Desventuras em Série

26/05/2005 | Categoria: Críticas

Gótico e extravagante, parece um filme de Tim Burton, mas não é – e isso faz diferença

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Basta um ou dois minutos de projeção de “Desventuras em Série” (Lemony Snickets A Series of Unfortunately Events, EUA, 2004) para um nome vir à mente como um soco: Tim Burton. A história dos órfãos Baudelaire se passa no universo encantado do diretor, o mesmo universo mágico de filmes como “Ed Wood”, “Edward Mãos-de-Tesoura” e, principalmente, “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”. É um mundo gótico de faz-de-contas, cheio de roupas vitorianas extravagantes, cenários hipercoloridos deslumbrantes, paisagens sinistras e direção de arte exagerada, hipercolorida e impecável. A qualidade visual belíssima é o que “Desventuras em Série” tem de melhor.

Só que Tim Burton não tem nada a ver com o projeto. O diretor se chama Brad Silberling. O sujeito teve a manha de se cercar de profissionais que fazem parte do time de colaboradores costumeiros de Burton. Os quatro profissionais responsáveis pela criação do visual do filme são crias de Tim Burton: diretor de fotografia (Emmanuel Lubezki), diretor de arte (John Dexter), designer de produção (Rick Heinrichs) e figurinista (Collen Atwood). Eles fazem o que deles se esperava, e erguem um lindo universo barroco, repleto de brumas, sombras e cores fortes. Com isso, restava ao diretor a tarefa de conduzir bem a história dos órfãos, tarefa que Silberling cumpriu com razoável eficácia.

O enredo do filme surgiu a partir de uma série de onze livros infantis, escritos por Daniel Handler. O roteirista Robert Gordon compilou as três primeiras aventuras em um único filme. “Desventuras em Série” narra o início da odisséia de três crianças milionárias, cujos pais morrem em um incêndio misterioso. Violet (Emily Browning), a mais velha, tem mania de inventar traquitanas esquisitas. Klaus (Liam Aiken) é um leitor compulsivo, o intelectual da família. Sunny (as gêmeas Kara e Shelby Hoffman) só faz duas coisas: balbuciar a linguagem encantadora dos bebês e morder, com os quatro dentinhos que já nasceram, qualquer coisa que aparecer pela frente.

O trio fica sob a guarda do tutor, o Sr. Poe (Timothy Spall). Os nomes, obviamente, são uma brincadeira com sobrenomes de escritores famosos do século XIX. A tarefa de Poe é encontrar um parente dos pais mortos que possa criá-los. O maior candidato é o nefasto Conde Olaf (Jim Carrey), mestre na arte da maquiagem que vive em uma decrépita mansão gótica caindo aos pedaços. Olaf tem todo o interesse do mundo em ficar com os garotos, porque eles são herdeiros de uma enorme fortuna. Mas, para isso, vai ter que enfrentar concorrência de gente como o tio Monty (Billy Connelly) e a tia Josephine (Meryl Streep).

O filme é adorável. A mistura de maquiagem, figurinos, cenários e efeitos especiais funciona bem, acabando por resultar em seqüências empolgantes. Numa delas, os órfãos precisam dar um jeito de tirar um carro da linha de um trem, estando dentro do veículo – oportunidade perfeita para Violet exercitar seu lado McGyver. Em outra, talvez a melhor cena de ação do filme, precisam fugir de uma casa que desaba em um penhasco à beira-mar, em uma cena que lembra bastante a fantástica passagem por dentro de Moria, no primeiro “O Senhor dos Anéis”. São duas seqüências de grudar as crianças na cadeira.

Por outro lado, existe um problema de direção que Silberling não conseguiu resolver. Jim Carrey, como o conde Olaf, é o dono do filme. Caricato ao extremo, o ator presta seguidas homenagens a grandes ícones do cinema de horror B antigo (o ator Lon Chaney, cuja figura aparece na capa de um jornal que Olaf lê; e dois ícones imortais do expressionismo alemão, o mestre dos disfarces Dr. Mabuse e o vampiro Nosferatu, ambos citados visualmente em vários momentos), mas sem deixar de lado o bom humor. Suas falas são as melhores do filme. “Eu nunca fui criança, mas reconheço a importância delas para o ecossistema”, resmunga, a certa altura. É impossível não gargalhar com pérolas como essa.

O problema é que Carey imprime uma energia tão intensa às caretas do seu personagem que ofusca todo e qualquer ator que divide a cena com ele, incluindo a veterana Meryl Streep. O espectador fica com a impressão sincera de que Brad Silberling não soube colocar o resto do elenco no tom irreal, histérico, fantasmagórico da interpretação de Jim Carrey. Ao lado de uma certa pressa em resolver o terceiro ato, em que o clímax da história se resolve de forma rápida demais, esse é o pior erro de “Desventuras em Série”. São problemas que Tim Burton, nos filmes que faz, nunca enfrenta, o que deixa antever o grande filme que “Desventuras em Série” poderia ter sido, com um diretor mais talentoso no trato com o elenco.

Não há dúvida, porém, de que esses problemas podem e devem ser atacados no futuro, já que é bastante óbvio que o longa-metragem deve virar uma série infanto-juvenil, no mesmo estilo de Harry Potter – uma inspiração bastante óbvia dos órfãos Baudelaire, com seus pais desaparecidos em circunstâncias misteriosas, que envolvem lunetas douradas e um misterioso olho mágico. Como primeira aventura, “Desventuras em Série” satisfaz. Só que deixa a platéia com gosto de quero mais.

Isso acontece também com o DVD nacional. “Desventuras em Série” saiu no Brasil pela Universal em uma edição simples, que eliminou o segundo disco da edição importada para baratear custos. Uma pena, pois essa decisão deixa os fãs brasileiros sem um conjunto de documentários de 150 minutos a respeito de um filme rico em detalhes.

O disco único do pacote brasileiro contém o filme (imagens em widescreen 1.85:1, áudio Dolby Digital 5.1), dois comentários em áudio (um do diretor, outro com o diretor e “o verdadeiro Lemony Snicket”, que é na verdade o autor dos livros, Daniel Handler), um pequeno grupo de featurettes de bastidores (três, sendo dois a respeito do trabalho de Jim Carrey e um sobre as crianças), uma série de onze cenas cortadas da edição final e uma galeria de erros de gravação. Legal, mas poderia ser melhor.

– Desventuras em Série (Lemony Snickets A Series of Unfortunately Events, EUA, 2004)
Direção: Brad Silberling
Elenco: Jim Carrey, Meryl Streep, Emily Browning, Liam Aiken
Elenco: 97 minutos

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