Deserto dos Tártaros, O

05/03/2009 | Categoria: Críticas

Último filme de Valerio Zurlini transforma metáfora engenhosa sobre a espera em conjunto de imagens evocativas e espetaculares

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Engenhosa, etérea e evocativa, a metáfora que está por trás do enredo é a grande estrela de “O Deserto dos Tártaros” (Il Deserto dei Tartari, Itália/Irã/França/Alemanha, 1976). Construída com esmero em um romance famoso, pelo escritor Dino Buzzati, esta metáfora se tornou famosa nos meios literários por seu caráter ambíguo e aberto, permitindo que cada leitor encaixasse sua própria experiência pessoal na história do soldado que espera a chegada de uma ameaça invisível. Brilhante, a metáfora fez a fama do romance e atraiu a atenção do cineasta italiano Valerio Zurlini, um especialista em traduzir estados de espíritos melancólicos e amargurados através de paisagens e composições cinematográficas de tirar o fôlego.

Proscrito na Itália, por causa do gênio difícil e pelo gosto por um cinema clássico, de índole poética, que não dava (e nem dá) bilheteria, Zurlini trabalhou duro por cinco anos para viabilizar a produção. Durante as filmagens, o diretor enfrentou problemas de saúde dos quais jamais se iria livrar, de forma que “O Deserto dos Tártaros” acabou por se transformar em seu canto do cisne. Curiosamente, o último filme de Zurlini não poderia ter temática mais adequada para um artesão do cinema, um homem que jamais cedeu ao apelo fácil do filme comercial, e que esperou durante toda a carreira por uma prestígio autoral que nunca se concretizou.

Zurlini era famoso por escolher locações para os filmes que dirigia com muita propriedade, mas quis o destino que ele ultrapassasse todas as espectativas em “O Deserto dos Tártaros”. Ele precisava encontrar algum tipo de fortificação medieval abandonada no deserto para recriar, na telona, o Forte Bastiani – construção militar situada no limite oriental do império austro-húngaro, onde se passa a maior parte da ação, no ano de 1907. Pesquisando, ele encontrou a cidadela de Arg-é Bam, no Irã, uma intrincada rede de habitações de argila de 180 mil metros quadrados, construída 500 anos antes de Cristo e abandonada em 1850, após um terremoto. O lugar se revelaria perfeito para a intenção de evocar nos espectadores, através de impressionantes tomadas panorâmicas do deserto, a tensão pela espera por um inimigo invisível. A fotografia extraordinária está no mesmo nível de “Lawrence da Arábia”.

O protagonista da história é o jovem tenente Drogo (Jacques Perrin). Militar recém-formado, ele é enviado para Forte Bastiani por engano. Chega excitado por estar na primeira linha de defesa contra as tribos tártaras que, em 1907, ameaçavam invadir o império austro-húngaro. A primeira impressão, contudo, logo de desvanece, já que Drogo é avisado pelos demais oficiais que do forte, isolado de qualquer contato com a civilização, não se vê absolutamente nada além das areias douradas do deserto. Com exceção do capitão Hortiz (Max Von Sydow), ninguém ali jamais viu um tártaro ou beduíno. Anos depois do ocorrido, o próprio Hortiz não sabe mais dizer se a visão de um árabe montando um cavalo branco, por um breve instante, realmente aconteceu, ou se foi apenas uma miragem provocada pela ansiedade da espera.

Impaciente, Drogo decide retornar à capital da Itália, onde deixou a família e uma namorada. Porém, em atitude similar à dos burgueses de “O Anjo Exterminador”, de Buñuel, ele não consegue pedir dispensa, e vai ficando. Passam-se semanas, meses, anos. O estado de eterna espera é quebrado, aqui e acolá, por acontecimentos fortuitos, mas o inimigo nunca mostra a cara. Pacientemente, explorando o isolamento da magnífica locação e construindo tomadas panorâmicas de beleza estética incomparável, Zurlini transpõe para o campo das imagens, de maneira espetacular, a metáfora contida nas palavras de Dino Buzzati. Para isso, e com a ajuda da linda trilha sonora baseada em piano do mestre Ennio Morricone, o cineasta ergueu um filme lento e silencioso, que ousa pôr o espectador no mesmo estado de espera do protagonista. É o grande mérito do filme: compartilhamos com Drago o mesmo drama – um drama íntimo, interior, jamais explicitado através de diálogos.

Como Drago, esperamos que algo aconteça, para quebrar a monotonia e o estado de espera permanente. A esperança, como a chama de uma vela, está sempre lá, só que cada vez menor. O tempo passa, como a areia do deserto, e os poucos fatos que rompem a rotina da fortificação militar se revelam sempre pouco sólidos, como um castelo de areia que se desvanece. Obviamente, um filme como “O Deserto dos Tártaros”– quase duas horas e meia de projeção, poucos diálogos que nunca abordam diretamente o tema central, nenhuma cena de ação – costuma ser rejeitado pela maioria dos espectadores. Quem conseguir entrar no estado de espírito adequado, porém, vai se deparar com uma obra singular, única, que propõe uma reflexão profunda sobre a condição humana através de composições visuais extraordinárias. E o elenco numeroso, que inclui Vittorio Gassman (“Aquele que Sabe Viver”), Giuliano Gemma (astro de faroestes espaguete) e Jean-Louis Trintignant (“A Fraternidade é Vermelha”), está esplêndido.

O DVD foi lançado no Brasil pela Versátil em março de 2009. A edição vem acrescida de muitos extras, repetindo o disco lançado nos EUA: imagem restaurada (widescreen 1.78:1 anamórfica), áudio correto (Dolby Digital 2.0) e um pacote de extras que inclui duas entrevistas com o ator Giuliano Gemma (três e seis minutos) e outra, mais longa (30 minutos), com o diretor de fotografia Luciano Tovoli.

– O Deserto dos Tártaros (Il Deserto dei Tartari, Itália/Irã/França/Alemanha, 1976)
Direção: Valerio Zurlini
Elenco: Jacques Perrin, Max Von Sydow, Giuliano Gemma, Vittorio Gassman
Duração: 141 minutos

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