Despedida em Las Vegas

20/02/2007 | Categoria: Críticas

Produção barata de Mike Figgis oferece uma visão pungente e bela de uma condição humana das mais críticas

Por: Rodrigo Carreiro

[rating:4]

Boa parte das pessoas que assistem ao triste “Despedida em Las Vegas” (Leaving Las Vegas, EUA, 1995) o acha um filme exagerado. É compreensível. Em diversas cenas, o protagonista Ben Sanderson (Nicolas Cage) é tomado por tremores alcoólicos e joga garrafas inteiras de uísque goela abaixo, sem interromper o longo gole nem mesmo para respirar. As pessoas normais, que não conseguem fazer o mesmo com Coca-Cola ou água, acreditam que esse tipo de cena é histérica ou impossível. São sortudos, os que pensam assim. Nunca viram um alcoólatra em estado terminal.

Ao longo das décadas, Hollywood já contou diversas vezes histórias de bêbados incorrigíveis, mas nunca como Mike Figgis fez neste longa-metragem barato, filmado com câmeras manuais, nas ruas e quartos verdadeiros de motéis vagabundos em Las Vegas. Não se trata de um filme de estúdio. É uma história tipicamente melodramática, sim, mas violenta e mundana, e retrata uma jornada que muitos cineastas não gostariam de abordar, assim como muitos espectadores não têm vontade de ver. É a jornada de autopunição de um homem que se sente irremediavelmente culpado e não quer mais viver por causa disso.

Inteligentemente, Figgis poupa o espectador do passado de Sanderson. Vamos apenas um relance rápido disso, quando ele abandona o lar em Los Angeles. Roteirista promissor na indústria do cinema, ele é demitido (“eu não merecia tanto”, diz, quando olha a quantia escrita no cheque de demissão) por não conseguir mais trabalhar. Então desconta o cheque, queima todos os móveis e objetos pessoais, e se muda para Las Vegas, com o objetivo nada simpático de beber até morrer. A última coisa que faz antes de ir embora é olhar de relance para uma foto em que se vê uma mulher e uma criança. Não sabemos quem são eles, nem o que Ben fez para se punir de maneira tão drástica. É uma decisão acertada de Mike Figgis, pois mergulhar no passado de Ben seria atolar no lamaçal do melodrama mais banal.

Em Las Vegas, Ben conhece Sera (Elisabeth Shue), uma prostituta de luxo espancada constantemente pelo cafetão (Julian Sands). O filme enfoca o relacionamento entre os dois. Mais uma vez, Figgis recusa o melodrama barato: não se trata de amor nascendo entre dois párias sociais, mas apenas de empatia entre dois solitários de carteirinha. Ben não ama Sera, pois isso o faria pelo menos hesitar no seu plano suicida. Sera ama Ben? Ela acha que sim. Eu acredito que não. Ela pensa que ama porque, depois de tantos anos tratada como lixo de segunda categoria, encontrou alguém que olha para ela, a escuta, conforta e abraça com carinho. Seja como for, eles se consolam, enquanto Ben ruma diretamente para a morte regada a litros de álcool.

“Despedida em Las Vegas” é o tipo de filme difícil para o espectador, pois não lhe permite alívio na experiência de assistir ao sofrimento alheio. Sentimos empatia pelos dois personagens, e torcemos para que de alguma forma haja salvação para eles, mas sabemos no fundo que isso não é possível – o mundo é implacável para gente como esses dois. Figgis filma tudo isso como um bêbado poema encharcado de álcool, jazz e blues, com muitas cenas noturnas (em que usa abundamente as luzes néon que caracterizam Las Vegas) e uma trilha sonora elegante e delicada, cheia de saxofones. O próprio diretor compôs a trilha sonora, incrementada por clássicos dos alcoólatras (“Come Rain or Come Shine”, uma típica música que se ouve nas radiolas de fichas dos bares norte-americanos).

O filme foi baseado num romance escrito por John O’Brien. Ninguém sabia, mas era um livro estranhamente autobiográfico – logo depois de publicado, com o filme ainda em produção, o autor deu um tiro na cabeça e se matou. O episódio ajudou a obra a ganhar fama de ser sorumbática e triste até a alma. É uma fama merecida, e muitos espectadores não têm vontade de se aproximar de filmes assim, escuros e sombrios, além da redação. Dá para entender. Mesmo assim, trata-se de um visão pungente e bela de uma condição humana das mais críticas. Ou seja, é cinema classe A.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela Universal. O disco é simples e contém apenas o filme, em excelente cópia, com imagem em widescreen 1.85:1 anamórfico, e som em Dolby Digital 5.1.

– Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, EUA, 1995)
Direção: Mike Figgis
Elenco: Nicolas Cage, Elisabeth Shue, Julian Sands, Richard Lewis
Duração: 111 minutos

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