Deu a Louca na Chapeuzinho

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Animação rouba estrutura de clássico de Akira Kurosawa para avacalhar conto de fadas famoso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Um dos fatores responsáveis pelo enorme sucesso do filme “Shrek” (2001), especialmente junto ao público adulto, era a maneira sarcástica como a animação da DreamWorks tirava sarro de personagens consagrados, pinçados de conhecidas histórias da carochinha, como Pinóquio e os Três Porquinhos. Esta receita é a grande sacada da animação “Deu a Louca na Chapeuzinho” (Hoodwinked!, EUA, 2005). O filme usa um formato narrativo ousado, popularizado pelo diretor japonês Akira Kurosawa, para driblar as indisfarçáveis limitações que o baixo orçamento causou no terreno visual, e construir uma comédia criativa, bacana para adultos e crianças.

“Deu a Louca na Chapeuzinho” poderia ser descrito como um cruzamento do já citado “Shrek” com “Rashomon”, o clássico de 1950 de Kurosawa. O filme japonês é a inspiração assumida do roteiro de Cory Edwards, Todd Edwards e Tony Leech, pois foi construído seguindo o mesmo formato narrativo. A rigor, trata-se de reconstituir um mesmo episódio, contando-o a partir dos pontos de vista de quatro personagens diferentes. O que temos aqui, portanto, é a tradicional fábula da Chapeuzinho Vermelho, só que narrada por quatro participantes diferentes da história: a própria Chapeuzinho, a Vovó, o Lobo Mau e o Lenhador.

Por si só, esta sinopse já escancara o promissor potencial cômico do longa-metragem. Mas o filme vai além, criando um contexto ausente da história original – a existência de um meliante de identidade desconhecida que está roubando as receitas de todos os doces da floresta – e amarrando tudo em uma trama policial tresloucada, que lembra um pouco os velhos desenhos animados da turma do Scooby-Doo, exibidos na televisão nas décadas de 1970 e 80. Ou seja, é material para adultos nostálgicos se esbaldarem, e para crianças ficarem de olhos vidrados.

Um dos lances mais inteligentes bolados pelos roteiristas foi a adição de uma nova faceta, mais cínica e realista, ao caráter de cada participante da história. Assim, a Chapeuzinho Vermelho não é uma pobre garotinha ingênua, mas uma pré-adolescente furiosa que deseja mais liberdade; a Vovó, além de cozinheira de mão cheia, pratica esportes radicais secretamente; atrás da ferocidade do Lobo Mau há, na verdade, um repórter investigativo infiltrado no bosque para tentar descobrir o autor dos roubos de doces; e o Lenhador, forte como um touro e burro como uma porta, não passa de um sorveteiro aspirante a ator.

Os quatro depoimentos são fornecidos durante um interrogatório posterior ao fato em si; desta forma, o filme apresenta quatro longos flashbacks, antes de desembocar em um epílogo que funciona como apêndice ao conto de fadas original. Os personagens reconstituem o famoso episódio da Chapeuzinho através de seus próprios pontos de vista – e é aí que o filme tem sua maior virtude. O diretor Cory Edwards acrescenta novos detalhes a cada versão da história, detalhes que dão novos significados às imagens vistas antes, e põem tudo em nova perspectiva, sucessivamente.

Quer um exemplo? A narrativa da Chapeuzinho, por exemplo, inclui uma aparição fantasmagórica da avó, voando no meio das nuvens e lembrando-a de usar o capuz para se safar de uma situação complicada. Quando chega a vez da Vovó contar sua versão da história, descobrimos que existe uma explicação convincente e inesperada para aquela aparição que pensávamos ser sobrenatural, e que afinal não se tratava de uma ilusão. Há inúmeras gags assim, que complementam as versões anteriores da história, dando-lhe novo sentido. Cada nova narrativa acrescenta elementos novos ao conto de fadas, mantendo assim o interesse do espectador.

Como não poderia deixar de ser, a produção capricha nas citações visuais a longas-metragens adultos. Muitas delas são facilmente reconhecíveis, como as brincadeiras com “Missão Impossível” (o primeiro e o segundo exemplares da franquia), “Triplo X” e o indefectível “Matrix”, cujo efeito do bullet time já provocou incontáveis citações desde que foi criado, em 1999. No entanto, há também referências mais obscuras, feitas sob medida para adultos cinéfilos (“A Ceia dos Acusados” e “O Mágico de Oz”), já que nem as crianças e nem a maior parte dos adultos não vão conseguir reconhecê-las, a começar pela própria estrutura inspirada em “Rashomon”.

Apesar de tomar um rumo meio aloprado no clímax, e de o mistério referente à identidade do ladrão de doces ser razoavelmente fácil de antecipar, “Deu a Louca na Chapeuzinho” funciona perfeitamente: é rápido, engraçado e eficaz, apesar de a qualidade da animação ser evidentemente pobre. A textura e as cores dos personagens parecem claramente artificiais, e o nível de detalhes no segundo plano das tomadas não chega aos pés dos ricos filmes de animação de estúdios como Pixar e Blue Sky, defeitos que a edição veloz e cheia de efeitos modernosos tenta compensar com certo excesso de movimento de câmera. Mesmo assim, a qualidade do roteiro compensa os defeitos com sobras.

O DVD da Europa filmes é simples. A imagem respeita o formato original (widescreen), tem bom áudio (Dolby Digital 5.1), mas não possui extras.

– Deu a Louca na Chapeuzinho (Hoodwinked!, EUA, 2005)
Direção: Cory Edwards
Animação
Duração: 80 minutos

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