Desinformante, O

12/03/2010 | Categoria: Críticas

Além de expor hipocrisias da obsessão carreirista dos norte-americanos, comédia de Soderbergh oferece intrigante estudo de personagem

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Taí um raro caso de filme em que o título nacional é muito mais fiel e sugestivo ao enredo do que o original. “O Desinformante” (The Informant!, EUA, 2009) conta a história real das confusões armadas por um executivo de uma grande empresa norte-americana atuante na área de processamento de milho para a obtenção de lisina, um aminoácido largamente utilizado em vários ramos da indústria alimentar. Steven Soderbergh mostra perfeito controle na liberação gradual de informações que complexificam mais e mais a personalidade volátil e bipolar do sujeito, oferecendo um estudo de personagem que funciona como comédia de humor negro, drama ou horror, dependendo do ponto de vista do espectador.

De fato, “O Desinformante” esteve na agenda do diretor de Nova York desde o ano 2000, quando o livro que contava os fatos reais (escrito por um repórter do New York Times, Kurt Eichewald) foi publicado. Soderbergh comprou os direitos da publicação e tencionava filmar a versão cinematográfica após “Onze Homens e um Segredo” (2001), mas a produção atrasou por vários motivos. Este atraso acabaria se mostrando benéfico, pois permitiu ao ator Matt Damon adquirir a experiência necessária para compor de forma intensa, multifacetada e brilhante a personalidade desordenada de Archer, um executivo do meio-oeste que embarcou numa incrível história de espionagem e fraudes bancárias através de uma espiral sem controle de mentiras.

A performance de Damon, que engordou 15 quilos para o papel, dá o tom exato de nonsense e realidade excêntrica ao filme. Sempre suando, hiperativo e sem jamais demonstrar através de expressões faciais aquilo que está pensando, o executivo começa a se enrolar depois de inventar um suposto espião rival dentro da empresa em que trabalha, como explicação para encobrir o baixo rendimento da produção que está sob suas ordens. A entrada do FBI no caso põe as história de Archer numa rota desordenada, em que suas mentiras alucinadas vão se acumulado a ponto de nem ele próprio conseguir mais distingui-las. Pelo menos é o que parece… contar mais do que isso pode estragar parte das surpresas delirantes que o terceiro ato reserva ao espectador.

Se há algum problema no filme de Soderbergh, é que o longa-metragem funciona muito melhor para o público norte-americano do que para os espectadores do resto do mundo, já que a personalidade de Archer é essencialmente estruturada como a de um norte-americano médio (especialmente se ele morar no meio-oeste). Sem muita sutileza, Soderbergh usa a direção de arte e a cenografia para sugerir os estados psicóticos e o transtorno bipolar do protagonista, mas o bom roteiro nunca se excede em exposições verbais, e o elenco de apoio (sobretudo Scott Bakula, no papel do apatetado detetive que começa a investigar o caso) suporta os vôos alucinados de Damon com sobriedade.

Ademais, talvez o maior acerto de Soderbergh seja mesmo a escolha do ponto de vista narrativo: o diretor se recusa a mergulhar na personalidade psicótica do protagonista, descartando seus momentos mais íntimos e concentrando-se essencialmente nos jogos teatrais que ele monta para enganar o FBI, os executivos e a própria família. Desta forma, o diretor prepara terreno para um terceiro ato excelente, em que as diversas camadas da história vão sendo descascadas como uma cebola. Um belo filme que, de quebra, ainda expõe certas hipocrisias da obsessão carreirista do norte-americano médio.

O DVD brasileiro carrega o selo Warner. O filme tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), e o disco conta ainda com uma galeria de cenas cortadas.

– O Desinformante (The Informant!, EUA, 2009)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Matt Damon, Melanie Lynskey, Scott Bakula, Joel McHale
Duração: 119 minutos

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