escala quanto em ambição artística. É um filme cujo visual esplêndido jamais parece gratuito, e surpreende o espectador com não apenas uma, mas duas reviravoltas repletas de ressonâncias emocionais inusitadas.

Para começo de conversa, “Desejo e Reparação” é um brinco cinematográfico. A estética, por si só, já seria suficiente para valer uma conferida atenta. Mas a beleza cinematográfica da direção de arte, dos figurinos, da fotografia e da música não é gratuita. Serve à narrativa, como acontece nos melhores filmes. Tome como exemplo o fantástico plano-seqüência de cinco minutos que divide o filme em dois. A tomada sem cortes mostra Robbie (James McAvoy, excelente), um dos personagens principais, cruzando a praia francesa onde as forças britânicas acabam de desembarcar, num momento crítico da Segunda Guerra Mundial (1940). Ele é um soldado que não deseja estar ali. Enquanto cobre uma distância de uns 300 metros, Robbie passa por um coral de militares que entoa uma canção de esperança.

De repente, a leve melodia que compõe a trilha sonora e acompanha a trajetória do personagem, ao fundo, se eleva e une ao coro dos soldados. As músicas se fundem por alguns instantes, até que Robbie siga o seu caminho. A edição de som complementa o prodígio do trabalho de câmera. Espectadores desatentos podem achar que o plano-seqüência é gratuito, um malabarismo inútil feito para ganhar prêmios. Mas se a cena fosse decupada da forma tradicional, com cortes a cada cinco ou seis segundos, a platéia seria privada de compreender a extensão da paixão que Robbie nutre por Cee (Knighley, boa). Sim, porque o jovem soldado encara no passeio horrores inomináveis – mortos, feridos, bêbados de prazer e medo, destruição por todo lado – sem prestar a mínima atenção. Os horrores da guerra não se comparam ao tumulto interior, ao caos que está dentro dele. A impossibilidade da paixão dói muito mais em Robbie do que a guerra. O plano-seqüência exprime visualmente este conceito.

Antes, através de um Tarantinesco primeiro ato, o diretor já havia demarcado uma distância segura do drama romântico de época tradicional, ao mostrar uma série de eventos banais (um mergulho numa fonte, a entrega de uma carta) de duas perspectivas diferentes. É o mesmo truque produzido por Tarantino em “Jackie Brown” (1997), aqui executado com presteza. A idéia é simples: mostrar como uma mesma situação dramática, ou uma série delas, pode produzir significados diferentes, até mesmo opostos, dependendo da perspectiva que se veja. O truque completo, porém, só se completará no terceiro ato, quando finalmente a platéia saberá todas as nuances emocionais quer estavam em jogo no triângulo amoroso entre Robbie, Cee e Briony (Saoirse Ronan na adolescência e Romola Garai na fase adulta, ambas eficientes).

A fotografia de Seamus McGarvey é excepcional, e não apenas por causa do já citado plano-seqüência. Observe como o fotógrafo manipula com firmeza e sabedoria as múltiplas fontes de luz natural nas tomadas interiores, usando inclusive a luz de vela (sempre complicada de fotografar) para conseguir um efeito que é ao mesmo tempo romântico e misterioso. Há uma cena noturna, externa, também fotografada de maneira magistral. Claro que ele tem a ajuda de uma direção de arte suntuosa, e de belos figurinos – o vestido verde utilizado por Keira Knightley na cena-chave não apenas renega um chavão do uso de cores em cinema (o vermelho como a cor da sedução), mas também realça o turbilhão de emoções da personagem, ao colocá-la claramente num patamar emocional diferente de todos os demais que fazem parte da cena.

A trilha sonora de Dario Marianelli também tem muito pontos positivos, pois utiliza de forma criativa ruídos naturais para dar um toque original à percussão. O uso constante do som de teclas de uma máquina de escrever, dando ritmo à melodia, também serve à narrativa – é uma pista da surpreendente guinada radical que a história dá no terceiro ato, que finalmente esclarece o grande tema do filme: a culpa, e a tentativa de usar o poder da arte para, de alguma forma, tentar reparar erros cometidos no passado. Joe Wright cria uma tensão ambivalente entre ficção e realidade para abordar este tema, que já havia sido magnificamente explorado pela linda imagem silenciosa do soldado amargurado no cinema, tornando insignificante pela gigantesca imagem do beijo apaixonado de uma projeção do filme “Cais das Sombras”, de Marcel Carné (1938).

É provável que os espectadores mais tradicionais se decepcionem com o final metalingüístico de “Desejo e Reparação”, mas é exatamente este final, original e surpreendente, que faz o filme crescer silenciosamente na cabeça de quem o viu. Até porque o segundo ato, que deixa de lado o terceiro vértice do triângulo amoroso para se concentrar na paixão frustrada de Robbie e Cee, havia antes diluído o tema principal, adicionando um punhado de melodrama banal na receita e se afastando do estudo sobre a culpa que é o romance de Ian McEwan. Tivesse conseguido impor mais distância ao clichê do romance impossível em tempo de guerra (história que Hollywood adora desde “Casablanca”), Joe Wright teria feito um filme perfeito.

O DVD simples, da Universal, traz o filme com boa qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, comentário em áudio do diretor (legendado), documentário de bastidores (27 minutos), featurette mostrando autor do livro, roteirista e diretor comentando a trama (5 minutos) e sete cenas cortadas (8 minutos, no total).

– Desejo e Reparação (Atonement, Reino Unido/França, 2007)
Direção: Joe Wright
Elenco: Keira Knighley, James McAvoy, Romola Garai, Saoirse Ronan
Duração: 130 minutos

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