Deserto Feliz

01/12/2008 | Categoria: Críticas

Filme pernambucano de personagens, cujas imagens tristes e vigorosas têm o ritmo lacônico e à deriva de sua protagonista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Terceiro longa-metragem assinado pelo pernambucano Paulo Caldas (primeiro que ele dirigiu sozinho), “Deserto Feliz” (Brasil, 2008) mapeia um fenômeno cultural que tem marcado o Estado nordestino desde o início da década de 1990: o turismo sexual. Dividido em três atos demarcados geograficamente (Sertão, Recife, Europa), o filme de Paulo Caldas reflete, com um lamento silencioso, a absoluta falta de perspectiva que tem funcionado como característica importante de toda uma geração de jovens nordestinos de baixa renda. É um filme de personagens cujas imagens tristes e vigorosas demonstram uma grande vontade de revelar um Pernambuco subterrâneo, mas muito real, que a grande maioria das pessoas desconhece.

“Deserto Feliz” explora um contraponto curioso em relação ao cinema hegemônico feito nos Estados Unidos. Via de regra, a esmagadora maioria dos trabalhos concebidos no estrangeiro enfoca um personagem que tem um objetivo definido e luta por ele com todas as forças. Essa obsessão – ter um sonho e persegui-lo até o limite, ou além dele – é um traço cultural norte-americano, tanto quanto faz parte do DNA cultural brasileiro certa tendência à ausência de vontade pela procura de um sentido à vida. Nesse sentido, Jéssica (Nash Laila), a protagonista de “Deserto Feliz”, é um personagem nordestino paradigmático. Monossilábica, ela mal abre a boca nos 88 minutos do longa-metragem.

Quando abre, geralmente é para cantarolar uma canção brega que prega a filosofia de estar à deriva, flanando pela vida sem objetivos, levada pelas ondas do destino. A canção é peça-chave para entender a anti-narrativa proposta por Paulo Caldas. O diretor constrói o filme com planos longos, com pouco movimento, nenhuma ação dramática e diálogos escassos, em que nada acontece (ou parece acontecer). Não há uma história propriamente dita. O roteiro contém elipses generosas, deixando de mostrar um monte de cenas que um projeto comercial certamente não deixaria de lado (em que momento Jéssica decide fugir de casa para se prostituir no Recife?). É bem fácil preencher essas lacunas de roteiro, mas a camada da platéia mais afeita a longas de Hollywood vai se perguntar: existe um motivo para a ausência dessas cenas? Qual seria ele?

A resposta está na já citada canção brega. Ela ilustra a filosofia de vida do personagem cuja personalidade – triste, taciturna, à deriva – determina o ritmo lento, ditado por uma montagem que parece meio perdida, mas somente porque precisa mesmo parecer perdida. Porque o ritmo de “Deserto Feliz” ilustra o mundo interior de Jéssica, um mundo não-verbal que vai sendo descortinado pelas imagens do interior sujo e apertado do apartamento no lendário Edifício Holiday, espécie de favela vertical habitada por prostitutas e encravada no bairro nobre de Boa Viagem. Ou pelo inferninho de terceira categoria em que as prostitutas bebem pinga e dividem mesas cobertas de ferrugem com gringos barrigudos de olhar guloso. Esses lugares, bem como o papo desesperançado das meninas, cheiram a uma realidade dura e desesperançada que existe de verdade.

Cada um dos três atos revela um pedaço do mapa cultural de Pernambuco. No Sertão, a falta de perspectiva, a desagregação do núcleo familiar, a prostituição infantil nas rodovias. No Recife, a noite decadente em que as prostitutas dividem espaço com estrangeiros sem grana. Na Europa, a frieza de uma vida insossa, sem raízes culturais – um “deserto feliz”, talvez? Sim, é verdade que o estilo se sobrepõe à narrativa, como também é verdade que essa característica quase sempre se mostra um defeito, aqui tornado evidente nas tomadas subjetivas que envolvem Mark (Peter Ketnath) no segundo ato. Elas chamam atenção demais para si mesmas, e se desviam claramente do projeto estético de captar a flanagem desesperançada e sem energia da personagem principal. De qualquer forma, trata-se de um filme muito acima da média e de especial interesse para pernambucanos.

É importante ressaltar, ainda, o desempenho brilhante de todo o elenco (com destaque para Hermila Guedes, cuja energia ameaça engolir o filme por inteiro) e o uso criativo do silêncio como ferramenta dramática em pelos menos três instantes cruciais da narrativa. Talvez por isso, “Deserto Feliz” tenha feito carreira tão idiossincrática, tendo levado quase dois anos desde sua estréia cinematográfica (no Festival de Berlim de 2007) até a aparição nos cinemas comerciais, já no final do ano seguinte. Para um filme que conquistou nada menos que seis troféus no Festival de Gramado, uma trajetória no mínimo peculiar. Até parece que “Deserto Feliz” ficou falando por aí, triste e lacônico, igualzinho a sua protagonista.

– Deserto Feliz (Brasil, 2008)
Direção: Paulo Caldas
Elenco: Nash Laila, Peter Ketnath, Hermila Guedes, Magdale Alves
Duração: 88 minutos

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